Uma Nova Vida
O silêncio só era interrompido pelos breves piados dos pássaros e pelo movimento das folhas. O vento surgia de tempos em tempos, fraco o bastante para refrescar a região sem perturbar os animais escondidos entre as árvores.
Por causa do formato do planeta, o Sol parecia mais próximo em alguns períodos do dia e muito distante em outros. A atmosfera, composta por uma combinação incomum de gases, filtrava a luz e espalhava cores pelo céu. Naquela região pouco habitada, difícil de alcançar, as mudanças eram ainda mais bonitas.
Depois de guerras, conflitos, massacres e destruição, Athos aprendera a aceitar definições simples de paraíso. Aquele lugar servia.
Entre árvores altas, numa faixa distante do solo e também das copas, ele construíra sua casa. A expressão casa na árvore criava uma imagem modesta demais. A morada era um complexo de ambientes suspensos, ligados por passagens que mudavam de posição. Painéis controlavam a entrada de luz, protegiam os cômodos das variações do clima e permitiam que parte da estrutura girasse ao redor do próprio eixo. Athos podia aproximar um aposento, afastar outro ou reorganizar quase tudo com o pensamento.
Muitas comodidades de suas outras vidas não existiam em Key. Não havia transmissões por satélite ou sistemas de comunicação e entretenimento semelhantes aos que conhecera em outros planetas. Ainda assim, ele espalhara telas pela casa. Nelas, reproduzia pensamentos, imagens e lembranças. Algumas surgiam com clareza. Outras vinham partidas e perdiam o sentido quando ele tentava observá-las por muito tempo.
Uma inteligência artificial simples, também comandada por sua mente, cuidava das tarefas práticas. Acendia luzes, deslocava móveis, preparava a água e mantinha a casa em funcionamento. Athos não precisava se alimentar como os seres em sua primeira vida que habitavam o planeta. Gostava, porém, dos sabores. Preparar a própria comida era uma atividade que evitava sempre que podia. Entre suas muitas habilidades, a culinária nunca merecera dedicação especial.
Também se exercitava, embora seu corpo dispensasse esse cuidado. Atividades físicas ajudavam a ocupar o tempo e devolviam alguma simplicidade aos dias. Voar era o que mais lhe dava prazer.
Suas asas haviam lhe rendido o apelido de anjo em alguns mundos. Em Key, elas chamavam atenção suficiente para tornar qualquer tentativa de anonimato quase inútil. Ali, longe das cidades, Athos podia abri-las sem pensar nos olhos de quem o observava. Gostava de ganhar altura, atravessar as correntes de ar e fazer manobras apenas para sentir o corpo reagir.
Athos tratava aqueles dias como férias, embora soubesse que durariam pouco.
Naquela manhã, Athos estava sentado diante de uma das aberturas da casa, tomando chá, quando viu o choque elétrico poucos instantes antes de ele acontecer. As antecipações mais próximas costumavam ser precisas. Mostravam movimentos, falas e acidentes com uma clareza prática. Ele inclinou o corpo para o lado e continuou com a xícara na mão.
A descarga atravessou o lugar onde estivera seu ombro e atingiu um painel de proteção. Trovar apareceu logo depois.
— Sei que você acredita que nunca conseguirá me atingir, porque vejo sua chegada antes mesmo de você estar aqui — disse Athos. — Ainda assim, poderia ser um pouco mais cuidadoso. Em todo caso, tomar um choque apenas na visão foi algo diferente do comum.
Athos tratava a chegada explosiva com naturalidade e recebia o amigo com a familiaridade de quem o vira poucas horas antes. Para os dois, o tempo transcorrido desde o último encontro podia ser medido de maneiras muito diferentes.
Trovar dispensou qualquer tentativa de cumprimento.
— Athos, parece que o momento chegou. A garota finalmente apareceu.
Athos apoiou a xícara e olhou para ele. Conhecia aquela frase havia muito tempo. Vira Trovar pronunciá-la, naquele lugar e naquele momento. A visão, no entanto, terminava quase no mesmo ponto em que a informação se tornava importante.
— Sabe o que me entristece, meu amigo? Eu sabia que você me diria isso desde quando nos separamos. Mesmo assim, não consigo enxergar onde a garota está, nem como será nosso encontro.
Havia duas formas distintas de imagem em sua mente. As antecipações breves eram ordenadas e úteis. Bastavam para evitar uma descarga elétrica, prever um movimento ou acompanhar os instantes seguintes de uma conversa. As outras podiam atravessar períodos imensos. Chegavam quebradas, fora de sequência, povoadas por lugares e pessoas que pareciam conhecidos antes que ele soubesse por quê. Athos as tratava como visões de um futuro distante. Era a única interpretação que conseguia dar a elas.
Com algumas pessoas, até as previsões mais simples perdiam nitidez. A garota estava cercada por essa falha.
— Posso ver muita coisa antes que aconteça, mas certas pessoas interrompem o caminho. Isso me deixa frustrado — continuou. Um sorriso apareceu em seguida. — E também empolgado. Surpresas são raras para mim.
— Podemos encontrar Sussurro e Silency? — perguntou Trovar.
Ele parecia incapaz de desperdiçar um minuto, apesar das eras que também carregava.
— Não será necessário. Você vai me levar ao lugar onde perdeu a pista. Sussurro e Silency nos encontrarão lá.
Trovar hesitou antes de fazer outra pergunta. Athos ergueu uma das mãos.
— Sim, teremos problemas no caminho. Alguns desafetos estarão lá, porém são pessoas que nos temem. A intimidação deve ser suficiente. Não precisamos mostrar quem somos.
Trovar não parecia preocupado com os possíveis inimigos. Para chegar ao destino pelo caminho mais rápido, teriam de atravessar o lado oposto daquela região tranquila. Os campos magnéticos interagiam de forma bastante incômoda com a energia produzida pelo corpo dele. Por isso, costumava fazer um trajeto muito mais longo quando visitava Athos.
— E, sim, vou rir quando a lama da floresta grudar em você e começar a explodir no seu rosto — acrescentou Athos. — Assim economizamos mais uma pergunta.
Trovar o encarou, sem encontrar resposta que melhorasse sua situação.
Athos terminou o chá e se levantou. A casa percebeu o movimento e começou a preparar a saída. Uma passagem se aproximou, os painéis laterais se abriram e a luz colorida do céu tomou o ambiente.
A calma daquele lugar ficaria para trás. Athos acreditava que conseguiria voltar depois, embora suas imagens mais distantes não lhe dessem segurança alguma. Via fragmentos sem ligação aparente: gelo, vozes, uma jovem que nunca permanecia no mesmo lugar e acontecimentos que pareciam avançar e retornar ao mesmo tempo. Por enquanto, tinha uma direção e precisaria confiar nela.