A Travessia
O domínio de Hades ficava abaixo de Ux, cercado por cinco rios. Nenhum mapa mantinha os cursos na mesma posição por muito tempo. Para atravessá-los, o grupo procurou Orfeu, o único habitante da superfície conhecido por ter entrado no Submundo e retornado sem ser libertado por Hades.
Encontraram-no numa casa cheia de instrumentos, folhas escritas e cordas gastas. Orfeu ouviu os nomes dos seis visitantes e perguntou se pretendiam resgatar alguém ou declarar guerra.
— Perséfone, se ela quiser sair — respondeu Athena. — Hades, se ele não nos der outra escolha.
Orfeu explicou os rios desenhando linhas numa folha. Lete apagava lembranças quando ingerido. Flegetonte e certos trechos de Aqueronte reagiam ao se encontrar, causando combustões e explosões. Estige tornava a pele quase invulnerável, ao mesmo tempo que impedia o corpo alterado de deixar o Submundo. Cócito alternava congelamento e degelo e condenava à mudez quem bebesse de suas águas depois de quebrar uma promessa. No Aqueronte profundo, nada flutuava.
— Qual deles oferece uma entrada? — perguntou Silency.
— Todos, quando Caronte conduz. Nenhum, se tentarem sozinhos.
Orfeu descera para buscar Eurides. Convencera criaturas que guardavam a passagem e aceitara a condição de deixar outra alma no lugar caso conseguisse trazê-la. Encontrara alguém que desejava entrar. Caronte cumprira a troca sem discutir merecimento ou destino.
Drácula propôs perfurar o solo. Orfeu avisou que as camadas subterrâneas se sustentavam umas às outras e que uma abertura forçada poderia alcançar lava, gases ou um dos rios antes de encontrar a cidade.
Sussurro sugeriu destruir as entradas. Silency perguntou se ainda poderiam levar os habitantes da superfície para Vésper.
— Enquanto Hades puder persegui-los, mudaremos o lugar do medo — respondeu Athos. — E acabamos de transferir milhares de combatentes para lá. Vésper também precisa decidir o que consegue receber.
Uma mulher chamou Athena do lado de fora. Caronte aparecera na margem do Estige e mandara avisar que aceitaria transportá-los. A retirada das forças de Ares deixara os caminhos abertos, embora ninguém soubesse quem informara o barqueiro sobre o plano.
Orfeu pediu que não confundissem ajuda com lealdade.
— Caronte obedece aos rios. Hades apenas se acostumou a acreditar que tudo abaixo da superfície lhe pertence.
Moradores acompanharam o grupo até certa distância. Alguns chamavam Athena pelo nome. Outros repetiam o título de Deusa da Justiça, apesar de ela já ter recusado. A notícia havia se espalhado mais rápido do que sua tentativa de contê-la.
Caronte esperava dentro de um barco afastado da margem. Era um elfo alado, alto e magro, com asas negras dobradas atrás do corpo.
— Entrem.
Nenhum deles conseguia voar sobre a água. A manipulação do ar e dos elementos encontrava uma resistência que devolvia a força contra quem a produzira. Depois de observar as tentativas, Caronte ergueu uma ponte estreita de gelo.
O barco era uma prancha larga de madeira escura, sem a cavidade que deveria impedir a água de cobri-lo. Ainda assim, o rio permanecia abaixo das bordas. Athena se inclinou para examinar o fenômeno.
— Segure-a — disse Caronte a Drácula.
— Ela não precisa que eu decida onde pode olhar.
— Então esteja preparado para decidir se prefere vê-la afundar.
Sete moedas de ouro caíram perto do remo. Fiéis reunidos na margem haviam pago uma por passageiro e acrescentado outra pelo trabalho de Caronte ao criar a ponte. Ele recolheu todas.
— Se alguém cair, ficará. Se alguma criatura subir, eu continuarei. O barco para quando os rios exigem. Aqui, apenas eu controlo a água.
Athena continuou observando os reflexos. Formas compridas pareciam acompanhar a embarcação sob a superfície.
— Você viveu num planeta de água de segundo nível — disse Caronte.
Ela ergueu os olhos.
— Não me lembro de ter contado isso.
— Eu não disse que você contou.
Athos perguntou por que o barqueiro os ajudava.
— Curiosidade. Se não sobreviverem à travessia, pouparemos o tempo de Hades.
A corrente mudou de direção sem mover o barco. Caronte girou o remo, e as águas abriram um corredor entre superfícies que corriam umas contra as outras.
— Você também veio de Ux — disse ele a Athos.
Athos não respondeu de imediato. Caronte afirmou reconhecer todos os que haviam passado pelos rios desde antes de os impérios registrarem seus primeiros governantes. Não fizera o transporte de Athos, porém o vira chegar.
— Você caiu por um portal quando Hades foi banido para as profundezas. Dois acontecimentos no mesmo instante. Durante muito tempo, pensei que fossem a mesma condenação.
As imagens de Athos ameaçaram surgir e recuaram. Ele perguntou quem havia banido Hades.
— Você já sabe o nome.
— Elaryan?
Caronte conduziu o barco para uma corrente estreita. As formas sob a água se aproximaram.
— Ela preparou a queda dele, escolheu o momento e deixou que os outros acreditassem ter decidido. Faz isso melhor do que qualquer ser que conheci.
— Por quê?
— Porque prefere destinos que já sabe controlar.
Athos tentou enxergar os minutos seguintes. Viu água fechando-se sobre o barco e perdeu o restante da sequência.
— Você fala como se ela fosse responsável por tudo.
Caronte olhou para ele.
— No Universo que conheço, quase tudo acaba levando a Elaryan.
Era uma acusação, não uma resposta. Antes que Athos pudesse exigir provas, o barco começou a afundar.