Contra o Tempo
Athos tentou abrir uma passagem. O espaço cedeu por alguns centímetros e voltou à posição.
Elaryan fincou a arma na superfície escura. Linhas luminosas partiram da lâmina e formaram uma esfera ao redor dos dois.
— Você não consegue sair enquanto eu sustentar o campo.
— Então é aqui que espera há tanto tempo.
— É aqui que tudo volta a ser possível.
Os sete planetas moviam-se no céu. Athos reconheceu Paradise, Novo Olimpo, Key, Fóster, Kimmer, Moonday e Inc. A distância entre eles não correspondia ao espaço que conhecia. Pareciam imagens trazidas para perto por alguma deformação.
— Onde estamos?
— Perto do eixo que iniciou a expansão. O Universo ainda cresce para quase todos. Daqui, já podemos acompanhar o retorno.
Athos procurou Paradise e percebeu alterações rápidas na superfície. Pontos de luz surgiam e desapareciam. Cidades mudavam de tamanho enquanto ele observava.
— Quanto tempo está passando?
— Para nós, minutos. Para eles, o bastante para que se preparem.
— Vinte e cinco anos?
Elaryan inclinou a cabeça.
— Você se lembra desse número?
Athos via fragmentos. Pessoas reunidas em Paradise. Érebo atravessando um espaço branco. A arma erguida acima dele. Depois, ausência.
— Lembro que tentei impedir você.
— Tentou salvar a si mesmo.
— E falhei.
Elaryan retirou a arma do chão. O campo permaneceu preso às linhas deixadas na superfície.
— Suas imagens sempre terminavam antes da minha vitória. Era o limite do que sua partícula conseguia carregar.
Athos se aproximou. A arma emitiu um pulso, e ele parou.
— Por que ela carregava alguma coisa?
Elaryan olhou para os planetas. Por um instante, sua expressão perdeu a satisfação que mostrara em Paradise.
— Eu já sei sobre seu primeiro campo — disse Athos. — Sei da fração em que sua partícula ficou fora da reinicialização. Quero saber o que aconteceu comigo.
— Você estava perto.
— Isso também já contou. Proximidade, compatibilidade e repetição. Como as lembranças atravessaram?
— Meu campo tentou manter matéria e informação ligadas. Falhou com meu corpo e com meu cérebro, embora parte da organização tenha ficado marcada na partícula essencial. Em você, preservou menos. Relações entre imagens, sensações e acontecimentos sobreviveram sem a sequência que lhes dava sentido.
Athos olhou para as linhas que fechavam o espaço.
— Em alguns ciclos, perto demais.
As imagens vieram sem ordem. Ele viu Elaryan sorrindo em lugares que nunca visitara. Reconheceu o toque dela, discussões, despedidas e reencontros. Em uma das cenas, segurava a mesma espada. Em outra, procurava Elaryan enquanto os mundos desabavam.
— Nós nos amamos.
— Algumas vezes.
— Foi isso que preservou minhas lembranças?
— Foi isso que manteve você próximo de mim no fim. O mecanismo era outro. Seu arranjo de partículas tinha compatibilidade com o meu campo. A repetição fortaleceu o que sobrevivia. Você nunca permaneceu fora do reinício como eu. Partes de sua organização atravessavam e apareciam como imagens em outras vidas.
— Por isso são fragmentos.
— E por isso eu me afastei.
Athos recordou o encontro em Krimost. A intimidade ainda pertencia àquela vida, aos desejos e aos erros dos dois. O reconhecimento que a antecedera vinha de muito antes.
— Você queria impedir que eu chegasse aqui.
— No começo, eu queria impedir que você se destruísse tentando me acompanhar. Depois percebi que cada proximidade aumentava o que conseguia levar ao ciclo seguinte. Passei a encontrá-lo mais tarde. Fiz com que chegasse ao fim cada vez mais distante de mim.
— Até eu esquecer que essas imagens eram lembranças.
— Você as chamou de visões. Era mais seguro permitir que continuasse acreditando nisso.
Athos percorreu a esfera. Em cada ponto, o espaço resistia à abertura de seus portais.
— Seguro para quem?
— Para o curso que precisava se repetir.
— Você já admitiu que fortaleceu profecias. O que fazia entre um ciclo e outro?
— Comparava as divergências. Aprendi quais crenças reapareciam sozinhas e quais precisavam chegar a uma pessoa, uma família ou um governo. Uma história contada no momento certo podia evitar uma alteração séculos depois.
— André.
— A crença no Prometido o colocou em posições que eu conhecia. As escolhas continuaram sendo dele. Adwig, César e tantos outros também decidiram por conta própria. Eu preparava circunstâncias, preservava relatos e alimentava expectativas. Nunca controlei cada pessoa.
— Só reduziu as possibilidades até que as escolhas servissem ao seu plano.
— Reduzi os riscos de todos desaparecerem por causa de uma variação inútil.
— Inútil para você.
Elaryan voltou a fincar a arma. Um fio luminoso se estendeu até Fóster.
— Você ainda pensa em cada vida como se pudesse protegê-la separadamente. Eu vi todas terminarem mais vezes do que conseguiria contar. Vi civilizações surgirem com os mesmos medos, repetirem as mesmas guerras e chegarem ao mesmo colapso. Pequenas mudanças produzem perdas diferentes. O fim permanece.
— E sua resposta foi obrigar todos a percorrer o caminho que lhe dá mais poder.
— Minha resposta foi acumular o necessário para ultrapassar o limite. Se existe algo além do Universo, alguém precisa chegar até lá.
Outro fio alcançou Paradise. Depois, Key.
Athos tentou tocar uma das linhas. A energia percorreu seu braço e o afastou.
— A arma contém Gabriel e os anjos.
— Contém todas as organizações que as quinze partes carregavam. Quando o Cinturão completar o movimento, ela receberá as partículas dos sete planetas.
— Você pretende levar todos.
— Pretendo impedir que recomecem sem direção. Desta vez, minha consciência permanecerá organizada durante a passagem. Terei força para descobrir o que existe acima desta estrutura.
— E, se não houver nada?
— Construirei algo.
Athos observou os planetas. Anos passavam enquanto os minutos mal alteravam a respiração de Elaryan. Em Paradise, regiões antes escuras se acenderam. Rotas pareciam convergir para um ponto que ele não conseguia distinguir.
Trovar recebera tempo.
Athos se concentrou na lembrança do fim anterior. Viu a arma subir. Sentiu o campo enfraquecer. Abriu um portal ao redor do próprio corpo e desapareceu antes do golpe.
Depois, nada.
— Eu fugi — disse.
— Você tentou. O deslocamento o colocou na trajetória da expansão. Sua partícula se desorganizou antes de atravessar.
— E você espera que eu faça isso outra vez.
— Você sempre procura uma saída.
Athos tocou a empunhadura da espada presa às costas. Já não estava ali. A lâmina que carregara por tantas vidas fazia parte da arma nas mãos de Elaryan.
— Passei cada existência abrindo caminhos porque acreditava que liberdade era ter para onde ir.
— Continua acreditando.
— Agora sei que uma passagem também pode mudar o que chega ao outro lado.
Elaryan examinou o rosto dele. Athos deixou que ela procurasse alguma decisão conhecida.
Os fios alcançaram Novo Olimpo, Kimmer, Moonday e Inc. O Cinturão estava completo.
O céu começou a fechar.
Não havia som. A luz dos planetas se alongou em direção à arma. Matéria, energia e organizações de vida foram atraídas pelos sete fios. Athos sentiu Roc recolher as asas. O vínculo continuava com ele, embora o corpo do simbionte já não ocupasse o mesmo espaço.
A esfera de Elaryan tremeu.
Por um instante, o campo que impedia os portais precisou alimentar a arma.
Athos abriu uma passagem do tamanho de sua mão. Elaryan voltou parte da energia para a esfera, e o espaço se fechou.
— Ainda não — disse ela.
A arma mudou. As cores das quinze partes desapareceram sob uma luminosidade branca. Vozes, pensamentos e formas se concentravam na lâmina sem alcançar o lado de fora.
Elaryan a ergueu.
— Você poderia ter chegado até aqui comigo.
— Eu cheguei.
— E escolheu se opor outra vez.
— Escolhi não entregar a você a decisão de todos.
Ela golpeou.
Athos sentiu o campo se desfazer para sustentar a força da lâmina. A imagem que carregava terminava naquele instante. Tudo depois dele pertencia a um acontecimento que Elaryan ainda não vivera.
Em vez de abrir a passagem ao redor do próprio corpo, Athos a abriu diante da arma.
A ponta desapareceu e surgiu atrás de Elaryan.
Ela tentou interromper o movimento. A força reunida no golpe já atravessava o portal.
A lâmina atingiu suas costas.
Elaryan olhou para Athos, surpresa pela primeira vez.
O branco tomou o espaço.