A Arma das Armas
Móretar foi o primeiro a atravessar. Dafa, Arthur e os demais seguiram por uma abertura que já recebia o reflexo vermelho de Paradise. Athos manteve a passagem e esperou até ficar sozinho em Ux.
Então abriu outra, estreita o bastante para impedir que alguém passasse.
Trovar apareceu do outro lado, cercado pela escuridão de Érebo.
— Se eu desaparecer com Elaryan, espere — disse Athos. — Use Érebo apenas quando o Cinturão começar a se mover.
— O que mudou?
Athos pensou na imagem da espada fora de suas mãos. Durante anos, tentara descobrir o que aconteceria. Agora reconhecia outra pergunta na mesma cena.
— Lembrei o que fiz errado.
— E o que devo levar?
— Quem puder atravessar. Não escolha por poder, origem ou merecimento. Descubra quem Érebo aceita e leve todos.
Trovar sustentou o olhar dele.
— Você estará lá?
— Estarei onde ela espera me encontrar.
Durante a conversa, Athos manteve a Jupera desativada. Ainda não sabia se o plano funcionaria. Sabia apenas que Elaryan conhecia a tentativa que ele fizera antes. Repeti-la entregaria a ela o mesmo resultado.
Ele atravessou para Paradise.
O planeta havia se tornado o abrigo de pessoas que morreram em sete mundos e despertaram longe das guerras que as mataram. A chegada contínua criara bairros improvisados ao redor das cidades élficas. Naquele momento, as estradas estavam ocupadas por famílias em retirada, combatentes feridos e grupos que tentavam localizar quem renascera sozinho.
Duas redes humanas trabalhavam entre os elfos. Integrantes da Confraria do Segredo conferiam nomes, copiavam registros e reuniam parentes separados. Pessoas que ainda usavam títulos da Ordo Aeternus protegiam depósitos de artefatos e rotas de saída. Continuavam discordando sobre quem deveria guardar os registros do Prometido, embora a disputa tivesse sido suspensa diante do ataque. Juperas percorriam as duas organizações e levavam instruções entre postos que se recusavam a dividir o mesmo comando.
Athos encontrou André perto de uma muralha partida.
— A cidade central foi esvaziada — informou André. — Alguns elfos abriram passagem. Outros fecharam os próprios territórios e decidiram que a guerra é problema dos recém-chegados.
— E Gabriel?
André apontou para o céu.
Gabriel pairava sobre as torres. Os anjos se espalhavam atrás dele, numerosos o bastante para encobrir parte da luz. Elfos armados ocupavam terraços e pontes, divididos entre defender Paradise, proteger apenas suas casas ou observar qual força sobreviveria.
Elaryan estava diante de Gabriel.
— Vocês trouxeram para cá tudo o que destruiu os outros planetas — declarou ele. — Paradise continuará com os dignos.
Emma pousou ao lado de Elaryan com a Lança do Destino.
— Dignos escolhidos por alguém que precisou copiar a aparência dos elfos?
Gabriel chegou até ela antes que Athos pudesse abrir um portal. A mão atravessou o peito de Emma e arrancou o coração. No mesmo movimento, ela cravou a lança no olho dele.
Os dois caíram.
O corpo de Emma perdeu a forma, e as duas armas desapareceram com ela. A cavidade no olho de Gabriel permaneceu aberta por alguns segundos. Ele fechou o ferimento e se levantou. Antes que pudesse atacar Elaryan, Emma reapareceu entre os refugiados e correu de volta para a luta.
— Protejam o peito — gritou Athos. — Eles sabem atingir a partícula antes da passagem. Se a prenderem, não haverá retorno.
Gabriel voltou a atenção para ele.
— O homem que abre caminhos finalmente chegou.
Athos estendeu as asas.
Alguns anjos recuaram. Outros olharam para as penas como se reconhecessem uma violação.
— Essas asas pertencem a uma criatura que você aprisionou — disse Gabriel.
— Pertencem a Roc. Ele as divide comigo porque escolheu ficar.
Roc abriu as asas até cobrir Athos. O movimento recebeu respostas ao redor da cidade. Pelos surgiram nos braços de pessoas ligadas aos lobos. Escamas protegeram o rosto de uma guerreira. Pássaros deixaram os telhados e circularam acima de seus parceiros. Uma camada de água tomou a pele de quem mantinha organismos marinhos. Garras, caudas, olhos alterados e placas endurecidas permitiram que os grupos se identificassem em meio à multidão.
Não houve chamada nem formação única. Cada vínculo indicou onde alguém podia ajudar.
Gabriel observou as transformações com repulsa.
— Vocês entregaram o corpo a animais.
— Você ainda chama de entrega tudo o que não consegue controlar — respondeu Athos.
Elaryan atacou. Gabriel conteve a descarga e respondeu com uma onda que arrancou parte da muralha. Athos abriu portais sob os escombros. As pedras reapareceram fora das rotas de retirada.
Móretar e Dafa avançaram pela esquerda. André reuniu energia em quatro armas. Emma voltou com a lança. Henri e Magno atacaram de lados opostos. Lúcifer e Krakor impediram que os anjos cercassem Elaryan. Médera e Athena protegiam a aproximação enquanto Adwig se mantinha atrás da primeira linha, com o cetro nas mãos.
Gabriel chamou os anjos.
A ordem atravessou a cidade como uma pressão. Os mais próximos foram puxados para ele. Alguns estenderam os braços e aceitaram a união. Outros tentaram fugir. Suas formas se desfizeram da mesma maneira e alimentaram o corpo de Gabriel.
Athos abriu passagens para os que resistiam. Conseguiu afastar três. Dezenas desapareceram antes de alcançá-las.
Gabriel cresceu. Novas asas romperam suas costas. A energia dos anjos cobriu as feridas e tornou a luz ao redor dele difícil de encarar.
Elaryan foi atingida e atravessou uma torre.
Athos tentou chegar até Gabriel. Uma das asas o lançou contra o chão. A espada vibrou em sua mão quando o cetro de Adwig respondeu à distância.
As demais armas também reagiram.
A lança de Emma se inclinou. Excalibur emitiu uma luz branca. Fragarach, o tridente, a jutte, a varinha, o cajado, a foice e as armas de André foram atraídos para o mesmo ponto. As lâminas carregadas por Henri e Magno acompanharam o chamado.
Athos reconheceu a imagem que o perseguira.
— Adwig!
Ela se virou. Athos abriu um portal entre os dois e ofereceu a espada.
— Minhas imagens terminam com esta espada em suas mãos. Não sei tudo o que acontece entre uma coisa e outra.
Adwig não a recebeu de imediato.
— Está me pedindo que cumpra sua visão?
— Estou dizendo o que vi. Se a arma responder ao seu cetro, talvez consiga reunir força suficiente. A escolha continua sendo sua.
Gabriel golpeou Elaryan outra vez. O impacto abriu uma depressão entre as construções.
Adwig segurou a espada.
— Então abra o caminho.
Athos lançou energia através do portal. Adwig ergueu o cetro e aproximou as duas armas. As outras treze reagiram. Algumas deixaram as mãos de quem as carregava. Outras permaneceram ligadas aos seus portadores até que eles as liberassem.
— Que todas retornem à forma original.
— Elas vieram da mesma força — disse Adwig. — Ainda sabem como retornar.
As quinze armas se encontraram. Metal, madeira, pedra e energia perderam as formas separadas. Uma lâmina maior surgiu nas mãos de Adwig, atravessada por cores que não se misturavam por completo.
Mesmo assim, Gabriel avançou.
Athos e Elaryan seguraram seus braços. Por alguns segundos, impediram que alcançasse Adwig. A energia reunida dos anjos explodiu entre os três. Athos foi arremessado para um lado. Elaryan caiu do outro.
Gabriel abriu as asas e desceu sobre Adwig.
Carl correu até ela com o Cálice.
— Ele pode ampliar a arma?
— Foi feito para ampliar outras forças — respondeu Adwig.
Carl olhou para o objeto que o mantivera vivo. Móretar percebeu antes dos demais.
— Carl, espere!
— Para funcionar, ele precisa deixar de me sustentar — disse Carl.
Adwig estendeu a mão.
— Podemos encontrar outra forma.
Carl encarou Gabriel. Estava com medo. Ainda assim, tomou a decisão antes que alguém pudesse detê-lo.
— Não antes que ele chegue até você.
Lançou-se contra a lâmina.
Carl desapareceu no contato. A energia do Cálice atravessou a arma e devolveu movimento aos braços de Adwig. Móretar alcançou o ponto onde ele estivera e encontrou apenas o suporte queimado do equipamento.
Gabriel alcançou Adwig.
Ela golpeou.
A lâmina atravessou o peito dele. A energia dos anjos tentou se dispersar, procurando saída pelo corpo que se desfazia. Elaryan chegou antes. Encostou a mão no coração de Gabriel e conduziu uma descarga até o cérebro. O movimento de fuga foi interrompido. A arma absorveu o que restava dele e das formas reunidas à sua matéria.
Gabriel desapareceu.
O silêncio durou pouco. Elaryan passou a mão pelo fio da lâmina. O corte derramou seu sangue sobre a arma. As cores se voltaram para ela, e Adwig perdeu o controle da empunhadura.
Elaryan tomou a arma.
— Devolva minha espada — disse Athos. — As peças precisam ser separadas.
— Separadas, continuarão falhando uma de cada vez — respondeu ela. — Juntas, podem proteger todos.
Adwig observou a energia correr em direção à mão de Elaryan.
— Desde que toda proteção passe por você.
Elaryan sorriu. Atrás dela, pontos luminosos surgiram no céu. Athos reconheceu a posição dos planetas do Cinturão.
O início do movimento chegara.
Elaryan abriu uma passagem atrás de si. Athos segurou o braço dela e atravessou junto antes que a abertura se fechasse.
Paradise desapareceu.
Athos caiu sobre uma superfície escura, diante de um céu onde os sete planetas pareciam próximos o bastante para serem tocados. Elaryan pousou a poucos passos, ainda com a arma.
— Desta vez você veio por vontade própria — disse ela.
— Desta vez eu sei que já estive aqui.