Os Vampiros de Dracs
Ninguém sabia ao certo como começara a sociedade dos vampiros. Nem Drácula confiava em todas as versões que contava.
Era após era, modificava detalhes conforme os costumes de quem o ouvia. Algumas mudanças serviam para tornar a história compreensível. Outras nasceram porque a memória se confundira com relatos repetidos tantas vezes. Drácula fora o único a atravessar todo aquele período e já não separava cada fato do que acrescentara depois.
Lembrava-se de quando havia poucos vampiros e a fome dominava suas relações. Naquele tempo, ele próprio precisava de sangue com maior frequência. A necessidade diminuiu conforme a população cresceu. Sua resistência à luz aumentou, o corpo se tornou mais forte e o controle sobre o fogo se ampliou. Outros elementos também passaram a responder a ele.
Alguns tentaram derrotá-lo para provar força. Fracassaram. Outros chegaram ao castelo em busca de abrigo porque não queriam ferir ninguém para se alimentar. Drácula os acolheu, e uma comunidade começou a crescer ao redor dele.
Os primeiros grupos acreditavam que uma alimentação completa exigia a morte de quem fornecia o sangue. Quando descobriram que podiam parar antes, a fome deixou de produzir uma vítima em cada refeição, embora retornasse mais depressa. Ainda havia outro problema. Duas pessoas que trocassem sangue apenas entre si enfraqueciam com o tempo e podiam morrer. A sobrevivência exigia rodízio e organização.
As comunidades aumentaram. Grupos separados por florestas e montanhas criaram rotas para trocar doadores, receber recém-chegados e impedir que alguém fosse abandonado à fome. A violência não desapareceu, porém deixou de ser a única estrutura possível.
A mudança decisiva começou com Paole.
Ele fora capturado depois que descobriram que seu organismo repunha sangue em velocidade incomum. Permaneceu anos em cativeiro, usado por vampiros que o drenavam repetidamente. Quando conseguiu fugir, procurou Drácula.
O rei ofereceu proteção e anunciou que qualquer pessoa com a mesma característica poderia viver sob sua guarda. Outros apareceram aos poucos. Quando o grupo chegou a dez, os casos cessaram. Nenhum novo vampiro com aquela capacidade surgiu durante quase um século.
Com a concordância dos dez, Drácula criou um banco de sangue. Os Guardiões passaram a viver em segurança e com conforto, fornecendo quantidades controladas entre períodos de alimentação, hidratação e repouso. A população já não dependia da mordida, de trocas improvisadas ou do risco de matar alguém por perder o controle.
Dracs mudou.
Os vampiros construíram uma sociedade distante das histórias que circulavam em outros planetas. Tornaram-se conhecidos pelo cuidado com os recém-chegados, pela lealdade às comunidades e pela liberdade nas relações afetivas. Muitos traziam de vidas anteriores um desejo sexual intenso, e a cultura que se formou separava esse desejo da violência que marcara os primeiros tempos.
A morte ainda ocorria e outros vampiros continuavam chegando. A frequência menor permitia que cada comunidade recebesse os novos habitantes, ensinasse suas regras e corrigisse a imagem de monstros escravizados pela sede de sangue que alguns carregavam consigo.
Drácula passou a explorar o planeta. Conheceu regiões de gelo, grandes florestas e formas de vida que surgiam longe das comunidades. Foi durante essas viagens que encontrou a ameaça mais grave daquele período.
Uma pequena larva nascia no solo gelado e penetrava no corpo dos vampiros. Levava semanas para provocar sintomas, tempo suficiente para que novos organismos saíssem pela pele e contaminassem outras pessoas pelo contato. Quando os sinais apareciam, a morte era quase certa.
Os primeiros casos fora da região fria foram contidos. Estudos conduzidos pelas comunidades concluíram que qualquer foco remanescente podia levar a espécie à extinção. Para impedir a propagação, seria necessário destruir toda forma de vida na área contaminada.
Athos estava lá.
Naquela vida, era um vampiro e liderava uma das comunidades atingidas. Também estava infectado. Drácula enviou uma mensagem de despedida, ainda esperando que o amigo apresentasse uma alternativa que os estudiosos não haviam encontrado.
Athos teve tempo apenas para terminar a leitura.
Drácula lançou uma onda de fogo sobre a região. A explosão consumiu uma ilha de extensão quase continental, matou todos os seres dentro do perímetro e evaporou parte da camada de gelo do norte. O planeta levou anos para recuperar o equilíbrio climático.
Drácula suportou a decisão acreditando que os mortos continuariam em outras vidas. Alguns reapareceram no próprio planeta. Athos não foi um deles.
Foi também naquele período que o mundo começou a ser chamado de Dracs. O nome nasceu entre a população e se espalhou nas referências ao território, ao governo e ao bem comum. Drácula nunca o escolhera. A homenagem aumentava a responsabilidade que sentia por cada comunidade.
Havia ainda perguntas que ninguém conseguia responder. Recém-chegados de planetas inferiores conheciam histórias sobre vampiros antes de terem qualquer contato com Dracs. Alguns estudiosos atribuíam isso a viajantes capazes de atravessar mundos e espalhar relatos. Outros acreditavam que sonhos podiam carregar fragmentos de lugares desconhecidos. Drácula não escolheu uma explicação. Preferiu ensinar os que chegavam a distinguir a vida que encontravam das histórias que traziam.
Quando Athos regressou a Dracs em outra vida, o reencontro com o rei parou o castelo. Os dois recordaram a comunidade do gelo, compararam o que lembravam e falaram sobre os caminhos que haviam seguido.
Athos contou sobre Ux, um planeta submetido a líderes em conflito e deuses da morte. Falou depois de Olimpo, de Athena e de uma civilização capaz de feitos que Drácula mal conseguia imaginar. Também contou que outros vampiros haviam acompanhado parte de sua trajetória e ainda tratavam Drácula como referência, mesmo sem conhecê-lo naquela vida.
Eles se encontraram outras vezes. No início, Athos não conseguia transportar acompanhantes. Quando desenvolveu essa capacidade, convidou Drácula a conhecer outros planetas. O rei preferiu ficar.
A curiosidade que o levara a explorar Dracs dera lugar a um compromisso mais próximo com o povo. Ele acompanhava o funcionamento do banco de sangue, visitava comunidades pequenas e recebia pessoalmente os que tinham dificuldade para controlar a fome. Continuava rei, porém vivia boa parte do tempo como responsável pela manutenção do planeta.
Então os portais se abriram.
O exército surgiu ao mesmo tempo em várias regiões. A coordenação dos ataques indicava conhecimento prévio das comunidades, das rotas e das defesas. Os invasores destruíam tudo à medida que avançavam, deixando o castelo para o fim.
Drácula voou para o norte, onde uma frente se aproximava mais depressa. Destruiu quase metade daquele grupo e se expôs para retirar habitantes do caminho. Foi atingido e precisou recuar antes que o matassem.
A cada vampiro morto, a força de Drácula diminuía e a fome retornava. Ele reuniu combatentes para outras duas investidas. Encontrou inimigos capazes de controlar diferentes elementos, formações treinadas para substituir os que caíam e pessoas mais evoluídas protegendo as linhas centrais.
Nas duas ocasiões, escapou ferido. Voltou ao castelo enquanto as comunidades desapareciam e concluiu que morreria na defesa final. Também começou a pensar em como evitar que os invasores o capturassem vivo.
Athos apareceu antes que pudesse decidir.
Drácula interpretou a chegada como intervenção do destino. Athos surgira no momento exato, trazendo Athena, Trovar, Silency e Sussurro de outro planeta destruído. O rei desconhecia a cadeia de decisões, perdas e acidentes que os levara até ali. Via apenas o amigo que já perdera uma vez retornando quando Dracs estava prestes a acabar.
Agora Paole e os outros nove Guardiões estavam diante dele. A história da sociedade vampírica começara a mudar quando aprenderam que a fome podia ser organizada sem morte. Sua sobrevivência dependia novamente das dez pessoas que tornaram essa escolha possível.