O Planeta Extern
Athos conteve os últimos focos de incêndio. A cidade havia sido abandonada antes do fogo alcançar os edifícios centrais. Nenhum corpo permanecia nas ruas e as rotas de saída estavam livres, sinais de uma destruição planejada.
Pessoas começaram a voltar quando a fumaça diminuiu. Grupos ocuparam quarteirões diferentes e trabalharam sobre os escombros. Cinzas, concreto, vidro e metais retorcidos perderam a forma, separaram-se em partículas e voltaram a se reunir.
A cidade reconstruída não repetia o projeto anterior. Casas inclinadas dividiam espaço com torres circulares, jardins suspensos e corredores abertos. Algumas paredes conservavam irregularidades porque os novos moradores preferiam marcas humanas à precisão das estruturas deixadas por Elaryan.
Athos aproximou-se de um rapaz que coordenava a abertura de uma praça.
— Você é o fiscal que ela anunciou? — perguntou o jovem.
Athos poderia negar. A oportunidade de ouvir aquela comunidade sem ser tratado como aliado de Elaryan duraria pouco.
— Preciso registrar o que aconteceu — respondeu.
O rapaz se apresentou como Brandok. Disse que a cidade anterior fora entregue pronta, com casas, depósitos, ferramentas e instruções. Também definia onde cada pessoa viveria e o que deveria produzir.
— Queimaram a cidade para rejeitar a divisão? — perguntou Athos.
— Votamos. Quase todos concordaram. Quem queria conservar alguma coisa retirou antes.
Athos observou a reconstrução. Destruir uma cidade utilizável parecia desperdício. Habitar para sempre uma decisão de Elaryan talvez fosse um desperdício maior.
Pediu que Brandok contasse como chegaram a Extern.
O rapaz hesitou. Um fiscal verdadeiro já conheceria a história. Athos disse que comparava depoimentos porque relatórios anteriores tratavam sofrimento como etapa de treinamento. A irritação de Brandok diminuiu o bastante para que continuasse.
Sua primeira vida terminara aos dezoito anos. Acordara num planeta de fogo com outras pessoas recém-mortas. Muitos possuíam experiência ainda menor. O mundo os esperava vazio, equipado com manuais sobre morte, manipulação de temperatura e formação de comunidades.
O treinamento começava pela resistência ao calor. Depois avançava para explosões, combate e recuperação de matéria. Os exercícios valorizavam poder destrutivo, embora os manuais afirmassem prepará-los para proteger outras populações.
— E vocês aceitaram? — perguntou Athos.
— No início. Era a única explicação disponível.
Seres protegidos por armaduras chegaram algum tempo depois. Usavam seringas para matar cada habitante com precisão. O grupo despertou junto em outro planeta, onde a mesma tropa reapareceu. Na terceira vida, os jovens compreenderam que a repetição era intencional e reagiram.
Cada morte ampliava as capacidades. Eles destruíram parte dos atacantes, descobriram que alguns eram pessoas conduzidas por ordens e acabaram enviados para um mundo de gelo. Sobreviveram tempo suficiente para alcançar novos limites antes de aparecerem em Extern.
Elaryan os aguardava. Quando tentaram atacá-la, ela interrompeu o fogo, imobilizou todos e os libertou no instante seguinte. Pediu desculpas pela demonstração e afirmou que planejara uma evolução com menos separações e menos risco do que as mortes aleatórias do Universo.
— Ela admitiu ordenar os ataques? — perguntou Athos.
— Disse que criou as condições. Nunca explicou quem segurava as seringas.
Brandok acreditava que Elaryan queria a energia daquele povo. A gratidão esperada fazia parte do projeto. A cidade pronta reforçava a mesma mensagem: sobrevivência, poder e abrigo pareciam presentes, desde que todos aceitassem a função preparada para eles.
— Por isso o incêndio — concluiu Athos.
— Por isso a cidade nova.
Eles haviam criado um conselho temporário para distribuir recursos durante a reconstrução. O conselho perderia autoridade quando as moradias estivessem prontas. Outros grupos defendiam mantê-lo; alguns queriam assembleias por bairro. Ninguém sabia ainda qual solução funcionaria.
Athos caminhou entre as obras e conversou com os moradores. Eram muito jovens quando comparados aos seres poderosos que conhecia. O mais experiente somava menos de trinta anos entre todas as vidas.
Elaryan acelerara capacidades que normalmente exigiriam séculos. O resultado combinava força, trauma e uma urgência política que nenhum manual preparara.
Athos lembrou de Vésper. Também criara um planeta e oferecera uma ideia de vida melhor. Muitas pessoas haviam aceitado porque confiavam nele ou porque as opções anteriores pareciam piores. A distância entre refúgio e projeto pessoal podia diminuir sem que o criador percebesse.
Pensou em Adwig. Desde a primeira visão, ela surgia ligada ao fim do Universo e à espada que ele ainda carregava. Athos atribuía a mudança das imagens à proximidade dela. Talvez a relação estivesse invertida: Adwig podia ser uma das variações que tornavam as imagens menos confiáveis.
Silency voltou à sua mente. Elaryan garantira que ela seria salva por outras pessoas. Athos ainda não sabia se aceitar essa informação era prudência ou uma forma conveniente de obedecer.
Encontrou Brandok quando a praça já possuía bancos, árvores e uma estrutura aberta para reuniões. O rapaz apresentou Acid e Longivita, responsáveis por duas áreas da reconstrução. Eles pretendiam explorar outras regiões de Extern quando o trabalho terminasse.
A maior parte dos viajantes escolhera o lado onde o céu adquiria tons roxos. Brandok, Acid e Longivita seguiriam para uma faixa coberta por nuvens negras e tempestades constantes.
Felicity e Giona chegaram durante a conversa e pediram para acompanhá-los. As duas haviam trabalhado nos sistemas de calor da cidade e queriam conhecer povos que manipulassem outras formas de energia.
Athos identificou naquela direção o rastro de Adwig.
— Também preciso chegar lá.
Brandok perguntou se ele abandonaria a função de fiscal. Athos abriu um portal.
— Nunca fui fiscal. Meu nome é Athos.
Os cinco se entreolharam. Brandok riu primeiro.
— Eu sabia que Elaryan não mandaria alguém disposto a ouvir.
Athos convidou o grupo a atravessar. A partir dali, investigaria o projeto de Elaryan sem esconder o próprio nome.