Plano Invertido Athos - Contra o Tempo · Capítulo 12 de 53
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Plano Invertido

Athos e Trovar haviam mudado mais do que o intervalo em Dracs permitia explicar. As roupas eram outras, os corpos pareciam fortalecidos e os dois se moviam com uma segurança nova.

— O que aconteceu? — perguntou Athena. — Quanto tempo passou para vocês?

— Minha morte me levou de volta a Tânatos — respondeu Athos. — Trovar já estava lá, entre o que restou do castelo e do exército. Ele chegou ao sexto nível.

Trovar desviou o olhar, desconfortável com a admiração das três.

— A mulher que nos atacou esteve em Tânatos antes de vir a Dracs — continuou Athos. — Retirou de lá os sobreviventes do exército. Ela ou alguém ligado a ela consegue alcançar um planeta de sexto nível.

Quando Athos renasceu, recebeu novas imagens. Elas avançavam além das galáxias que antes pareciam limitar o Universo conhecido por ele. Viu um planeta maior do que Tânatos, iluminado por estrelas que orbitavam ao redor dele. Tempo, temperatura e gravidade variavam de uma região para outra. O planeta também interferia em algo que Athos não conseguira identificar, porém essa interferência parecia ligada às respostas que procuravam.

Athos e Trovar viajaram até lá. Chamaram o mundo de Vésper.

— Se nossos inimigos reúnem povos destruindo seus planetas e controlando sobreviventes, faremos o contrário — disse Athos. — Vésper pode receber quem perder o lugar onde vive. Podemos recriar condições de clima, gravidade e matéria para diferentes povos.

— E formar outro exército — completou Athena.

— Uma defesa. Não levaremos ninguém à força e o abrigo não dependerá de lutar por nós. Quem desejar ajudar quando Vésper for atacado fará parte da defesa. Os demais continuarão protegidos.

Silency observou Athos.

— Você já sabe que Vésper será atacado?

— Vi batalhas naquele planeta. Não sei quando começam nem quem estará de cada lado.

Athos falava de proteção, mas já organizava populações, territórios e alianças em torno de um mundo escolhido por ele. Naquele momento, a diferença para o exército inimigo parecia evidente: ninguém seria capturado, condicionado ou obrigado a combater. Ainda assim, Vésper dependeria de regras que o grupo nem sequer começara a discutir.

Precisavam primeiro encontrar aliados e sobreviventes. Athos pediu que Athena acompanhasse Trovar em busca de Drácula. As imagens indicavam Ux. Ele retornaria a Key com Silency e Sussurro.

Athena não gostou da separação, porém a discussão anterior ainda estava próxima demais para que transformasse a resistência em argumento.

— Você nos levará e depois voltará? — perguntou Silency.

— Trovar pode abrir os próprios portais agora.

As três olharam para ele. Trovar levantou uma das mãos, sem saber se recebia congratulações ou perguntas.

Abriu a passagem e segurou Athena. Athos fez o mesmo com Silency e Sussurro.

Trovar levou Athena para Ux, um planeta de quarto nível onde Athos vivera pouco. A evolução dele ali fora rápida e terminara numa morte que ainda evitava detalhar. Ux reunia muitas raças, governos em conflito e uma desigualdade incomum para aquele estágio de desenvolvimento. Pessoas com grande domínio dos elementos eram tratadas como deuses.

Seguindo as orientações de Athos, Trovar chegou a uma região de plantações cercada por cidades distantes. Observou os moradores antes de alterar as roupas dele e de Athena para imitar tecidos, cortes e cores locais.

Perto de uma casa, viram uma menina.

Trovar não encontrava uma criança havia tanto tempo que demorou a aceitar o que via. Nunca tivera filhos, mas a lembrança de sua primeira vida trouxe uma vontade imediata de protegê-la.

Athena parou.

A garota era idêntica à filha que deixara na primeira vida. As duas haviam perdido o vínculo muito antes da morte. Durante eras, Athena pensara em procurá-la e recuara diante da falta de caminhos e da suspeita de que a filha tivesse vivido melhor sem a mãe.

A menina viu os desconhecidos e correu para dentro da casa. Um homem apareceu na porta.

— Quem são vocês?

— Andarilhos — respondeu Trovar. — Temos atravessado os campos em busca de colheitas ou de pessoas dispostas a dividir alimento.

Ele escolheu as palavras com cuidado. A tradução mental podia encontrar conceitos diferentes em Ux, mas o homem pareceu compreender.

— Estas terras são perigosas. Temos proteção do reino e ainda não nos sentimos seguros. Forasteiros costumam encontrar a morte por aqui.

— Somos novos neste planeta — disse Athena. — Ainda estamos aprendendo.

O homem relaxou. Apresentou-se como Porfur e convidou os dois a entrar. Enquanto caminhavam, contou que um desconhecido vinha ajudando famílias da região sem permitir que o vissem. Chamavam-no de Sr. Fantasma. Durante algum tempo, pensaram que fosse invisível; dias antes, alguém avistara seu vulto.

Na casa, Porfur apresentou a esposa, Vejur, e Pafam, a menina que criavam como filha.

Ele explicou que crianças começaram a aparecer em Ux com frequência incomum. Todas haviam vivido pelo menos três vezes e morrido muito cedo em cada passagem. Até então, acreditava-se que a mudança de nível só acontecesse depois que o corpo alcançasse algum desenvolvimento em suas vidas anteriores. A chegada delas contrariava essa interpretação.

Porfur não tentou oferecer resposta. Disse apenas que, por mais evoluídos que se julgassem, sabiam pouco sobre o processo que os distribuía entre os mundos.

Athena e Trovar receberam uma toalha para se limpar antes da refeição. O tecido parecia mais sujo do que as mãos deles. Não havia água por perto. Trovar evitou perguntar porque desconhecia a biologia dos habitantes e não queria revelar que esperava outro costume.

Decidiram passar a noite ali. Trovar começava a controlar uma nova capacidade de comunicação mental e disse a Athena, sem falar, que o Sr. Fantasma podia ser Drácula.

Durante a refeição, tentaram copiar o uso dos talheres. Athena continuava observando Pafam e quase moveu o alimento com o pensamento. Interrompeu a técnica e o pegou com a mão.

— Quem acabou de chegar costuma estranhar nossos costumes — disse Porfur. — Coma da forma que preferir.

Em seguida, fez uma pergunta mais perigosa.

— De onde vocês vieram? Onde viveram antes?

Athena procurou uma mentira e encontrou apenas uma parte da verdade.

— Vim de Bloom.

Porfur quase se engasgou.

— De Bloom? A única pessoa que conhecemos vinda de lá é o Deus Hades.

Athena conhecera Hades em Bloom. Já o considerava perigoso antes de qualquer um chamá-lo de deus.

Trovar perguntou mentalmente de onde vinha aquela reação. Athena manteve os olhos em Porfur.

— Teremos muito trabalho aqui — respondeu dentro da mente dele.

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