O Baile
Athos acompanhou Athena em direção à pista. O espaço se alongava sob os pés. Eles viam o centro do salão com clareza, embora o caminho tivesse mais curvas e corredores do que a distância aparente permitia.
Os músicos usavam instrumentos de madeira, cordas e sopro. Hermes alterava a acústica, distribuindo o som por regiões que não deveriam caber dentro do palácio.
— Fazia muito tempo que eu não ouvia música assim — disse Athos.
Athena observou Hermes orientar músicos, convidados e mesas ao mesmo tempo.
— Ele poderia usar esse poder para quase qualquer coisa. Escolheu fazer uma festa funcionar.
— Talvez seja a forma que encontrou de manter o mundo organizado.
Athena contou o que ouvira sobre Hermes e Cronos. Os dois haviam sofrido sob Elaryan e construído respostas diferentes para o controle. Hermes transformava detalhes em proteção. Cronos desconfiava de qualquer estrutura capaz de agir sozinha.
Athos perguntou se uma consequência boa poderia justificar quem provocara o sofrimento.
— Não — respondeu Athena. — Também não vou fingir que a dor passa por alguém sem produzir nada. O que Hermes fez com ela pertence a ele. O dano pertence a quem o causou.
Athos aceitou a resposta. Chamou duas taças de uma bandeja distante e ofereceu uma a Athena. Ela provou com seriedade exagerada e aprovou.
Antes que alcançassem os demais, Athos retirou o colar do bolso.
Athena reconheceu a peça.
— Ele foi destruído.
— O original foi. Minha casa reconstruiu Olimpo a partir das minhas lembranças e produziu isto com matéria de Fóster. Não veio do passado.
Ela segurou o colar e encontrou a deformação próxima ao fecho.
— Você lembrava até disso?
— A casa lembrava em mim.
Athena permitiu que ele prendesse a corrente em seu pescoço. Tocou a peça durante alguns segundos.
— Continua sendo outro objeto.
— Sim.
— E continua sendo você tentando me devolver alguma coisa.
— Não substitui o que foi perdido — disse Athos.
— Não precisa substituir.
Athena observou o reflexo da peça numa janela escura. O colar pertencera a uma relação interrompida por morte, distância e versões diferentes dos dois. A reconstrução não corrigia nada. Ainda assim, permitia que ela escolhesse usá-lo outra vez.
A música mudou, e os dois começaram a acompanhar o ritmo.
Nos primeiros passos, Athena riu da dificuldade dele. Athos recuperou o compasso e a puxou para perto.
— Você me amou de verdade? — perguntou ela.
A pergunta chegou sem preparação. Athos respondeu que sim. Amara Athena durante a vida que dividiram e ainda a amava. O sentimento não apagava o que vivera com Silency e Sussurro, nem os vínculos que construíra depois.
— Eu passei uma vida acreditando que você era a única coisa realmente minha — disse Athena. — Descobrir que nunca seria exclusiva doeu mais do que eu admitia.
— Você nunca foi menos importante por isso.
— Estou começando a entender.
— E o que você quer de mim agora? — perguntou Athena.
Athos não tinha uma definição pronta. Queria estar perto, descobrir quem ela se tornara e deixar que o vínculo encontrasse uma forma sem reproduzir a vida anterior por obrigação.
— Quero esta dança. Depois, quero poder perguntar de novo.
Athena aproximou o rosto.
— Essa resposta serve por enquanto.
Athos falou das relações que tivera em outras vidas e de como afeto, desejo e compromisso não assumiam sempre a mesma forma. Athena ouviu sem transformar a conversa em promessa para aquela noite.
Hermes surgiu no centro do salão e abriu espaço com uma corrente de ar.
— Dança de apresentação! Protetores de Fóster e convidados, aproximem-se.
Os participantes ocuparam o círculo. Hermes explicou que linhas luminosas indicariam os passos e que as mudanças da música marcariam giros e pausas. Correntes de ar sustentariam elevações quando os participantes fizessem o sinal combinado. Quem quisesse abandonar a orientação poderia dizer livre.
A música recomeçou como valsa.
Os casais e grupos giraram em trajetórias que se cruzavam sem colisão. Athos levantou Athena depois do sinal dela e a trouxe de volta. Móretar e Adwig se aproximavam e se afastavam com uma hesitação que a coreografia parecia gostar de provocar. Krakor ria sempre que Médera o fazia perder a solenidade.
Dafa recusara a formação de pares obrigatórios. Bel, Nerfate, Conelli, Hertho e Carl se juntaram a ela numa composição coletiva que mudava a cada volta. Drácula e Morgana discutiam sobre qual dos dois errara um passo enquanto executavam o restante com perfeição. Hermes dançava com Agah e ainda encontrava tempo para corrigir a iluminação.
Athos viu Sussurro dançando com Trovar. Ela parecia ter escolhido bem.
Na última sequência, os pares e grupos ficaram suspensos na horizontal. A coreografia os separou, conduziu uma rotação e os reuniu para o encerramento.
A nota final se prolongou até que todos voltassem ao chão. Móretar permaneceu diante de Adwig. Depois de uma hesitação curta, beijou-a. Adwig segurou o rosto dele e correspondeu antes que prudência ou plateia interferissem.
Dafa ergueu a voz do outro lado da pista:
— A primeira dança livre é minha!
Adwig riu e confirmou. Hermes dispensou as formações da abertura e iniciou outra valsa, agora para qualquer pessoa que ainda quisesse acompanhar as linhas luminosas. Athos voltou a dançar com Athena. Sussurro escolheu Trovar.
Em uma das sequências, as duplas ficaram suspensas na horizontal. A orientação as separava, conduzia uma rotação e as reunia no refrão seguinte.
Athos percebeu que os intervalos permitiam uma troca por portal sem interromper a dança. Procurou Trovar. O amigo acompanhou seu olhar, calculou o tempo e sorriu.
Athena notou a comunicação.
— O que vocês vão fazer?
— Um pequeno improviso.
— Isso costuma terminar bem?
— Ainda não sei.