Plano Invertido
Athos e Trovar haviam mudado mais do que o intervalo em Dracs permitia explicar. As roupas eram outras, os corpos pareciam fortalecidos e os dois se moviam com uma segurança nova.
— O que aconteceu? — perguntou Athena. — Quanto tempo passou para vocês?
— Minha morte me levou de volta a Tânatos — respondeu Athos. — Trovar já estava lá, entre o que restou do castelo e do exército. Ele chegou ao sexto nível.
Trovar desviou o olhar, desconfortável com a admiração das três.
— A mulher que nos atacou esteve em Tânatos antes de vir a Dracs — continuou Athos. — Retirou de lá os sobreviventes do exército. Ela ou alguém ligado a ela consegue alcançar um planeta de sexto nível.
Quando Athos renasceu, recebeu novas imagens. Elas avançavam além das galáxias que antes pareciam limitar o Universo conhecido por ele. Viu um planeta maior do que Tânatos, iluminado por estrelas que orbitavam ao redor dele. Tempo, temperatura e gravidade variavam de uma região para outra. O planeta também interferia em algo que Athos não conseguira identificar, porém essa interferência parecia ligada às respostas que procuravam.
Athos e Trovar viajaram até lá. Chamaram o mundo de Vésper.
— Se nossos inimigos reúnem povos destruindo seus planetas e controlando sobreviventes, faremos o contrário — disse Athos. — Vésper pode receber quem perder o lugar onde vive. Podemos recriar condições de clima, gravidade e matéria para diferentes povos.
— E formar outro exército — completou Athena.
— Uma defesa. Não levaremos ninguém à força e o abrigo não dependerá de lutar por nós. Quem desejar ajudar quando Vésper for atacado fará parte da defesa. Os demais continuarão protegidos.
Silency observou Athos.
— Você já sabe que Vésper será atacado?
— Vi batalhas naquele planeta. Não sei quando começam nem quem estará de cada lado.
Athos falava de proteção, mas já organizava populações, territórios e alianças em torno de um mundo escolhido por ele. Naquele momento, a diferença para o exército inimigo parecia evidente: ninguém seria capturado, condicionado ou obrigado a combater. Ainda assim, Vésper dependeria de regras que o grupo nem sequer começara a discutir.
Precisavam primeiro encontrar aliados e sobreviventes. Athos pediu que Athena acompanhasse Trovar em busca de Drácula. As imagens indicavam Ux. Ele retornaria a Key com Silency e Sussurro.
Athena não gostou da separação, porém a discussão anterior ainda estava próxima demais para que transformasse a resistência em argumento.
— Você nos levará e depois voltará? — perguntou Silency.
— Trovar pode abrir os próprios portais agora.
As três olharam para ele. Trovar levantou uma das mãos, sem saber se recebia congratulações ou perguntas.
Abriu a passagem e segurou Athena. Athos fez o mesmo com Silency e Sussurro.
Trovar levou Athena para Ux, um planeta de quarto nível onde Athos vivera pouco. A evolução dele ali fora rápida e terminara numa morte que ainda evitava detalhar. Ux reunia muitas raças, governos em conflito e uma desigualdade incomum para aquele estágio de desenvolvimento. Pessoas com grande domínio dos elementos eram tratadas como deuses.
Seguindo as orientações de Athos, Trovar chegou a uma região de plantações cercada por cidades distantes. Observou os moradores antes de alterar as roupas dele e de Athena para imitar tecidos, cortes e cores locais.
Perto de uma casa, viram uma menina.
Trovar não encontrava uma criança havia tanto tempo que demorou a aceitar o que via. Nunca tivera filhos, mas a lembrança de sua primeira vida trouxe uma vontade imediata de protegê-la.
Athena parou.
A garota era idêntica à filha que deixara na primeira vida. As duas haviam perdido o vínculo muito antes da morte. Durante eras, Athena pensara em procurá-la e recuara diante da falta de caminhos e da suspeita de que a filha tivesse vivido melhor sem a mãe.
A menina viu os desconhecidos e correu para dentro da casa. Um homem apareceu na porta.
— Quem são vocês?
— Andarilhos — respondeu Trovar. — Temos atravessado os campos em busca de colheitas ou de pessoas dispostas a dividir alimento.
Ele escolheu as palavras com cuidado. A tradução mental podia encontrar conceitos diferentes em Ux, mas o homem pareceu compreender.
— Estas terras são perigosas. Temos proteção do reino e ainda não nos sentimos seguros. Forasteiros costumam encontrar a morte por aqui.
— Somos novos neste planeta — disse Athena. — Ainda estamos aprendendo.
O homem relaxou. Apresentou-se como Porfur e convidou os dois a entrar. Enquanto caminhavam, contou que um desconhecido vinha ajudando famílias da região sem permitir que o vissem. Chamavam-no de Sr. Fantasma. Durante algum tempo, pensaram que fosse invisível; dias antes, alguém avistara seu vulto.
Na casa, Porfur apresentou a esposa, Vejur, e Pafam, a menina que criavam como filha.
Ele explicou que crianças começaram a aparecer em Ux com frequência incomum. Todas haviam vivido pelo menos três vezes e morrido muito cedo em cada passagem. Até então, acreditava-se que a mudança de nível só acontecesse depois que o corpo alcançasse algum desenvolvimento em suas vidas anteriores. A chegada delas contrariava essa interpretação.
Porfur não tentou oferecer resposta. Disse apenas que, por mais evoluídos que se julgassem, sabiam pouco sobre o processo que os distribuía entre os mundos.
Athena e Trovar receberam uma toalha para se limpar antes da refeição. O tecido parecia mais sujo do que as mãos deles. Não havia água por perto. Trovar evitou perguntar porque desconhecia a biologia dos habitantes e não queria revelar que esperava outro costume.
Decidiram passar a noite ali. Trovar começava a controlar uma nova capacidade de comunicação mental e disse a Athena, sem falar, que o Sr. Fantasma podia ser Drácula.
Durante a refeição, tentaram copiar o uso dos talheres. Athena continuava observando Pafam e quase moveu o alimento com o pensamento. Interrompeu a técnica e o pegou com a mão.
— Quem acabou de chegar costuma estranhar nossos costumes — disse Porfur. — Coma da forma que preferir.
Em seguida, fez uma pergunta mais perigosa.
— De onde vocês vieram? Onde viveram antes?
Athena procurou uma mentira e encontrou apenas uma parte da verdade.
— Vim de Bloom.
Porfur quase se engasgou.
— De Bloom? A única pessoa que conhecemos vinda de lá é o Deus Hades.
Athena conhecera Hades em Bloom. Já o considerava perigoso antes de qualquer um chamá-lo de deus.
Trovar perguntou mentalmente de onde vinha aquela reação. Athena manteve os olhos em Porfur.
— Teremos muito trabalho aqui — respondeu dentro da mente dele.