O Grande Encontro Athos - Contra o Tempo · Capítulo 36 de 53
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O Grande Encontro

Athos surgiu diante de uma base militar construída com placas sobrepostas e portas altas demais para qualquer povo de proporções humanas. A estrutura ocupava o centro de uma planície. Além dela, o horizonte subia.

Cidades, florestas e formações rochosas apareciam em faixas sucessivas, cada uma acima da anterior. Ruas de estilos incompatíveis se encontravam sem transição. O planeta parecia reunir territórios criados por civilizações que jamais teriam escolhido compartilhar o mesmo mapa.

A porta da base se abriu sem ruído.

— Um dos encontros que mais esperei finalmente chegou — disse Elaryan.

Athos se virou e encontrou os olhos dela. Imagens atravessaram sua mente antes que pudesse recuar. Viu Tânatos, o instante em que criara o primeiro portal e lugares onde estivera sozinho. Em cada lembrança, havia a impressão de que Elaryan observava de algum ponto fora de alcance.

Uma imagem permaneceu mais que as outras. Quando Athos se teletransportara pela primeira vez, ela assistira à abertura surgir. O rosto de Elaryan carregava orgulho e tristeza.

Athos interrompeu o contato. Elaryan também pareceu precisar de um momento para recuperar a atenção.

— Você fez isso? — perguntou ele.

— Apenas permiti que reconhecesse algumas coisas.

— Estava lá quando alcancei o teletransporte?

— De uma forma que ainda não posso explicar.

A proximidade produzia uma familiaridade que Athos não conseguia atribuir àquela vida. Elaryan o examinava com o mesmo desconforto.

— Sabemos demais um sobre o outro para duas pessoas que nunca conversaram — disse Athos.

— Você nem imagina quanto.

Ele perguntou pelas imagens que chamava de visões. Elaryan respondeu que certos acontecimentos possuíam tendência a retornar. Matéria, leis físicas, pessoas e escolhas podiam formar padrões semelhantes quando submetidos às mesmas condições. Pequenas diferenças ainda alteravam percursos.

— Você prevê essas diferenças? — perguntou Athos.

— Reconheço pontos em que elas costumam surgir.

— Como?

— Essa resposta mudaria decisões que ainda preciso observar.

Athos percebeu que ela oferecera uma revelação suficiente para gerar novas perguntas e escondera o mecanismo capaz de respondê-las.

Falou sobre o carrapato e Silency. Elaryan corrigiu a formulação.

— Você veio salvar uma pessoa.

Havia algo próximo de ciúme no modo como disse. Athos confirmou. Acrescentou que um ser capaz de absorver habilidades poderia ameaçar até os planos dela.

Elaryan informou que Silency continuava viva. O parasita não seria derrotado por Athos naquele momento, e a busca direta apenas ofereceria outro corpo a ele. Outras pessoas participariam da libertação quando surgisse uma oportunidade.

— Quer que eu espere porque afirma saber o que acontecerá.

— Quero que escolha sabendo que pode entregar a ele tudo que carrega.

Athos pediu a localização de Adwig e Dafa. Elaryan confirmou que as duas estavam em Extern, enfrentando uma tarefa ligada ao futuro de Adwig. Emma, Magno, Henri e os demais permaneciam vivos na parte do caminho que ela conseguia reconhecer.

— Você chama de tarefa aquilo que eles chamariam de vida escolhida por você.

— E você chamou de paz o momento em que controlou todos em Kimmer.

Athos sentiu a acusação atingir antes de pensar numa resposta.

— Eu parei.

— Essa é uma diferença importante — disse Elaryan. — Você percebeu o que fazia porque Sussurro conseguiu alcançá-lo. Quantas pessoas teriam de obedecer até alguém dizer a palavra certa?

Athos perguntou se ela própria ainda escutava alguém. Elaryan não respondeu.

Ele apontou para a base e quis saber o que havia ali. Elaryan o convidou a entrar.

O interior reunia máquinas, laboratórios e portas identificadas por nomes de planetas. Alguns projetos pareciam recentes; outros haviam sido reparados tantas vezes que nenhuma peça original devia permanecer.

Athos procurou entre as identificações algum sinal da mulher mascarada ou da criatura negra ligada ao corpo dela. Não encontrou nenhum. Quando perguntou, Elaryan continuou andando.

No centro, um modelo luminoso do Universo ocupava uma sala circular. Um ponto denso brilhava no eixo. Quatro grandes fluxos se afastavam dele em direções diferentes e curvavam suas extremidades de volta para a região central.

Elaryan explicou que Big Bang era o nome do processo completo. Toda a massa do Universo terminava concentrada num mesmo ponto. A concentração alcançava seu limite, explodia e distribuía a matéria. A expansão prosseguia por eras, enquanto o eixo gravitacional inicial continuava atraindo o que fora lançado.

Nas regiões mais distantes, parte da matéria já começava o retorno. Em algum momento, a atração venceria a expansão, reuniria tudo outra vez e produziria uma nova concentração.

— Outra explosão — concluiu Athos.

— Outro ciclo.

Os quatro corredores representavam as maiores direções assumidas pela matéria depois da explosão. As letras A, B, C e D eram simplificações de mapa. Não existiam quatro Universos independentes. Faixas de matéria escura, diferenças gravitacionais e zonas temporais dificultavam a passagem entre eles.

Athos reconheceu no modelo a travessia que fizera. Elaryan mostrou a posição de Vésper numa transição entre os corredores B e C. A ruptura daquela região se ampliara quando os fluxos próximos começaram a mudar de direção. O planeta fora capturado e desfeito antes que a matéria ao redor encontrasse nova estabilidade.

Quando a instabilidade se tornou mensurável, Elaryan retirou a maior parte das comunidades de Vésper. Grupos vindos de Néon, Finiti e outros mundos haviam sido distribuídos entre Extern e abrigos menores, preservando as decisões coletivas que já mantinham. Atlantis não pôde ser alcançada. A cidade desaparecera antes da retirada, levada pelo ser que Athos chamava de carrapato.

— E quem não estava com essas comunidades?

— Ainda procuro.

Extern ficava no corredor C, perto de uma faixa menos violenta do corredor D. Elaryan escolhera a região por sua estabilidade relativa e pela possibilidade de reunir comunidades sem submetê-las às áreas de retorno mais acelerado.

— Então construiu um planeta para sobreviver ao fim.

— Para adiar perdas. Extern também será atraído quando o retorno alcançar esta região.

Athos observou a massa curvando-se no modelo.

— E depois?

— Ninguém sabe.

Elaryan queria descobrir se algo podia atravessar a concentração final, existir fora daquele processo ou alcançar uma condição acima das leis que o reiniciavam. Suspeitava que a quantidade de energia acumulada e a forma da passagem poderiam alterar o resultado.

— Por isso usa pessoas.

— Pessoas mudam umas às outras todos os dias. Eu preparo encontros, distribuo informações e tento impedir desvios que já destruíram tudo antes.

— Ainda é você quem decide quais desvios devem existir.

— Assim como decidiu que os vampiros de Kimmer precisavam sentir a sua vontade antes de conversar.

Athos odiou a comparação porque conhecia a parte verdadeira dela.

— A diferença é que posso admitir que errei.

Elaryan se aproximou.

— Espero que continue podendo.

Ela beijou o rosto dele. O contato despertou uma lembrança sem imagem: a certeza de já ter perdido aquela mulher e de ter escolhido afastar-se dela. Athos tentou segurá-la, e Elaryan desapareceu.

As luzes da base se apagaram. A porta externa continuava aberta.

Athos saiu e procurou a energia de Adwig. Teletransportou-se para uma das faixas elevadas de Extern.

Encontrou uma cidade em chamas.

Não havia gritos, pedidos de ajuda ou corpos nas ruas. Athos começou a apagar o fogo enquanto procurava Dafa e Adwig.

A cidade parecia ter sido destruída depois que todos já haviam partido.

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