A Ascensão de uma Deusa
Athos pretendia interrogar os prisioneiros quando outra sequência tomou sua visão.
Milhares de combatentes voavam em direção à Cidade da Paz. Cada um carregava água dentro de um recipiente preso ao corpo e um dispositivo capaz de ampliar o volume e a densidade do líquido. A explosão mataria o portador, inundaria as ruas e soltaria o aparelho para que ele buscasse outra pessoa.
Athos viu o ataque repetir-se por rotas diferentes. Athena não conseguiria evaporar a água dentro dos recipientes selados. Trovar poderia inutilizar parte dos dispositivos, embora jamais alcançasse todos. A resposta mais rápida seria matar os portadores antes que chegassem.
Ele procurou outra saída e encontrou Vésper.
Abriu uma passagem para a região deserta do planeta. Dafa apareceu do outro lado e ouviu a descrição enquanto Maeli chamava o conselho.
— Você pretende trazer quantos? — perguntou Dafa.
— Milhares. Ares os está usando como parte de uma arma.
— Envie para longe das cidades. Deixe uma passagem aberta e alguém capaz de contê-los. Não abandone um exército aqui depois de decidir por nós.
Athos aceitou. Trovar separou uma equipe para atravessar o portal e desativar os aparelhos. O conselho ordenou que a população ocupasse os abrigos e manteve pessoas nas entradas para impedir tumultos.
Os primeiros combatentes apareceram no horizonte. Alguns choravam enquanto avançavam. Outros tentavam arrancar os recipientes presos aos corpos e recebiam descargas que os obrigavam a continuar.
Athena esperou a primeira explosão e elevou a temperatura da água assim que o recipiente se rompeu. Drácula interceptou os dispositivos soltos. Trovar inutilizou os que escaparam.
Athos abriu passagens sucessivas diante dos combatentes. Eles atravessavam o espaço e surgiam em Vésper antes que os aparelhos completassem o ciclo. Do outro lado, eram derrubados e separados das cargas. A cada transporte, a energia de Athos diminuía. Ainda assim, continuou até que o último portador desaparecesse do céu de Ux.
A água evaporada se acumulou acima da cidade. Nuvens negras cobriram as construções e começaram a girar. A segunda formação enviada por Ares apareceu dentro da tempestade: manipuladores de eletricidade que direcionavam os raios para os abrigos.
Trovar conteve as primeiras descargas. Havia inimigos demais. Silency e Sussurro já tinham gastado parte da energia para recuperar Athos e Athena, e o ferun conduzia moradores por uma passagem alagada até uma construção mais alta.
Athos buscou uma resposta nos minutos seguintes. Cada possibilidade terminava com a cidade destruída.
— Eles vieram por mim — disse Athena. — Faça com que me vejam.
Ela subiu até o centro das nuvens. Separou a massa escura em duas partes e abriu uma faixa de sol sobre a cidade.
— Athena de Olimpo está aqui!
Os manipuladores interromperam os ataques. Um após outro, desceram e se ajoelharam. A formação seguinte, composta por atiradores de fogo, fez o mesmo. Apenas um homem permaneceu no céu. Usava uma armadura vermelha e um elmo fechado.
Ares encarou Athena.
— Não pode ser você.
Ele lançou uma esfera de fogo grande o bastante para cobrir a praça. Athena deteve o ataque, conteve a expansão e o arremessou para fora da atmosfera.
Ares avançou antes que ela recuperasse o equilíbrio. A arma em sua mão mudou de espada para lança, de lança para corrente, de corrente para uma lâmina curva. Athena evitou os primeiros golpes e recebeu o seguinte no ombro.
Trovar e Drácula tentaram intervir. Athos fechou uma passagem diante dos dois.
— Ainda não.
— Ela está sendo ferida — respondeu Drácula.
Athos acompanhava uma sequência estreita em que Athena permanecia viva e Ares era derrotado. Outra interferência fazia os minutos seguintes desaparecerem de sua visão. Manteve a passagem fechada.
Ares atingiu Athena mais duas vezes. Ela recuou, respirou e começou a acompanhar as mudanças das armas antes que se completassem. O medo dele ficou visível quando largou a lâmina e a agarrou com os dois braços.
O calor se concentrou nos corpos. Ares tentava incendiar Athena junto com ele. Ela expandiu o ar ao redor dos dois numa descarga curta. O impacto atravessou a armadura e quebrou seus ossos. Ares caiu sem conseguir sustentar o próprio peso.
Athos retirou o artefato trazido de Lagos e o fixou ao peito do adversário. A ligação de Ares com os elementos cessou.
Os combatentes ajoelhados começaram a repetir uma frase. O Deus da Guerra fora vencido pela Deusa da Justiça. O título passou de uma fileira para outra e chegou aos moradores que deixavam os abrigos.
Athena pousou diante deles.
— Levantem-se. Uma cidade criada para deixar de obedecer a deuses não começará obedecendo a mim.
Parte dos combatentes se ergueu. Outros continuaram ajoelhados, como se reconhecer Athena fosse anterior à própria vontade.
Maeli aproximou-se de Athos enquanto o conselho mandava recolher as armas e identificar os homens de Ares.
— Você transferiu milhares de pessoas para Vésper e impediu que ajudassem Athena porque viu um caminho — disse ela. — Suas visões não podem substituir todas as decisões.
— Se tivessem entrado na luta, eu deixaria de ver o que aconteceria.
— Esse é o limite do que você sabe, não uma prova de que todos precisam obedecer.
Athena ouviu a última frase. Tocou o ferimento no ombro e olhou para Athos.
— Da próxima vez, não decida sozinho quanto eu preciso apanhar.
Athos não tentou se defender.
Ares recuperou consciência por alguns segundos. Ao ver Athena de perto, repetiu que ela não poderia estar ali. Falou de Olimpo como um lugar que deveria ter permanecido vazio.
Athena recordava o planeta dessa maneira: grandes construções sem habitantes, depois a chegada lenta de seres renascidos que tentavam compreender o que havia sido deixado para eles. Nada em sua memória explicava a reação dos soldados ou o medo de Ares.
— Você conhece a história de Olimpo — disse ela.
Ares sorriu apesar da dor.
— Conheço a história que esconderam de você.
Athena recusara o título diante da cidade. Ainda assim, a história da Deusa da Justiça já passava de pessoa para pessoa. O conselho podia decidir como tratar prisioneiros, refugiados e exércitos rendidos. Nenhuma votação conseguiria impedir que um novo mito começasse ali.