Não Vai Ser Tão Fácil Assim Athos - Contra o Tempo · Capítulo 3 de 53
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Não Vai Ser Tão Fácil Assim

— Verto, não sei se agora é uma boa hora — disse uma voz feminina, antes que o reverendo atravessasse a porta dos aposentos.

A batina suntuosa escondia mal o estado de Verto. O suor lhe descia pela testa, e os ombros ainda tremiam depois do que acontecera nas ruas. Athos vinha logo atrás com Trovar. O reverendo tentou recuperar alguma autoridade antes de falar.

Adwig o procurara para se aconselhar. Queria ouvir alguém que conhecesse seu pai e pudesse ajudá-la a decidir se assumiria o lugar de rainha. Estava diante de um espelho quando eles chegaram e se voltou depressa para a porta.

— Majestade, sei que pediu um tempo para refletir, minha amada rainha — disse Verto. — Athos insistiu em encontrá-la. Receio que não tenha me deixado outra saída.

Athos conhecia a existência da herdeira havia muito tempo, porém nunca conseguira ver seu rosto. A palavra garota perdeu o sentido quando a encontrou. Adwig possuía aparência jovem, embora tivesse atravessado mais de um milênio sem morrer. Era uma elfa nascida em primeira vida, filha de povos diferentes e dona de características que ele não encontrara juntas em nenhum outro lugar.

Os traços lembravam os Elfos supremos que Athos conhecera num planeta de nível quatro. Outros detalhes escapavam dessa referência e pertenciam à origem materna de Adwig. A mistura o surpreendeu. Depois de tantos planetas e tantas formas de vida, reconhecer algo novo ainda era raro.

Athos demorou alguns segundos para falar. Trovar percebeu. Verto também. Adwig apenas esperou, tentando entender por que um elfo alado invadira seus aposentos acompanhado do reverendo assustado.

— Eu me chamo Athos. Estive à sua espera por muito tempo neste planeta — disse ele. — Sei que será difícil acreditar no que vou dizer. Vejo pequenos trechos do que ainda vai acontecer. São alertas, caminhos que às vezes consigo alterar. Você será fundamental para impedir o fim do Universo.

Adwig olhou primeiro para Athos, depois para Verto e Trovar. Retornara havia pouco, tentava decidir se assumiria um reino e ainda carregava as consequências de tudo que vivera antes de chegar ao castelo. A afirmação de que também precisaria salvar o Universo rompeu a pouca solenidade que restava.

Ela começou a rir.

A gargalhada cresceu até obrigá-la a recuperar o fôlego. Verto pareceu ofendido. Trovar não soube como reagir. Athos esperou que ela voltasse a falar.

— Senhor Athos, essa história tem alguma relação com uma profecia? — perguntou Adwig quando conseguiu voltar a falar.

— Não acredito em profecias.

Verto reagiu com uma expressão de reprovação, mas Athos continuou.

— Elas existem em planetas que jamais tiveram contato entre si. Mudam os nomes, os povos e as ameaças, enquanto preservam a mesma estrutura: alguém prometido, uma calamidade e uma escolha apresentada como inevitável. Já encontrei coincidências demais para confiar nelas. Muitas parecem interessadas em conduzir decisões, e não em anunciar o futuro.

Adwig deixou de rir.

— Eu vejo caminhos e nem por isso os considero únicos — prosseguiu Athos. — Uma antecipação pode me avisar sobre o que acontecerá se ninguém interferir. A partir do momento em que alguém conhece parte do caminho, pode alterá-lo. Não existe destino, apenas caminhos. Ver uma possibilidade não a torna única e definitiva.

Verto fez um sinal de proteção junto ao peito. Athos percebeu e preferiu ignorá-lo.

— Eu sempre quis ouvir isso de alguém — disse Adwig. — Só que a profecia veio de meu pai. Ele criou este mundo. Preparou Key para a vida e trouxe para cá a comunidade de minha mãe. Duvidar de suas palavras contraria tudo que conheço sobre ele e sobre este planeta.

— E o resultado foi este? — perguntou Athos. — Uma elfa nascida em primeira vida, milenar, poderosa a ponto de talvez superar a mim, escondida durante séculos e com medo de ocupar o próprio lugar?

Trovar voltou os olhos para ele. Athos raramente admitia a possibilidade de encontrar alguém mais poderoso. Verto parecia preocupado com a existência dos dois no mesmo aposento. Adwig assimilou a frase aos poucos.

— Você também é a elfa mais bonita que já encontrei — acrescentou Athos. — Isso não ajuda a tornar a conversa mais simples.

Adwig ruborizou e logo estreitou os olhos, incomodada consigo e com ele.

— Todo esse tempo você se manteve presa — continuou Athos. — Fugiu e se escondeu. Tinha medo do seu pai, da profecia ou do que aconteceria quando precisasse escolher sem os dois?

Adwig afastou-se do espelho. A resposta demorou, porém sua postura mudou antes que encontrasse as palavras.

— Eu não posso abandonar meu povo. Desconheço seus planos e ainda não sei se acredito em você. Sei o que devo fazer aqui. Vou assumir o reino e prepará-lo para o que vier.

Athos ouvira uma decisão, embora não soubesse quanto dela vinha de desejo e quanto ainda pertencia ao medo.

— Então assuma — respondeu. — Talvez descubra que esse caminho não resolve o que espera. Ainda temos algum tempo, e pode ser uma experiência necessária.

Adwig não gostou da facilidade com que ele aceitara. Verto demonstrou alívio ao imaginar que a conversa terminaria ali.

— Antes disso, permita que eu a leve a outro lugar — disse Athos. — Quero lhe mostrar algo que pode mudar sua decisão ou, pelo menos, fazer com que ela seja realmente sua.

Adwig fitou as asas, depois o rosto dele. A proposta não se parecia com uma ordem ou com as palavras fechadas de uma profecia. Pela primeira vez naquela conversa, Athos esperou sem tentar antecipar a resposta.

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