O Submundo Athos - Contra o Tempo · Capítulo 23 de 53
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O Submundo

A água fechou-se sobre o barco. A luz da superfície desapareceu, substituída por reflexos roxos que corriam pela madeira.

Drácula tocou a água com a ponta dos dedos e recuou.

— Entrar em contato com isso parece uma ideia ruim.

— Salte e confirme — respondeu Caronte.

O barco descia sem inclinar. Caronte movia o remo em trajetórias curtas, procurando os pontos onde os efeitos dos rios se anulavam por alguns instantes. Segundo ele, essas confluências mudavam a cada hora. Fora delas, uma gota podia retirar lembranças, alterar o corpo ou impedir que alguém voltasse à superfície.

Formas humanas nadavam contra a corrente. Surgiram abaixo do barco, agarraram as laterais e tentaram alcançar os passageiros.

— Relutantes — disse Caronte. — Alguns fugiram do Submundo. Outros caíram de barcos anteriores. Todos querem o lugar de vocês.

As águas impediam o grupo de manipular os elementos. Drácula afastava mãos com golpes. Silency e Sussurro defendiam as laterais. Athena permanecia no centro, evitando os reflexos que continuavam atraindo seu olhar.

Trovar descobriu que ainda conseguia liberar pequenas descargas. A primeira afastou vários relutantes. A segunda iluminou a corrente e atraiu dezenas.

— Pare! — gritou Athos.

Uma massa de corpos alcançou Trovar e o arrancou do barco. Athos saltou antes que Caronte pudesse impedi-lo.

A água retirou quase todo o acesso aos elementos. Athos ainda conseguia mover o corpo e alterar pequenas quantidades de matéria em contato direto, embora cada tentativa consumisse energia demais. Trovar soltou outra descarga para romper o grupo que o prendia. O clarão revelou casulos fixados no fundo do rio.

Athos alcançou o companheiro. Os relutantes resistiam à lâmina e fechavam o caminho até o barco. Quando os dois desceram na direção dos casulos, as criaturas recuaram.

Dentro das membranas havia animais aprisionados. Athos rompeu a primeira e libertou peixes pequenos. Trovar abriu outra. Uma criatura alongada saiu em disparada e desapareceu. Os casulos maiores permaneceram fechados.

Ambos já carregavam uma simbiose. Receber outra contrariava tudo o que conheciam sobre a ligação entre partículas. Histórias sobre vínculos múltiplos terminavam em rejeição, perda de controle ou morte dos dois organismos.

Trovar apontou para os relutantes que voltavam a cercá-los. Athos tocou um dos casulos. A membrana aderiu à mão e abriu-se para dentro de seu corpo.

A nova ligação atravessou músculos, ossos e respiração. A primeira simbiose reagiu como se repelisse uma invasão. Durante alguns segundos, Athos perdeu a noção de qual forma lhe pertencia. O instinto do animal queria água profunda, movimento e som. Quando conseguiu organizá-lo, transformou-se num boto.

Trovar recebeu um peixe-espada. Sua mudança foi ainda mais violenta. O corpo alongou-se depressa demais, e ele quase atingiu Athos antes de recuperar direção.

As novas formas permitiram que atravessassem a corrente. Não eliminaram o conflito entre as simbioses. Cada transformação produzia espasmos e lembranças sensoriais que não pertenciam a nenhum dos dois.

Athos e Trovar alcançaram o barco e saltaram sobre a madeira. Silency ergueu a arma contra os animais. Eles retomaram a forma humana antes do golpe, caíram ofegantes e demoraram a conseguir falar.

Caronte abriu um sorriso.

— Dois vínculos no mesmo corpo. Ainda encontro motivos para me surpreender.

Enquanto observava os dois, deixou de perceber uma pedra enorme cruzando a corrente. O impacto o lançou para fora. O remo ficou preso na lateral do barco.

Athos transformou-se outra vez. A dor das duas simbioses disputando o corpo quase o impediu de nadar. Alcançou Caronte antes que os relutantes o cercassem e o empurrou até a superfície do barco.

Drácula assumiu o remo. O instrumento resistiu às mãos dele, porém manteve a embarcação na direção da abertura que surgia adiante. O rio subiu por uma estrutura transparente e terminou acima de um piso de pedra. O barco atravessou o limite, caiu vários metros e se partiu ao tocar o chão.

Caronte despertou cercado pelo grupo. Perguntou a Athos se fora salvo porque seria necessário na saída.

— Não pretendo sair por este rio.

— Então desperdiçou esforço.

— Talvez.

Caronte se levantou e devolveu o remo ao rio, que corria suspenso acima deles. Reconheceu uma dívida precisa: Athos poderia exigir uma travessia futura sem pagamento.

Trovar recuperou o funcionamento parcial de um comunicador. As mensagens haviam sido recebidas antes da submersão e permaneceram armazenadas.

Maeli informava que o conselho rejeitara as execuções imediatas. Falarin ajudava a identificar os prisioneiros e a separar os coagidos daqueles que comandaram os ataques. O ferun permanecia com as crianças e encontrara uma passagem usada para retirar moradores durante o combate.

Dafa enviara a segunda mensagem. Todos os portadores levados a Vésper estavam vivos. Alguns pediam abrigo, outros queriam regressar a Ux e parte deles ainda obedecia a Ares. O planeta não aceitaria novos grupos até decidir o destino dos que já haviam chegado.

— Pelo menos continuam decidindo sem nós — disse Athena.

Athos guardou o comunicador. Queria responder, mas nenhuma transmissão atravessaria os rios.

À frente deles, o Submundo se abria como uma cidade iluminada por fogo. Construções de pedra refletiam tons roxos. Pontes ligavam torres escavadas na rocha, e pessoas circulavam entre jardins que recebiam luz de canais incandescentes.

A beleza dificultava a imagem simples de um reino formado apenas por sofrimento.

— É mais fácil matar um inimigo quando imaginamos que nada ao redor dele merece sobreviver.

O homem que falara estava atrás do grupo. Era alto, magro, vestia preto e usava sapatos vermelhos. Recebeu os visitantes com um sorriso tranquilo.

Athos reconheceu Hades.

— Veio nos receber pessoalmente?

— Seria descortês deixar convidados tão importantes perdidos na minha cidade.

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