Inimigos?
Como parte de suas férias, Athos atravessou a região rindo de Trovar. Os campos de lama eram atraídos pela eletricidade produzida pelo corpo do amigo. A cada trecho, uma nova porção subia por suas pernas, grudava na roupa e explodia com um estalo úmido.
Trovar tentava afastá-la com descargas curtas, o que apenas espalhava a sujeira. Athos sabia disso e não ofereceu ajuda.
Aquela região de Key possuía campos magnéticos instáveis. Entre as anormalidades do lugar, essa era uma das mais fáceis de compreender. O planeta tinha formações vegetais extensas, muita água potável e oceanos pequenos, com baixa concentração de sal. Poucos mundos conhecidos ofereciam condições tão favoráveis ao surgimento de uma primeira vida.
Uma falha na formação de Key, contudo, criara desníveis gravitacionais e instabilidades físicas e químicas em várias áreas. O peso do corpo mudava entre um passo e outro. Minerais reagiam à aproximação de determinadas formas de energia. Certos trechos de água se deslocavam em sentido contrário à inclinação do terreno. Para quem não conseguia antecipar os perigos, atravessar aquela região podia ser fatal.
Trovar, Sussurro e Silency controlavam os elementos com uma habilidade incomum e ainda enfrentavam dificuldades por ali. Athos escolhera aquele lugar justamente por isso. Durante o período em que convivera com elfos e fadas, e mesmo na passagem breve pela cidade dos Gigantes, sempre acabara cercado por inimigos, rivais, seguidores ou pessoas que misturavam todas essas posições.
As asas atraíam interpretações religiosas. Seu poder provocava líderes. A recusa em ocupar um lugar nas disputas entre dominantes e dominados irritava os dois lados. Havia quem desejasse sua ajuda e transformasse a negativa em ofensa. Outros buscavam proteção, e a proteção de alguns despertava a fúria de quem lucrava mantendo-os vulneráveis.
Athos tentou afastar conflitos com pequenas demonstrações de força. O medo funcionava por pouco tempo. Depois, cada demonstração atraía gente em busca de abrigo e autoridades interessadas em saber se ele poderia ameaçá-las.
Ele precisava esperar. O tempo passava mais depressa naquele planeta, uma das razões para ter escolhido Key. Procurar a herdeira antes que ela se revelasse seria inútil. Suas visões, ou aquilo que ele entendia como visões, concordavam nesse ponto: enquanto ela permanecesse escondida, nenhum caminho o levaria até ela.
Athos se isolou e deixou que os amigos acompanhassem os sinais do retorno da rainha por direito. Agora a garota reaparecera, e ele teria de voltar à comunidade dos Elfos.
A ideia lhe trazia lembranças difíceis. Em sua primeira vida, Athos também fora elfo. O planeta onde nascera tinha os elfos como povo dominante. Parte dos costumes de Key lhe parecia familiar, principalmente nos pequenos hábitos, na forma como organizavam as casas e no cuidado com determinadas expressões de beleza. As diferenças surgiam logo depois e anulavam qualquer conforto.
Ele vira seu mundo de origem ser destruído por um meteoro. Depois de sobreviver a tantas mortes e transformações, imaginou que reencontrar elfos em outro planeta pudesse produzir alguma sensação de retorno. Encontrou povos empenhados em repetir disputas conhecidas.
Os elfos de Key pertenciam à primeira vida daquele mundo. Quando morriam, seus corpos permaneciam. Não havia desaparecimento, dissolução ou passagem imediata para outra forma visível. Ficavam para os vivos o peso, os ritos e a matéria de alguém que deixara de responder. Por isso, Athos entendia ainda menos a facilidade com que entravam em guerras.
Saber por experiência própria que a morte não encerrava toda existência nunca a tornara banal para ele. Aqueles elfos não possuíam a mesma certeza. Ainda assim, aceitavam matar por território, crença, linhagem ou autoridade.
Uma explosão maior interrompeu seus pensamentos. A lama cobriu o rosto de Trovar e escorreu pelo pescoço. Athos riu tanto que perdeu atenção ao que estava mais próximo. Trovar arrancou uma porção da sujeira e a lançou contra ele.
O impacto espalhou lama pelo peito e pelo queixo de Athos. Os dois se encararam e, durante alguns segundos, a graça cedeu espaço ao estranhamento. Athos não previra o arremesso. Era um acontecimento curto, simples, exatamente o tipo de antecipação que raramente falhava.
Trovar foi o primeiro a rir. Athos acompanhou, embora a dúvida permanecesse.
Quando deixaram a trilha, alcançaram uma estrada que conduzia à cidade. Já era noite. Key não tinha um satélite natural capaz de refletir luz suficiente, e a escuridão fora das áreas habitadas se tornava quase absoluta.
Os elfos haviam respondido ao problema combinando conhecimento físico, domínio dos elementos e organismos luminosos. Veios minerais recebiam energia durante o dia. À noite, devolviam parte dela às estruturas da cidade. Plantas cultivadas nas fachadas reagiam à passagem dos moradores e ampliavam a claridade. Pontes, torres e caminhos brilhavam em intensidades diferentes, conforme o movimento de cada região.
A cidade parecia mais iluminada à noite do que sob o Sol.
Essa organização também revelava parte da política local. O controle das fontes de luz, dos caminhos elevados e das regiões onde as plantas luminosas eram cultivadas distribuía poder entre grupos que raramente precisavam se declarar rivais. Autoridade entre aqueles elfos dependia de linhagem, domínio territorial, compromissos acumulados e influência sobre os costumes. Religião e governo ocupavam espaços diferentes em teoria. Na prática, um oferecia legitimidade ao outro sempre que fosse conveniente.
Athos poderia modificar a aparência, esconder as asas e atravessar as ruas sem ser reconhecido. Detestava fazer isso. Desde que chegara a Key, decidira não usar ilusões para negar a forma que possuía. Considerava o processo cansativo e não via motivo para passar os dias fingindo ser outra pessoa.
Em poucos minutos, a notícia de seu retorno percorreu a cidade. Pessoas saíram dos centros de encontro, ocuparam as varandas e se reuniram nas ruas. Alguns o seguiam por curiosidade. Outros mantinham distância. Quando olhou para trás, Athos encontrou um grupo grande acompanhando seus passos.
Aquilo não fazia parte do plano. A dificuldade em antecipar o próprio caminho aumentava conforme se aproximava da herdeira. Algumas cenas ainda surgiam, porém faltavam trechos entre elas. De repente, viu com clareza suficiente quem encontraria em seguida. O alívio terminou quando Verto se posicionou à frente deles com outros elfos.
— O homem com asas voltou? — perguntou o reverendo.
O reverendo era uma liderança religiosa da cidade. Seu poder vinha menos de um cargo formal do que das relações que mantinha entre famílias, responsáveis pelas fontes luminosas e grupos que dependiam de sua aprovação para conservar prestígio. Athos desprezava pessoas que utilizavam a crença no desconhecido para controlar quem precisava de respostas. Com o tempo, deixara de combater cada figura religiosa que encontrava. Derrubar um líder não encerrava o sistema que permitia o surgimento do próximo.
— Reverendo, meus interesses aqui são passageiros — disse Athos. Sua voz perdeu a leveza da travessia. — Não vim disputar seu espaço político ou religioso.
— O tempo em que esteve aqui nos fez compreender que essa talvez fosse mesmo sua intenção — respondeu Verto. — Soube que utilizou um discurso parecido entre as fadas, do outro lado do oceano. Os grandes líderes podem ter ignorado os rumores sobre um deus alado caminhando entre os pobres. Eu lido com as pessoas de fé. Para elas, sua simples aparição já representa uma ameaça. — Verto observou a multidão antes de continuar. — Minhas fontes disseram que procura alguém. Sei quem é, sei que reapareceu e sei onde está. Seu interesse por essa pessoa alcança diretamente os meus.
Espadas se ergueram ao redor de Athos e Trovar.
— Isso é necessário? — perguntou Athos. — Vim buscá-la. Depois partiremos daqui. Para sua santidade, deveria ser um acordo bastante vantajoso.
Verto não respondeu.
— Sei como essa tentativa termina e gostaria de evitar o trabalho. Seus homens podem continuar vivos e ainda terão muitas oportunidades de protegê-lo de problemas que considere importantes.
O reverendo levantou a mão para os espadachins.
— Acabem com ele! — ordenou.
Centenas de espadachins avançaram juntos.
Athos alterou o fluxo do tempo ao seu redor. Os corpos dos atacantes perderam velocidade até parecerem quase parados. Para ele, o movimento continuava normal. Trovar começou a reunir energia nas mãos, disposto a derrubar todos com uma descarga.
Athos tocou a mão direita do amigo e desfez o impulso. Uma demonstração como aquela atrairia atenção demais.
Sacou a espada. Ninguém em Key a vira em suas mãos. Passou pelos atacantes e atingiu braços ou pernas, sempre nas articulações. Os cortes impediriam que continuassem lutando e seriam suficientes para preservar suas vidas.
Perto dos últimos oponentes, guardou a arma e permitiu que o tempo retomasse o curso. Para quem assistia, os homens armados haviam avançado juntos e caído quase no mesmo instante. Athos surgiu entre eles, derrubando os poucos que ainda conseguiam permanecer de pé.
Verto tremia. Olhava para os feridos, para a multidão e para Athos sem conseguir escolher onde estava o maior risco.
— Agora é sério — disse Athos. — Leve-nos até a garota. Partiremos assim que pudermos.
O reverendo demorou a reagir. Trovar o empurrou, lembrando-o de que a conversa ainda não terminara.
— Tudo bem... Eu os levarei — respondeu Verto. — Só acho que esse encontro não vai acontecer como esperam.
Athos viu, pela primeira vez, uma imagem mais nítida do encontro com a herdeira. Depois dela, as cenas voltavam a se partir. A imagem oferecia uma direção, e ele decidiu segui-la.