O Limite do Universo
Havia poucas estrelas perto da barreira do corredor D. O grupo se comunicava por telepatia porque o gás disperso naquela região não transportava som de maneira estável.
Afrodite ergueu a mão e produziu luz. Reações termonucleares controladas ocorriam dentro dos átomos do próprio corpo.
— Isso causa dor? — perguntou Krakor.
— Causava. Interrompi a sensibilidade nos pontos que uso.
Silency perguntou se a ausência de dor também ocultava danos. Afrodite respondeu que precisava examinar o próprio corpo depois de cada uso. Poder e resistência reduziam o risco, sem eliminar a possibilidade de destruir partes que já não conseguia sentir.
Hagar observou a luminosidade se manter sem combustível externo. Afrodite afirmava que seu corpo resistia a qualquer ataque conhecido e conseguia iniciar reações semelhantes a distância.
— Se possui esse poder, por que obedeceu a Elaryan? — perguntou Krakor.
— Porque força não produz informação. Ela conhecia acontecimentos que eu desconhecia, evitava qualquer encontro direto e mantinha outras pessoas entre nós. Durante muito tempo, seguir seus planos pareceu menos arriscado do que agir sem saber o que viria.
Afrodite também não confiava em Poseidon ou nos demais. Lutara ao lado deles em outras vidas e aceitara essa repetição como proximidade. Só recentemente começara a distinguir hábito de vínculo.
Sussurro perguntou por que ela mudara naquele momento. Afrodite observou a barreira antes de responder.
— Elaryan sabia onde eu estaria em todas as decisões importantes. Hoje estou diante de um lugar que ela afirma nunca ter alcançado. Quero descobrir se a limitação é verdadeira.
Athos examinou a região sem estrelas. A barreira não era uma parede nem o limite físico de toda a existência. Tratava-se de uma faixa de matéria escura e forças opostas entre dois corredores. Portais perdiam referência dentro dela.
Ele tentou localizar aberturas parecidas com as de Vésper. Encontrou variações mínimas, nenhuma capaz de receber o grupo.
Hagar perguntou se Afrodite poderia destruir uma parte da barreira. Ela recusou a primeira formulação. Uma explosão extensa alteraria trajetórias gravitacionais muito além daquela região.
— Podemos ampliar uma instabilidade que já exista — disse Athos. — Uma abertura curta, com energia direcionada para fora dos dois corredores.
Durante horas, mediram mudanças no campo. Bel identificou um ponto que alternava atração e repulsão em intervalos regulares. Krakor fixou marcadores materiais ao redor dele. Silency e Sussurro compararam a composição da faixa nos dois extremos.
Athos abriu passagens pequenas e vazias perto da instabilidade. Todas regressaram ao mesmo ponto ou se desfizeram. Hagar registrou os intervalos de alteração gravitacional e encontrou uma sequência curta em que a força convergia para o corredor D.
Afrodite concentrou a reação no centro da instabilidade. A primeira descarga revelou camadas que os olhos não percebiam. A segunda abriu uma fissura estreita.
Ela tentou interromper a reação. Parte da energia já se propagava entre as camadas e ampliava a abertura por conta própria.
O campo gravitacional mudou antes que ela interrompesse o processo. A abertura puxou os marcadores, o grupo e parte da matéria ao redor.
Athos tentou criar um portal. As coordenadas se alteravam mais rápido do que ele conseguia fixá-las. O tridente de Krakor e o cajado levado por Afrodite também falharam.
Por algum tempo, deixaram de sentir movimento. A matéria escura fechava a passagem atrás deles, enquanto forças de direções diferentes mantinham seus corpos presos. Quando a gravidade voltou a agir, foram lançados para o corredor D.
Nenhum poder respondeu. Afrodite não conseguia produzir luz. Athos perdeu o acesso aos portais e às duas simbioses. O grupo flutuou até que um planeta enorme alterou a trajetória de todos.
Krakor tentou usar o tridente como apoio e descobriu que o objeto também não possuía matéria suficiente para resistir ao campo. Hagar reuniu os corpos com uma corda criada antes da travessia. Sem ela, teriam entrado na atmosfera em regiões diferentes.
A queda começou devagar e ganhou velocidade. Ao entrarem na atmosfera, parte das habilidades retornou. Afrodite reduziu o calor ao redor dos corpos e desviou a formação para uma região sem construções visíveis.
O impacto quebrou ossos e abriu crateras menores. Athos tentou se levantar, sustentou o corpo por poucos segundos e perdeu a consciência.
Despertou numa cabana, deitado numa maca. Faixas cobriam parte do tórax e uma das asas. Os demais ocupavam leitos próximos.
Afrodite continuava desacordada. Sem acesso à reação interna, seu corpo apresentava queimaduras nos braços e no rosto. Silency e Sussurro respiravam com dificuldade. Krakor mantinha uma das pernas imobilizada.
Uma voz masculina chamou a doutora Rermi. Athos compreendia apenas fragmentos. O cérebro procurava equivalências entre sons, intenção e palavras, como acontecera em sua primeira adaptação a uma língua de outra origem.
A mulher que entrou examinou seus olhos e perguntou se conseguia ouvi-la. Cada frase se tornava mais clara conforme a conversa avançava.
Rermi verificou as asas, as pupilas e a recuperação dos ossos. O método lembrava medicina de primeira vida, acrescido de instrumentos que Athos não reconhecia.
— De onde vocês vieram?
— De muito longe.
Outra mulher apareceu na porta. Usava roupas preparadas para combate e observava as asas dele.
— Se a história envolve o buraco que surgiu e se fechou na faixa escura, talvez a distância não seja a parte mais difícil de acreditar.
Apresentou-se como March Olina, responsável pela operação que os encontrara. Perguntou qual simbiose mantinha as asas expostas durante a forma humana.
— Nenhuma. Eu nasci assim.
March Olina trocou um olhar com Rermi. Naquela região, a resposta parecia mais estranha do que a travessia.
— Ninguém nasce com asas aqui — disse Rermi.
— No lugar de onde venho, quase ninguém nasce — respondeu Athos.
— Vocês chegaram em paz ou em guerra?
Athos pensou em todas as guerras que atravessara dizendo tentar evitá-las.
— Chegamos procurando uma pessoa. Não viemos atacar este planeta.
— É um começo melhor do que dizer que pretende salvar nosso Universo.
Athos reconheceu a advertência e não tentou corrigir a palavra usada por ela. Ainda não sabia o que aquele povo chamava de Universo, corredor ou mundo.
March Olina puxou uma cadeira.
— Conte desde o início. Depois decidiremos em que parte acreditar.