Bom Samaritano Athos - Contra o Tempo · Capítulo 34 de 53
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Bom Samaritano

Afrodite perguntou quem retirara Atlantis de Vésper e onde estavam Poseidon e Hades. Médera respondeu que o salvador não deixara nome, sinal ou explicação.

Atlantis começara a se mover com o planeta. A água mudara de direção, prédios se rompiam e nenhuma saída permanecia estável. Médera abraçara Lúcifer e esperara a destruição. No instante seguinte, os dois apareceram naquele mundo líquido com Silency e quase metade da população.

— E a outra metade? — perguntou Athos.

— Desapareceu com Vésper ou foi levada para outro lugar. Procuramos durante meses.

Lúcifer tentou retomar o assunto de Silency. Athos já conseguia sentir a energia dela a certa distância e se transportou antes que ele concluísse.

Silency estava sentada numa área rasa, cercada por formações translúcidas que se abriam e fechavam como organismos marinhos. Uma faixa espessa cobria seus olhos. Ela perdera os cabelos, e uma aura vermelha aquecia o líquido ao redor do corpo.

— Silency, o que aconteceu?

A resposta surgiu na mente dele.

— Talvez eu tenha deixado de ser humana. Ainda estou decidindo se isso me incomoda.

Athos se ajoelhou diante dela. Krakor, Afrodite, Médera e Lúcifer chegaram logo depois.

Silency contou que acordara naquele planeta com fogo saindo dos olhos. Fechá-los queimara suas pálpebras; mantê-los abertos incendiava tudo à frente. Tentara pedir ajuda, levitara sem compreender e atravessara uma parte do mundo em alta velocidade, espalhando chamas pelas correntes.

Lúcifer encontrara um material indicado por Médera e sofrera queimaduras para prender a faixa. O fogo permanecera contido desde então.

— Consigo sentir cada pessoa ao meu redor — continuou Silency. — Também ouço pensamentos quando não consigo afastá-los. Em algumas mentes, basta insistir para mudar uma decisão.

Athos perguntou se ela havia feito isso.

— Uma vez. O homem queria fugir enquanto Lúcifer prendia a faixa. Eu o obriguei a ficar. Só percebi depois.

Ao terminar, pediu que Athos mudasse de assunto.

Silency desapareceu diante do grupo. A água ainda contornava o corpo invisível. Quando tocou uma das formações translúcidas, ela também sumiu.

— Posso esconder o que toco. Ainda não sei por quanto tempo.

Krakor perguntou pelos cabelos. Athos lançou-lhe um olhar irritado.

— Ela acabou de explicar que pode incendiar o que vê e dominar pensamentos.

— Eu ouvi. O cabelo também fazia parte dela.

Silency agradeceu a pergunta. Nenhum pelo voltara a crescer, e as transformações que antes lhe permitiam alterar a aparência haviam desaparecido.

— Onde está Sussurro? — perguntou.

Athos explicou que a visão de Vésper chegara durante o ataque e que abrira o portal com quem estava ao alcance. Silency pediu que a trouxesse quando pudesse. Tentou soar tranquila, sem conseguir.

Athos examinou a energia ao redor dela. As mudanças eram numerosas, embora uma delas reagisse de forma distinta às perguntas. Ele se aproximou.

— Existe outra mente ligada à sua.

Silency perdeu o sorriso.

— Não existe.

— Ela se esconde quando você procura.

O medo abriu uma alteração imediata. A pele de Silency escureceu até adquirir um azul profundo. Ela pediu que Athos descrevesse o que acontecia. Antes que ele respondesse, a faixa rompeu.

Olhos enormes se abriram num rosto que já não conservava forma humana. Os braços se alongaram em garras, e o corpo se tornou uma massa de matéria densa, suspensa sobre o líquido.

A voz continuou telepática. O modo de falar havia mudado.

— Obrigado, Athos. Ela resistiu durante meses. Você encontrou o medo de que eu precisava.

Krakor ergueu o tridente. Athos bloqueou o caminho da arma.

— Silency ainda está aí.

A criatura pareceu satisfeita.

— Está. Ferir este corpo pode matá-la. Talvez a morte nos separe. Talvez leve nós dois para a mesma próxima vida.

Disse que Silency desperdiçara possibilidades esperando o retorno de pessoas que amava. Com aqueles poderes, poderia submeter civilizações e atravessar galáxias. A criatura prometia libertá-la dessa hesitação.

Médera perguntou se fora ela quem transportara Atlantis.

— Fui o bom samaritano de vocês.

Então descreveu o salvamento. Espalhara veneno pela água de Atlantis antes que Vésper entrasse na dobra. A população morrera quase ao mesmo tempo. No momento em que as partículas essenciais se desprenderam dos corpos, a criatura as conduzira por uma passagem até aquele planeta. Segundo ela, o ambiente líquido favorecera a formação das vidas seguintes com traços muito próximos dos anteriores.

Médera avançou, e Lúcifer a conteve.

— Você assassinou todos nós.

— Evitei que fossem desfeitos com o planeta.

— Escolheu por milhares de pessoas.

— E milhares continuam existindo para reclamar.

Afrodite perguntou que espécie possuía poder para interferir numa passagem entre vidas. A criatura respondeu que surgira entre as primeiras formas conscientes do Universo. Sua partícula essencial desenvolvera afinidade com sistemas nervosos e aprendera a se fixar neles, absorvendo habilidades e lembranças.

Chamou a si mesma de carrapato. A palavra podia ser apenas a tradução que escolhera para algo sem equivalente na língua deles. Também afirmou que teria dominado o Universo se sua forma inicial tivesse recebido um corpo digno. Athos não encontrou motivo para acreditar nessa parte.

O carrapato possuía um teletransporte limitado, adquirido de um hospedeiro anterior. Conseguia usá-lo quando o corpo corria risco. Silency fora a mente mais difícil que tentara dominar e passara meses impedindo que assumisse o controle.

— Talvez você seja um abrigo melhor — disse a Athos.

A criatura avançou. Lúcifer lançou uma corrente de matéria incandescente, espessa como lava, que queimou parte do corpo azul. Krakor preparou o tridente.

— Espere — ordenou Athos. — Ainda não sabemos o que o golpe fará com ela.

O carrapato aproveitou a hesitação e envolveu as mãos de Athos. A energia tentou subir pelos braços e alcançar sua mente. Ele sentiu lembranças serem tocadas como objetos expostos.

Krakor atacou. A ponta do tridente atravessou o espaço no instante em que a criatura soltou Athos. O corpo azul desapareceu.

Afrodite procurou o rastro e encontrou apenas direções interrompidas. O teletransporte de emergência não deixara um destino estável.

Athos caiu de joelhos. Ele identificara a outra mente e entregara a ela a abertura que buscava. As correntes do planeta continuaram a passar pelo grupo enquanto todos compreendiam que o resgate de Atlantis fora construído sobre uma matança.

Silency desaparecera usando o medo que ele provocara.

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