Corredores em Convergência
March Olina ouviu Athos sem interrompê-lo. Ele começou pelo que conseguia explicar: surgira na segunda leva de planetas de primeira vida, conhecera povos formados em condições distintas e aprendera com seres que já atravessavam existências havia séculos.
Jamais fora rei. Tampouco se considerava o mais poderoso entre aqueles que conhecera. Durante muito tempo, essa diferença o empurrara para o estudo dos elementos, das técnicas e das transformações possíveis depois da morte.
Em Tânatos, recebera as primeiras visões e alcançara o teletransporte. Desde então, imagens breves o avisavam de perigos próximos. Outras chegavam partidas, misturadas a lugares e pessoas que às vezes reconhecia sem saber de onde. Athos costumava tratá-las como indicações do futuro. Naquele momento, já admitia que a explicação talvez fosse insuficiente.
— E elas trouxeram você até aqui? — perguntou Olina.
— Trouxeram-me até muitas decisões. Algumas deram certo. Ainda não sei quantas foram minhas.
Ele contou que procuravam Móretar e que o rastro mais distante de André terminara perto da barreira. Evitou prometer salvação. Também deixou claro que o grupo havia ampliado a instabilidade que os lançara naquele planeta.
Olina apoiou os braços sobre a mesa.
— Então vocês podem ter causado o fenômeno que passamos anos tentando compreender.
— Podemos — respondeu Athos.
A franqueza pareceu interessá-la mais do que qualquer tentativa de defesa.
Olina explicou que o povo dela chamava de Universo toda a região alcançável por suas rotas. Seus mapas abrangiam o corredor D e três planetas povoados nas proximidades. A ideia de que existiam outros corredores dentro da mesma estrutura aparecia em pesquisas recentes, sem comprovação direta até a chegada do grupo.
Eles viajavam entre planetas por naves e dobras produzidas por máquinas. Nenhuma pessoa manipulava elementos ou criava portais com o próprio corpo. Ainda assim, sua tecnologia havia reduzido a necessidade de construções permanentes, extração de metais e grandes centros urbanos.
A morte também seguira outra interpretação. Para eles, encerrava uma experiência corporal e iniciava outra condição, sem indicar elevação de nível ou posição. Olina conhecia relatos de continuidade e reconhecia vínculos entre vidas, embora sua sociedade evitasse organizar essas diferenças numa hierarquia.
Sussurro perguntou pelas simbioses. Olina revelou que carregava uma Nomertah, ave capaz de se separar por períodos curtos. Quando a simbiose assumia, o corpo mudava por completo. Não existia a combinação parcial que mantinha as asas de Athos ou as características de Pertún em Krakor.
Krakor observou as próprias mãos. Conseguiu engrossar a pele e projetar as garras, apesar da fraqueza que ainda limitava os poderes.
Olina aproximou-se para examinar a mudança.
— Duas estruturas vivas funcionando ao mesmo tempo — disse ela. — Eu precisaria analisar seu sangue, sua pele e a resposta dos dois sistemas.
— Pode analisar quanto quiser. Posso até encontrar um lugar reservado.
Afrodite revirou os olhos. Olina sustentou o olhar de Krakor por alguns segundos.
— Quando eu quiser privacidade com você, não precisará disfarçar como pesquisa.
Krakor ficou calado. Bel sorriu para Afrodite, satisfeita com o resultado.
Athos perguntou sobre o título de March. Olina explicou que a função reunia pesquisa de organismos, cuidado da equipe e comando em situações de risco. Liderava porque respondia pelas vidas sob sua responsabilidade.
Era essa responsabilidade que mantinha a expedição perto da faixa escura. Seus instrumentos haviam detectado energia do outro lado e alterações cada vez maiores nas forças que separavam os corredores. A fissura aberta por Afrodite não criara o processo, porém fornecera uma passagem para a energia acumulada.
— Duas correntes gravitacionais começaram a se alinhar — disse Olina. — Se continuarem, planetas próximos podem ser arrancados das órbitas. A região entre os corredores sofrerá primeiro.
Afrodite perguntou a extensão prevista. Olina ainda não possuía uma resposta. Os cálculos variavam entre a perda de alguns sistemas e a abertura de uma rota estável. O intervalo entre os extremos tornava qualquer decisão perigosa.
March Olina levou o grupo até a praia. O mar parecia familiar, embora a atmosfera e a gravidade fossem diferentes das terrestres. Afrodite procurou cidades no horizonte e encontrou somente pequenas estruturas espalhadas.
Olina tocou um comando na parede externa do hospital. As divisões se recolheram, os equipamentos se encaixaram e a construção inteira se reduziu a uma maleta que Rermi recebeu.
— Criamos o necessário e recolhemos quando a função termina — explicou Olina. — Deixar edifícios vazios seria transformar conveniência em ocupação.
Seguiram por uma área de rochas. Quando Athos olhou para trás, a equipe médica havia desaparecido. Olina apontou a distorção discreta na luz: o abrigo continuava ali, protegido por um sistema óptico.
O centro de pesquisa ficava dentro da encosta. Havia pouco metal visível, o que decepcionou Krakor. Olina disse que materiais mais leves cumpriam quase todas as funções e que o metal ficava reservado às áreas expostas a forças extremas.
Um homem de capacete os chamou do piso superior. Tarson acompanhava números projetados sobre a viseira.
— A Lock 15 confirmou a propagação — informou. — A abertura alterou todas as estações atrás do campo. A convergência chegará a este sistema seis horas depois do amanhecer.
Olina perguntou quantos assentamentos estavam na área de risco. Tarson confirmou que aquele planeta servia apenas à pesquisa e que as outras equipes já deixavam os pontos externos. Mesmo assim, as rotas poderiam fechar antes da retirada completa.
March Olina ordenou que avisassem os três assentamentos, mantivessem os canais abertos e preparassem a sala central. Nenhuma transferência seria imposta. Cada população receberia os dados e decidiria como se proteger.
Depois, indicou aos visitantes um cômodo onde poderiam descansar. Antes de sair, olhou para Krakor.
— Meu quarto fica no corredor à esquerda. Você pode continuar calado ou aparecer lá.
Krakor levou alguns segundos para segui-la.
Hagar se aproximou de Athos.
— Você acha que este sistema vai acabar?
Athos tentou convocar uma visão. Encontrou apenas o vazio deixado pela travessia.
— Acho que alguma coisa vai sobreviver. Isso ainda pode ser pior para quem tiver de escolher o que fazer depois.