Consequências
Krakor e André comparavam histórias, empenhados em recuperar uma amizade que ainda não haviam vivido. Athos ouvia apenas parte da conversa. Pensava em localizar Trovar e saber se Móretar fora encontrado quando percebeu a atenção crescente dos vampiros ao redor da mesa.
Alguns observavam os visitantes com curiosidade. Outros avaliavam pescoços, pulsos e qualquer parte descoberta da pele.
Afrodite acompanhou um deles se aproximar.
— Se continuar olhando para nós como caça, arrancarei sua coluna pela boca e encontrarei um modo de mantê-lo vivo para sentir falta dela.
O vampiro parou. André chamou Maxi, um dos líderes entre os mais jovens, e perguntou o que desejavam.
— Existem regras — respondeu Maxi. — Ninguém permanece aqui sem se transformar.
— Eles acabaram de defender este planeta — disse André. — São visitantes sob minha proteção. Se algum deles decidir ficar, conhecerá nossos costumes antes de escolher qualquer coisa.
Os ortodoxos reagiram em murmúrios. Athos expôs as presas por um instante.
— Já fui vampiro. Posso explicar pessoalmente o que acontece quando alguém tenta transformar um convidado contra a vontade dele.
Krakor olhou para as presas, surpreso.
— Pensei que você tivesse deixado essa fase para trás.
— Algumas fases deixam coisas conosco.
Uma imagem interrompeu Athos. Vésper surgiu atravessado por linhas luminosas, deslocando-se com velocidade crescente. Atlantis desapareceu sob nuvens e água. A visão era curta, brutal e próxima.
Athos se levantou.
— Médera.
Krakor abandonou o copo. Afrodite os seguiu. Hagar e Bel estavam longe da saída, enquanto Sussurro conversava com um grupo de habitantes. Athos abriu o portal antes de conseguir reunir os demais.
Do outro lado, encontrou o espaço onde Vésper deveria manter sua órbita. O planeta era arrastado na direção de uma dobra quase invisível. A força atuava sobre a massa planetária e deixava os três fora de seu alcance imediato.
Afrodite examinou o campo.
— A convergência alcançou outra região frágil. Esta abertura já existia.
— Fomos nós que iniciamos a propagação — disse Athos.
— Nós ampliamos uma ruptura no corredor D. Ainda não sabemos quem criou esta, nem há quanto tempo estava crescendo.
Krakor ergueu o tridente e desapareceu. Voltou segundos depois, ofegante.
— Atlantis está vazia. Não encontrei Médera, Lúcifer, Poseidon ou Hades. Não encontrei ninguém.
Athos procurou Silency e falhou. Antes que tentassem alcançar a superfície, Vésper entrou na dobra. A compressão deformou o planeta, rompeu a crosta e lançou matéria para os dois lados do campo. Athos levou Krakor e Afrodite a Tânatos.
O impacto desapareceu atrás deles. A responsabilidade acompanhou Athos.
— Vésper foi destruído enquanto eu bebia com André.
Krakor segurou seu ombro.
— Você atravessou uma barreira, salvou uma expedição e impediu um massacre. Não consegue estar em todos os lugares.
— Elaryan consegue chegar antes.
Afrodite recusou a conclusão.
— Elaryan deixa essa impressão porque escolhe quais partes mostra. Se soubesse controlar todas as rupturas, não precisaria manter tantas pessoas cumprindo tarefas por ela.
Athos pensou em Silency, deixada descansando poucas horas antes. O desaparecimento de Atlantis poderia significar resgate. Também poderia ocultar algo pior.
Afrodite procurou os resíduos energéticos de Médera e Silency nos corpos dos dois homens. Disse que ambos carregavam marcas demais e precisavam de banho.
— Eu tomo banho — protestou Krakor.
— A água talvez desista cedo demais.
Ela localizou as duas na mesma região, perto do planeta de André. A direção parecia simples, porém a distância oscilava a cada medição, indício de outra zona de transição.
Athos decidiu deixar Trovar responsável pela procura de Móretar. Abriu o portal nas coordenadas fornecidas por Afrodite.
Os três surgiram diante de um planeta azul-claro, achatado nos polos e cercado por camadas que poderiam ser gases densos ou líquidos suspensos. A superfície não aparecia sob aquela composição.
— Tem certeza? — perguntou Krakor.
— Não — respondeu Afrodite. — É o que torna a viagem interessante.
Athos os levou para dentro. Uma substância semelhante à água invadiu seus pulmões e atravessou a pele. Krakor tentou afastá-la e apenas aumentou a pressão ao redor do corpo. Afrodite também falhou ao alterar a composição do líquido.
Uma criatura enorme surgiu entre as correntes. Tinha o corpo de um polvo e tentáculos terminados em cabeças de serpentes adormecidas. A voz chegou por telepatia.
— Parem de lutar contra o planeta. Deixem que ele reconheça vocês.
Espinhos se soltaram dos tentáculos e cortaram a pele dos três. O líquido reagiu ao sangue, ajustou a pressão e entrou no fluxo dos corpos sem sufocá-los.
Krakor fitou as serpentes.
— Médera?
A criatura assumiu a forma humana. Médera examinou Athos e Krakor antes de notar Afrodite.
Seus cabelos se transformaram em cobras. Afrodite permaneceu onde estava.
— Ela nos ajudou a chegar — disse Athos. — Mudou de lado. Continuo atento.
— Sua atenção nunca me tranquilizou — respondeu Médera.
Afrodite observou as serpentes.
— Você aprendeu a usar o que fizeram com você. Talvez consiga me derrotar agora.
— Quer descobrir?
— Em outro dia.
Athos perguntou por Vésper. Médera contou que Atlantis começara a se mover quando alguém a transportara com Lúcifer, Silency e parte da população para aquele mundo. Nenhum deles vira o responsável.
— Pensamos que tivesse sido você — disse ela. — Depois se passaram semanas. Meses. Você não apareceu.
Para Athos, a destruição ocorrera minutos antes. A travessia que retirara Atlantis de Vésper passara por uma região onde as rotas deixavam de compartilhar o mesmo tempo.
Um cavalo-marinho gigantesco, coberto por placas e chifres, aproximou-se. Transformou-se em Lúcifer.
— Silency disse que eram vocês — contou ele. — Eu esperava que os novos poderes dela também estivessem errados.
Athos percebeu a cautela na frase.
— O que aconteceu com Silency?
Médera desviou o olhar. Lúcifer pediu que o acompanhassem antes de explicar.