A Cidade da Paz
Drácula chamou o lugar de Cidade da Paz. O nome se espalhou antes que seus primeiros moradores decidissem se desejavam mantê-lo.
Athos ouviu o plano e começou a trabalhar. Podia transformar resíduos, preparar água e ampliar as áreas habitáveis, porém a chegada de pessoas avançava mais depressa do que as construções. A notícia de casas gratuitas e ouro produzido fora do controle de Hades atravessou feiras, depósitos e regiões governadas por aliados dele.
Os catadores chegaram primeiro. Depois vieram famílias, trabalhadores expulsos de outras cidades e pessoas que acreditavam que o castelo indicava a ascensão de um novo rei. Algumas se ajoelhavam diante de Drácula. Ele mandava que levantassem e explicava outra vez que não pretendia ocupar o lugar de Hades.
Silency e Sussurro organizaram filas para moradia, atendimento e registro. Drácula havia criado um sistema no qual cada pessoa indicava habilidades, necessidades e trabalhos que gostaria de realizar. A lista ajudava a distribuir tarefas, mas começou a ser tratada como autorização para permanecer.
— Quem não souber fazer nada também fica — disse Silency, devolvendo uma ficha ao responsável pelo cadastro. — Isto serve para organizar. Não é uma prova.
Athena tentava impedir que a multidão fechasse as passagens. Quando duas filas se misturavam, erguia grupos de pessoas pelo ar e os recolocava em posições diferentes. Os primeiros reagiram com susto. Outros passaram a reclamar antes mesmo que ela os tocasse.
— Se continuarem empurrando, vou separar todos outra vez — avisou.
— Talvez possamos separar as filas, não as pessoas — sugeriu Sussurro.
Athena abriu divisões de ar entre os caminhos. Funcionaram melhor.
O grupo trazido de Lagos reconheceu habitantes de regiões vizinhas. Maeli contou que fora presa por organizar saídas clandestinas para quem desejava abandonar o território de um governante que recolhia parte de tudo o que seus habitantes produziam em nome de Hades.
O ferun maior seguia Maeli, mas se afastava sempre que alguém caía, uma criança se perdia ou uma discussão ameaçava virar agressão. Depois de conduzir a pessoa até um grupo seguro, retornava. Ninguém conseguia fazê-lo guardar uma porta ou proteger uma autoridade específica.
Drácula observou o animal abandonar a entrada do castelo para acompanhar um idoso que perdera a família na multidão.
— Ele não deveria permanecer com você? — perguntou a Maeli.
— Permanece com quem considera parte do grupo. Isso muda conforme o perigo.
— Então não obedece.
— Obedece ao vínculo que formou. É diferente.
Athos ouviu a resposta enquanto ampliava uma área de atendimento. Pensou nas imagens que o conduziam entre planetas e na facilidade com que transformava lealdade em disponibilidade para suas missões.
A chegada de mais duas caravanas bloqueou as entradas. Athos decidiu buscar Krakor.
Voltou pouco depois com ele ainda vestido como cavaleiro. Krakor olhou as casas, o ouro e a extensão recuperada do lixão.
— Você me procura sempre que precisa construir alguma coisa.
— Você é melhor do que eu nisso.
— Finalmente uma explicação aceitável.
Krakor caminhou entre as filas antes de tocar qualquer parede. Viu pessoas disputando casas maiores, outras oferecendo lugares na fila em troca de objetos e um grupo arrancando partes de uma escultura de mármore. Dois jovens usavam os braços da figura como bastões. A cabeça rolava entre eles.
Krakor recompôs a estátua e a afastou.
— Quem fez isto?
Athena indicou a si mesma.
— Era comum em Olimpo.
— Alguém daqui pediu uma estátua?
Ninguém respondeu.
Um dos jovens explicou que precisavam de material para criar um jogo. A escultura ocupava uma praça vazia e parecia ter sido deixada ali sem função.
Athena examinou a figura restaurada. Representava uma guerreira de Olimpo que nenhuma pessoa de Ux conhecia.
— Podiam ter pedido.
— A quem? — perguntou o rapaz.
Krakor riu. Athena não.
— Este é o problema — disse Krakor a Athos. — Vocês trouxeram uma cidade pronta e esperam que essas pessoas descubram como habitá-la. Escolheram as casas, as praças, o castelo, o nome e até a arte. Depois se surpreendem quando alguém usa tudo de outro modo.
— A alternativa era deixá-los sob Hades — respondeu Drácula.
— Essa era uma alternativa. Não era a única.
Drácula se aproximou.
— Passei tempo suficiente neste planeta para saber que uma revolução sem estrutura será absorvida pelos mesmos governantes. Hades controla riqueza, medo e religião. Precisamos oferecer algo capaz de permanecer.
— Oferecer é a palavra importante — disse Krakor. — Você ainda fala como se a cidade fosse sua.
Uma briga começou perto das fichas de moradia. Pessoas que sabiam trabalhar com metais acusavam os responsáveis pelo cadastro de favorecimento. Outras diziam que haviam sido retiradas da fila por não possuírem habilidade considerada útil.
Silency fechou o posto.
— Ninguém receberá casa por profissão enquanto não tivermos regras conhecidas por todos.
— Quem fará as regras? — perguntou uma mulher.
O silêncio alcançou Drácula, Athena, Krakor e Athos.
Athos poderia indicar representantes, usar as imagens ou pedir que Trovar observasse possíveis conflitos. Qualquer solução imediata partiria novamente dele.
Maeli subiu numa base de metal e chamou pessoas das diferentes filas. Pediu um representante de cada região de origem e outro entre aqueles que não reconheciam liderança alguma. Os primeiros voluntários começaram a discutir antes de chegar à plataforma. Ainda assim, permaneceram.
O ferun abriu passagem para uma mulher com uma criança no colo. Depois se deitou ao lado da base, voltado para a multidão.
Krakor ampliou a própria voz sem projetar uma imagem acima da cidade.
— Hades ensinou vocês a esperar que seres poderosos decidam tudo. Se esperarem o mesmo de nós, ele continuará governando este lugar mesmo depois de perder o trono.
Um homem perguntou quem impediria roubos, agressões ou a tomada das casas por grupos armados.
— Por enquanto, nós impediremos a violência — respondeu Athena. — As demais regras serão discutidas por quem pretende viver aqui.
— E vocês obedecerão? — perguntou o jovem que quebrara a estátua.
Athena demorou a responder.
— Se eu decidir permanecer, terei de obedecer também.
Krakor começou a trabalhar. Em vez de ampliar o castelo, criou postos de água, cozinhas comuns e abrigos provisórios. Trovar converteu resíduos em materiais que os habitantes poderiam remodelar. Sussurro reabriu o cadastro apenas para necessidades urgentes. Silency colocou cópias das listas à vista, de modo que qualquer alteração pudesse ser contestada.
O conselho improvisado não trouxe paz. Produziu discussões sobre espaço, alimento, segurança e sobre o próprio nome da cidade. Parte dos moradores queria mantê-lo. Outros consideravam a palavra uma promessa feita por pessoas que ainda não haviam vivido ali.
Drácula escutou até o fim.
— Podemos usar Cidade da Paz enquanto não escolherem outro — disse. — Hades ouvirá o nome antes que consiga compreender o que estamos fazendo.
O chão vibrou.
Veios de metal surgiram entre as casas, avançando por baixo das construções na direção do castelo. Trovar sentiu a alteração antes dos demais.
— Ele já ouviu.