A Ideia de uma Revolução Athos - Contra o Tempo · Capítulo 15 de 53
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A Ideia de uma Revolução

— Da forma como você fala, parece que já tem um plano — disse Trovar.

Drácula caminhou até a mesa usada pelos comerciantes do beco e afastou pratos, copos e um transmissor quebrado. A superfície de metal apareceu sob a sujeira.

— Eu tinha um plano para algumas décadas. A chegada de vocês pode reduzir esse tempo.

Ele perguntou a Trovar quanto sua capacidade de criar elementos havia evoluído. Antes de Tânatos, Trovar conseguia produzir água e fogo a partir do ar, desde que encontrasse as substâncias necessárias, e transformar pequenas quantidades de matéria em estruturas semelhantes. Depois da última morte, concentrara os testes na abertura de portais. Ainda não sabia o que o sexto nível havia feito com o restante de suas habilidades.

Trovar colocou a mão sobre a mesa e fechou os olhos. A chapa escureceu ao redor de seus dedos. Uma fumaça fina subiu, seguida por um brilho que se concentrou até formar uma pedra irregular.

Drácula esperou que ela esfriasse antes de tocar.

— Ouro.

— Já consegui criar em outro planeta — explicou Trovar. — Usei cobre como base, produzi pouco e passei dias sem força. Lá não valia o esforço.

— Aqui vale um reino.

Drácula contou que o ouro de Ux se concentrava nas mãos de Hades e de governantes ligados a ele. O metal servia como moeda, ampliava certos poderes e aparecia em tratamentos, armas e processos de rejuvenescimento. Os habitantes mais hábeis conseguiam liquefazer e remodelar quase tudo, porém encontravam resistência nos fluidos mantidos dentro de corpos vivos. O contato com ouro enfraquecia essa proteção.

Athena observou a pepita.

— Se criarmos mais, entregaremos a Hades a matéria que torna seus aliados perigosos.

— Se vendermos, sim. Minha ideia é destruir a escassez da qual ele depende.

— Enchendo o planeta de ouro?

— Começando por uma cidade que prove que riqueza não precisa ser autorização para alguém viver.

Trovar virou a pepita entre os dedos.

— Construída por nós, num lugar escolhido por você.

Drácula sustentou o olhar.

— Construída para receber quem quiser sair do sistema de Hades. Se ninguém vier, será apenas um monte de metal caro e meu plano terá fracassado.

Ele os levou para uma região desabitada. O odor chegou antes da paisagem. Montanhas de resíduos ocupavam uma extensão superior à maior cidade de Ux. Carcaças de máquinas, matéria orgânica seca, metais retorcidos e recipientes rachados desapareciam sob uma névoa produzida por gases tóxicos.

— Tudo o que o reino vende como progresso termina aqui — disse Drácula. — Quero começar por aquilo que decidiram esconder.

O plano exigia que Athena retirasse os gases nocivos. Trovar transformaria materiais perigosos e aproveitaria a massa acumulada. Drácula moldaria as novas estruturas. Pretendia erguer um castelo de ouro como provocação ao símbolo de Hades e, ao redor, moradias, áreas de cultivo, depósitos e oficinas.

Athena percorreu o lixão com os olhos.

— Um castelo continuará parecendo um castelo. As pessoas podem entender que você deseja substituir o governante.

— Então construiremos as casas primeiro.

A resposta rápida a surpreendeu.

— Você aceitou com facilidade.

— Passei vidas demais cercado por pessoas que chamavam obediência de lealdade. Se quero outra cidade, terei de suportar que discordem antes que ela exista.

Trovar perguntou de onde viria a energia. A transmutação daquelas montanhas poderia deixá-los indefesos por dias. Drácula retirou do casaco uma pedra escura, lisa de um lado e irregular do outro.

— Ela absorve energia do ambiente e a transfere para quem estiver em contato. Treinei com o artefato, embora nunca tenha testado em alguém vindo de outro planeta.

— Excelente momento para descobrir — disse Trovar.

Ele começou antes que Athena pudesse sugerir um teste menor.

A primeira transformação atingiu uma faixa inteira do lixão. Partes metálicas se desfizeram, separadas de substâncias que Trovar ainda não reconhecia. O ar ganhou um gosto amargo. Athena percebeu a radioatividade e abriu correntes que retiraram as partículas da região habitada, filtrando os gases antes de devolver oxigênio ao espaço.

Trovar perdeu força depressa. Drácula pressionou a pedra contra o peito dele. O objeto aderiu à roupa e começou a pulsar. A respiração de Trovar se estabilizou, e a transformação avançou.

O primeiro conjunto de casas nasceu onde antes havia uma elevação de resíduos. Drácula moldou paredes, entradas e canais de circulação. Athena alterou a posição de algumas construções para aproveitar o vento e abriu espaços amplos entre elas. Nenhum dos três sabia quem moraria ali, quantas pessoas viriam ou que forma de governo aceitariam. Ainda assim, preparavam quartos, praças e depósitos como se as respostas pudessem esperar pela chegada dos habitantes.

Quando Athena já não conseguiu sustentar a filtragem, Trovar retirou a pedra do próprio peito e a entregou a ela. A energia retornou rápido demais, acompanhada por uma pressão que atravessou seus músculos. Ela reduziu a absorção antes de retomar o trabalho.

Trovar decidiu produzir vegetação. Lembrava-se de Athos e Krakor criando árvores e água em Vésper, mas nunca tentara algo semelhante sozinho. As primeiras folhas nasceram deformadas. Ele desfez as estruturas, corrigiu a distribuição interna e tentou outra vez. Raízes atravessaram o solo recuperado e se prenderam às paredes das casas.

— Eu não sabia que você conseguia fazer isso — gritou Drácula.

— Nem eu.

Drácula riu e voltou ao trabalho.

O castelo começou por último. Ergueu-se no centro da região limpa, menor do que Drácula imaginara e distante das casas o bastante para não dominá-las. O ouro refletia os dois sóis de Ux e podia ser visto muito além do lixão.

Trovar examinou a construção.

— Hades vive sob o planeta. Pode atacar os alicerces antes que alguém se instale.

— Pode destruir paredes — respondeu Drácula. — O importante é que as pessoas vejam de onde veio o ouro e descubram que ele não era uma dádiva do governo.

Athena apontou para o limite da área recuperada.

Alguns catadores observavam as casas. Tinham parado de separar peças quando a primeira parede surgiu. Uma mulher deixou o carrinho de resíduos e caminhou na direção deles. Outros a seguiram com cautela.

Drácula guardou a pedra.

— A cidade ainda não existe — disse Athena.

— Agora podemos perguntar se eles querem construí-la.

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