Os Elfos Iluminados
Athos percebeu o próprio corpo se afastar. Não houve dor. A matéria permaneceu na praça enquanto sua consciência atravessava uma camada que ocupava o mesmo espaço.
Quando a luz voltou, ele viu Percento abaixo dos pés e outra paisagem ao redor. Árvores, rios e campos cobriam a cidade física sem escondê-la por completo. As duas realidades se sobrepunham como imagens projetadas em superfícies diferentes.
Dircle soltou a mão dele e produziu pequenas luzes entre os dedos.
— Bem-vindo a Alfheim. Poucos entram sem o preparo dos elfos iluminados. Menos ainda entram carregando duas simbioses e a certeza irritante de que sobreviverão.
Athos procurou o vínculo com o corpo. Encontrou uma linha tênue, estendida até a praça. A simbiose da ave permanecia quase imóvel. A do boto reagia à ausência de pressão e tentava criar uma forma para um corpo que não estava ali.
— Quanto tempo posso ficar?
— Até alguma parte de você discordar das outras.
Athos subiu para observar os limites do campo. Alfheim cobria apenas aquela região de Extern. A paisagem respondia a uma articulação mental sustentada por Freyr e por seus habitantes. Nada ali parecia falso para quem sentia, pensava e construía dentro da camada. Também nada existiria sem a continuidade do campo.
Vésper dependera dele de outra maneira. Athos escolhera o planeta, preparara regiões e oferecera abrigo a povos ameaçados. Em pouco tempo, decisões coletivas começaram a disputar espaço com soluções que somente ele podia executar. Freyr fora além: construíra uma realidade cujo funcionamento dependia de sua autoridade.
Athos encontrou Adwig e Dafa diante do criador de Alfheim. Freyr explicava que poderia deslocar a camada durante uma catástrofe. Citou Vésper como prova de que nenhum refúgio físico bastava.
Adwig suspeitava que Elaryan desejasse concentrar seres poderosos naquele lugar. Dafa considerou outra possibilidade: talvez Alfheim fosse uma reserva para algo que ainda não compreendiam.
— A suspeita muda o que sentiram aqui? — perguntou Freyr.
— Muda o que podemos escolher sabendo quem participa da decisão — respondeu Adwig.
Athos saiu de trás das árvores. Dircle anunciou que o grande Deus Urano encontrara o caminho graças a ele.
— Athos basta — corrigiu.
Adwig e Dafa disseram seu nome quase juntas. Freyr perguntou como atravessara.
Athos alcançou uma árvore do plano físico e retirou uma fruta. Atravessar a matéria entre as camadas exigiu esforço, mas confirmou que ele também conseguiria abrir uma saída.
Freyr avançou.
— Afaste-se da estrutura.
Uma rajada densa alterou o ar e arrastou parte da relva. Athos ergueu uma barreira. O golpe se espalhou contra ela, endureceu e caiu como uma peça metálica.
Os moradores recuaram. Alguns buscaram Freyr. Outros olharam para a abertura ainda pequena entre as realidades.
Athos sentiu o impulso de romper o campo e retirar todos dali. Poderia fazê-lo. A facilidade da solução trouxe de volta os corpos imóveis em Kimmer e a voz de Sussurro perguntando quem passaria a dominar.
— Não vim destruir Alfheim — disse. — Também não conheço o plano completo de Elaryan. Recebo imagens fragmentadas. A hipótese de simples contenção não explica tudo.
Adwig perguntou se ele podia abrir uma saída.
— Posso. Cada pessoa precisará de ajuda para reconstruir o corpo.
Ela chamou os habitantes e contou o que descobrira. A estabilidade da camada dependia da regularidade mantida na cidade física. Jornadas, circulação e repouso eram corrigidos sempre que o comportamento coletivo ameaçava o campo. Quem vivia em Percento sustentava Alfheim sem conhecer o custo.
Freyr confirmou o mecanismo. Avisou que sair podia causar perda de capacidades, falhas na reconstrução e morte. Permanecer significava continuar dependente dele e da estabilidade local.
Athos abriu a passagem para a praça. Chae, Lottor e dezenas de moradores aguardavam do outro lado.
— Athos oferece um caminho — disse Adwig. — Ele não pode escolher por vocês o que haverá depois.
Ninguém se moveu.
Uma mulher se aproximou e pediu para sair. Athos guiou a partícula essencial através da abertura e refez as conexões com a matéria do outro lado. Quando ela respirou na praça, outras pessoas começaram a fazer perguntas.
Algumas atravessaram. Klif permaneceu junto de Freyr. Gagoim e Bortu fizeram a mesma escolha. Outros decidiram ficar por confiança, medo ou satisfação com a vida que possuíam. Um terceiro grupo pediu tempo.
Athos manteve a abertura enquanto conseguiu. Adwig e Dafa passaram depois dos últimos que escolheram partir naquele momento. Dircle saiu sozinho e reclamou por ninguém ter admirado sua técnica.
Durante o fechamento, uma imagem atingiu Athos. Elaryan estava diante de Freyr. A mão dela alcançava o peito dele, e o corpo se transformava em luz.
A passagem perdeu estabilidade. Athos não viu o que acontecera antes nem o que viria depois.
Na praça, Dircle tentou reabrir Alfheim. As linhas luminosas surgiram ao redor das mãos do gnomo e desapareceram sem encontrar destino.
— Freyr ainda está lá? — perguntou Adwig.
— Não sei — respondeu Athos. — Vi uma parte. Pode ter sido um acontecimento, uma possibilidade ou uma sequência incompleta.
Dircle pousou no ombro dele, abatido por poucos segundos. Depois se ergueu e olhou para a multidão.
— O grande Deus Urano abriu o caminho que nem Gaia poderá fechar.
Athos abriu as asas para interrompê-lo antes que a frase se tornasse outra ordem.