Reunião de Família
Athos atravessou para o mundo líquido que recebera Atlantis. O lugar onde perdera Silency estava irreconhecível. Correntes arrancavam partes dos edifícios, formações naturais haviam sido partidas e corpos permaneciam entre os escombros.
Encontrou Médera ferida numa faixa de pedra acima da água. Os braços e as pernas apresentavam fraturas refeitas várias vezes. Athos transferiu energia e estabilizou as partes que ainda cediam quando ela tentava se mover.
— Você chegou no momento certo — disse Médera.
— Adwig está em segurança. Krakor voltou com Teleret.
Ela tentou se levantar antes que ele terminasse.
— Leve-me até eles. Conto o restante quando estivermos juntos.
Athos procurou sinais de vida em toda a região alcançada pelas águas. Não encontrou resposta. Uma busca completa exigiria tempo, e Médera mal conseguia permanecer de pé. Ele abriu o portal.
Teleret ainda estava junto de Krakor quando Médera atravessou. Ela correu até o filho, e os dois se abraçaram sem conseguir falar. Krakor os envolveu logo depois.
Athos conduziu o grupo ao palácio de Adwig. Ao avistar as torres, Krakor diminuiu o passo.
— Este lugar não existia — disse.
Hermes criara a construção a partir das lembranças de Adwig. Krakor reconheceu elementos do palácio dos Elfos Primordiais misturados a passagens, jardins e torres que inventara nas histórias contadas durante a infância dela.
Adwig surgiu na entrada. Parou ao ver o pai, a mãe e o irmão reunidos.
— Vocês estão mesmo aqui?
Teleret inclinou a cabeça do mesmo modo que fazia antes de uma provocação. Médera apertou os dedos contra o braço, tentando conter o choro. Krakor procurou diferenças entre o palácio e os próprios contos.
Adwig correu para abraçá-los.
Athos permaneceu perto da entrada. Passara boa parte daquela jornada abrindo caminhos para encontros que já conhecia por imagens: Adwig e Móretar, André e os doze, Elaryan e ele próprio. A reunião diante dele escapava dessa lógica. Teleret morrera fora de suas visões; Médera sobrevivera por pouco; Krakor voltara de uma missão que escolhera. Pela primeira vez, a falta de antecipação não parecia uma falha.
Sussurro ajudou Médera a sentar e completou parte da recuperação iniciada por Athos. Teleret contou que renascera longe de Key e fora aprisionado com o Pasha num lugar onde não conseguia usar seus poderes. Móretar explicou que Bornurar encontrara a prisão e que ele, Krakor e Trovar entraram como prisioneiros para libertar todos os detidos.
— Obrigada por trazê-lo — disse Adwig a Móretar.
— Bornurar encontrou o caminho. Trovar nos levou para dentro e para fora. Eu não aceitaria deixar os outros presos.
Médera começou seu relato. Poseidon aparecera em busca do tridente. Matara os sobreviventes de Atlas que viviam naquele mundo e atingira Lúcifer naquele corpo. Quando Médera tentou lutar, ele passou a quebrar cada parte que ela conseguia reparar, exigindo a localização da arma.
— Quando acreditou que o tridente não estava comigo, foi embora.
Adwig perguntou se Lúcifer fora destruído de forma definitiva.
— Não encontrei sinal de que a partícula essencial tenha sido desfeita — respondeu Athos. — Ele pode ter alcançado outra vida. Naquele mundo, não havia mais sobreviventes físicos.
Adwig se levantou. A energia ao redor dela fez as janelas vibrarem. Krakor levou a mão ao cabo do tridente que ainda nem estava com ele. Médera pediu que ambos se sentassem.
— Poseidon quer que a gente responda com raiva e leve a arma até onde ele está. Foi por isso que me deixou viva.
O movimento cessou. Athos não sabia se a conclusão era exata. Sabia que ela bastava para impedir uma perseguição imediata.
Médera segurou a mão da filha. A felicidade do reencontro coexistia com o que perdera, sem diminuir nenhuma das duas coisas.
Krakor ainda precisava levar Bornurar e Magibre a Key. Scélor, pai de Bornurar e origem daquela parte da linhagem das fadas, exercia a regência do planeta. Móretar iria com eles para conhecer a família e verificar como o mundo estava sendo governado.
— O tridente ficou com Drácula — disse Krakor. — Pretendo levá-lo agora.
Médera sustentou o olhar do marido.
— Para protegê-lo. Se encontrar Poseidon, volte com informação e aliados. A arma não será um convite para duelo.
Krakor concordou. Athos avisou que iria procurá-lo se a viagem demorasse. Móretar, Bornurar e Magibre se aproximaram do portal.
Adwig perguntou se voltariam naquela noite. Pretendia oferecer um baile no palácio.
— Talvez ainda alcancemos a última dança — respondeu Móretar.
Krakor abriu um sorriso e apressou a partida.
Athos retornou ao mundo líquido. Percorreu as ruínas, seguiu correntes profundas e procurou qualquer sinal que escapara à busca inicial. Encontrou apenas os efeitos do ataque e rastros interrompidos pela água.
Quando voltou, confirmou a Médera que não havia localizado outras pessoas. Adwig pensou em cancelar a festa.
— Não quero fingir que isso não aconteceu — disse Médera. — Quero passar a noite com meus filhos porque sobrevivi.
Adwig sentou-se diante de Teleret.
— Eu transformei você, durante muito tempo, na última coisa que me pediu.
— E eu pressionei você a cumprir uma profecia que nunca escolheu — respondeu ele. — Não precisamos resolver tudo hoje.
Os dois ficaram juntos sem tentar transformar o reconhecimento em perdão imediato. Médera permaneceu entre eles. Krakor estava longe outra vez, embora dessa vez todos soubessem para onde fora e por que pretendia voltar.
Hermes ouviu a palavra baile e se ofereceu para organizar o evento. Adwig autorizou o uso do salão principal, dos jardins e das galerias próximas. As alas da família permaneceriam fechadas.
Athos deixou os preparativos e foi conhecer a casa que Hermes criara para ele.
A construção era pequena, desenhada a partir do lugar em que vivera na infância. Reconheceu a janela, os degraus e o desgaste da maçaneta.
Quando abriu a porta, percebeu que a casa guardava muito mais do que a fachada permitia imaginar.