O Retorno
Hades derrubou Adwig e preparou a seringa usada para ameaçar Silency. Ela segurou o braço dele. O palácio tremeu quando sua força atravessou o piso.
Poseidon ergueu uma barreira entre os dois e o restante do grupo. Hades conseguiu libertar a mão e desceu a agulha.
Móretar surgiu por uma passagem atrás do trono. Saltou sobre Adwig e recebeu a injeção nas costas. Médera apareceu a tempo de vê-lo cair.
O soro interrompeu o coração de Móretar e abriu uma rota para sua partícula. O corpo desapareceu antes que alguém pudesse segurá-lo.
Médera atravessou o espaço onde o filho estivera e atingiu Hades no rosto. Adwig tentou abrir uma passagem para seguir Móretar, porém o soro não deixara direção, resíduo ou imagem que pudesse ser rastreada. Poseidon aproveitou a distração para atacar.
Athos atacou Poseidon. Krakor atravessou a barreira e atingiu Hades. Drácula e Sussurro soltaram Silency. Ferida, ela tocou a cabeça dos dois inimigos e suspendeu suas consciências antes de desmaiar.
Krakor continuou golpeando Hades caído até Dafa segurá-lo. Precisavam dos dois vivos para descobrir o destino de Móretar e desfazer a prisão de Perséfone. Athos parou apenas quando viu Silency desacordada nos braços de Sussurro.
Adwig procurou Móretar no espaço vazio.
— Ele sabia que a seringa era para mim.
— Isso não torna você responsável pela escolha dele — disse Médera. A voz falhou no fim da frase. — Também não torna a escolha menos terrível para quem ficou.
Athos ainda via o instante em que Móretar saltava. A imagem longa o alcançara segundos antes, sem oferecer uma ação capaz de impedir o movimento.
— Eu vi e não consegui mudar nada.
Sussurro segurava Silency enquanto respondia.
— Você entrou aqui sem plano e deu a eles o cenário. A visão não criou isso nem tinha obrigação de corrigir tudo depois.
A frase atingiu Athos com mais força do que qualquer tentativa de consolo. Sua pressa para salvar Silency ajudara Poseidon a organizar a armadilha, embora a decisão de Móretar continuasse pertencendo a ele.
Adwig ouviu em silêncio. A forma como procurava o companheiro em cada canto do salão mostrava que nenhuma distinção entre culpa e escolha seria capaz de alcançá-la naquele momento.
Médera indicou os calabouços do palácio. As celas haviam sido construídas para conter seres de diferentes origens e poderes. Poseidon e Hades foram colocados em redomas separadas. Um painel registrou os olhos e as mãos de Athos como chaves.
— Se você já esteve presa aqui, quem controlava as celas? — perguntou Drácula a Médera.
— Poseidon. A estrutura existia antes dele.
Isso significava que o criador original poderia conservar algum acesso. Athos sugeriu retirar o palácio de Atlas. Médera explicou que cidade, palácio e atmosfera aquática faziam parte de uma construção contínua. Separar uma parte poderia derrubar o restante.
Poseidon recuperou a consciência dentro da redoma e riu da discussão. Disse que os habitantes obedeceriam ao novo governante com a mesma facilidade com que haviam obedecido a ele. Médera respondeu que essa seria a primeira hipótese submetida à prova.
— Então levamos tudo para Vésper — disse Athos.
Dafa o encarou.
— Você acabou de ouvir que é uma cidade, não uma arma com embalagem grande.
Athos corrigiu a proposta. Atlantis só seria deslocada se os habitantes de lá e de Vésper aceitassem. Até que as duas populações discutissem, Médera e Lúcifer permaneceriam ao lado das celas.
Antes de gastar energia numa transferência, o grupo precisava buscar a equipe de Hagar. Trovar abriu o caminho de volta para Inc.
Perséfone estava livre quando chegaram. Henri localizara o ponto de sustentação do feitiço. A pessoa que o mantinha rompeu o vínculo e fugiu antes que pudesse ser identificada. Perséfone ainda sentia partes da prisão no corpo e na memória, mas conseguia atravessar o portal.
Os lobos reunidos por Bel e Hagar também precisavam de abrigo. Em Vésper, eles recusaram uma cidade pronta. Mostraram a Krakor como organizavam casas, espaços coletivos e áreas de caça. Trovar, Hagar e os demais construíram seguindo essas indicações.
Krakor errou as distâncias das primeiras moradias e precisou refazer diversas casas depois que os lobos explicaram como os grupos se separavam durante o repouso. A correção demorou mais do que criar as estruturas iniciais e produziu um lugar que eles reconheceram como próprio.
Enquanto Silency era levada para repousar, representantes de Atlantis e Vésper começaram a conversar através de uma passagem mantida por Trovar. Os moradores de Atlas queriam garantias de autonomia e retorno. Vésper exigia que Hades e Poseidon permanecessem isolados e que a cidade não ampliasse as disputas por território.
Athos permaneceu algum tempo ao lado de Silency. Quando ela despertou, perguntou se ele havia destruído metade de Atlas para encontrá-la.
— Só a porta do palácio.
— Está melhorando.
O humor durou pouco. Silency lembrou que Poseidon previra a reação dele e preparara todo o salão para recebê-la. Athos admitiu que sabia. Não prometeu que jamais repetiria o impulso; naquele estado, uma promessa assim seria fácil demais.
Athos tentou acompanhar as discussões, a busca por Móretar e a recuperação de Silency. Sussurro o impediu de transformar todas as urgências em mais uma partida imediata.
— Você mal consegue sustentar a própria forma.
— O tempo para do outro lado enquanto estamos aqui.
— Era o que você acreditava.
Emma apareceu diante deles.
Suas roupas haviam mudado, assim como seus movimentos e o modo como observou as construções. Ela não reagiu à cidade dos lobos como alguém que a vira poucos instantes antes. A passagem de tempo era incompatível com a regra de Vésper.
— Elaryan encontrou uma forma de agir aqui — disse Emma. — E eu vim buscar Adwig.
Athos sentiu medo antes de qualquer imagem surgir.