Lados do Universo
Athos preparou-se para um ataque. Afrodite permaneceu onde estava, com as mãos visíveis.
— Não vim lutar. Poseidon e Hades estão presos, Zeon foi derrotado e Elaryan encontrou Adwig. Continuar ao lado dela deixou de parecer uma escolha inteligente.
Hagar perguntou como poderiam confiar numa mudança tão conveniente. Afrodite respondeu que ofereceria primeiro uma informação verificável: Elaryan continuava naquela galáxia e se aproximava de Adwig no espaço.
— Você consegue localizá-las? — perguntou Athos.
— Consigo encontrar rastros. Alcançá-los é outro problema.
Athos levou Afrodite, Hagar, Krakor, Bel, Silency e Sussurro para Éden. A passagem interromperia o fluxo temporal em parte das regiões conhecidas e impediria que Trovar permanecesse sozinho enquanto o tempo avançava do outro lado.
Afrodite criou um modelo suspenso no ar. Uma esfera luminosa representava o ponto onde toda a massa do Universo estivera concentrada.
— Vocês usam Big Bang para a explosão — disse ela. — Os registros que conheço dão esse nome ao processo completo.
O ponto se abriu. A matéria projetada espalhou-se em todas as direções.
— A expansão não continuará para sempre. O mesmo eixo gravitacional que concentrou a massa permanece atraindo tudo que foi lançado. A velocidade inicial ainda empurra galáxias para longe, mas esse movimento perde força. Em algum momento, o retorno prevalece.
As linhas da projeção se curvaram e começaram a voltar para o centro.
— Toda a matéria será recolhida, concentrada e submetida outra vez às condições que antecedem a explosão. O início e o fim pertencem ao mesmo processo.
Athos perguntou se a concentração produziria outra explosão. Afrodite confirmou. O modelo se fechou no ponto luminoso e tornou a se abrir.
— Chamamos de ciclo porque a matéria retorna à mesma condição. Isso não prova que cada acontecimento social se repita ou que alguém conserve lembranças. As mesmas partículas e as mesmas leis, porém, favorecem formações parecidas.
Planetas poderiam surgir em regiões equivalentes, desenvolver recursos semelhantes e conduzir seres a comportamentos próximos. Pequenas diferenças de posição, temperatura ou encontro alterariam detalhes e produziriam rotas imprevistas.
— Elaryan fala como alguém que conhece essas rotas — disse Silency.
— Ela apresenta previsões como lembranças de um mapa já percorrido — respondeu Afrodite. — Nunca explicou de onde vem essa certeza.
Athos sentiu as imagens longas pressionarem sua mente. Afrodite descrevia um padrão físico. Nada na explicação provava que ele já tivesse vivido aqueles acontecimentos.
Krakor acompanhou os trajetos.
— E onde entram os quatro lados?
Afrodite dividiu as linhas em quatro grandes corredores.
— São regiões de navegação dentro de um único Universo. A matéria foi lançada em todas as direções. Enormes concentrações de matéria escura organizaram quatro fluxos dominantes. Chamamos de A, B, C e D porque os nomes originais variam entre povos.
Athos conhecia planetas distribuídos entre dois desses corredores. Os outros permaneciam além de barreiras que nenhum portal comum atravessava.
O corredor A reunia Key, Ux e parte dos mundos que Athos visitara primeiro. Atlas e Tânatos ocupavam o B. A classificação não indicava superioridade, idade ou distância do eixo; descrevia apenas o percurso predominante da matéria naquela região.
Afrodite fez o modelo girar. As trajetórias não formavam uma elipse perfeita. Cruzavam campos gravitacionais, contornavam vazios e se aproximavam do eixo central por ângulos diferentes.
— A parada temporal causada pelos portais vem dessas diferenças? — perguntou Hagar.
— Esta é a melhor explicação que possuímos. Quando uma passagem cruza fluxos separados por grandes concentrações de matéria escura, ela ancora o tempo no ponto de partida. Para quem retorna, nenhum intervalo parece ter passado ali. O efeito muda perto das regiões em que expansão e retorno exercem forças semelhantes.
Alguns planetas ocupavam essas faixas de transição. Portais abertos a partir deles permitiam que o tempo continuasse correndo em mais de um corredor.
— Elaryan usou um desses lugares para agir em Vésper — disse Athos.
— Provavelmente. Ela conhece rotas que os demais tratam como impossíveis.
Afrodite avisou que o modelo explicava observações, não todos os mecanismos. Ninguém presente acompanhara a formação do Universo, e os instrumentos capazes de medir os quatro corredores pertenciam a civilizações desaparecidas.
Krakor perguntou se C e D possuíam vida. Afrodite conhecia registros indiretos, objetos sem origem nos dois corredores acessíveis e sinais interrompidos nas barreiras. André era a primeira pessoa cujo rastro ela conseguia seguir até uma delas.
Athena e o grupo de Trovar receberam a posição estimada de Móretar. Afrodite tentou localizar André e Zeon a partir de resíduos deixados em Éden. Caminhou ao redor da estrutura criada pelos doze e alterou o ar em pequenos pulsos.
— Móretar está acessível pelo corredor B. Zeon também. André não está em nenhum ponto que eu consiga alcançar daqui.
— Está morto? — perguntou Bel.
— O rastro continua. Ele atravessa uma região sem planetas e termina na barreira do corredor D.
Elaryan nunca havia alcançado aquela região, segundo Afrodite. Isso tornava André uma prioridade e uma possível evidência de que as fronteiras não eram absolutas.
Athos enviou a posição de Móretar para Trovar. O outro grupo procuraria o renascido e aguardaria contato. Athos permaneceria com Afrodite, Hagar, Krakor, Bel, Silency e Sussurro para tentar alcançar o corredor D.
Hagar pediu que todos confirmassem a divisão. A busca reunia pessoas feridas, uma aliada recente e uma fronteira que nem Afrodite atravessara. Cada integrante decidiu permanecer mesmo depois de ouvir isso.
— Você sabe abrir a passagem? — perguntou Sussurro.
Afrodite desfez o modelo.
— Sei encontrar o lugar onde ela deveria existir.
A busca começaria por esse lugar.