Lados Trocados
Adwig ouviu Emma e se levantou.
— Se Elaryan continua me procurando, quero descobrir o motivo.
Dafa atravessou o grupo antes que ela alcançasse o portal.
— Móretar morreu para impedir que levassem você.
— Ele decidiu saltar.
— E você vai transformar isso em nada?
Adwig respondeu que a perseguição continuaria enquanto todos tentassem protegê-la de uma resposta que ninguém conhecia. Dafa afirmou que Elaryan buscava apenas poder. A discussão passou rapidamente de Móretar para as escolhas que cada uma atribuía à outra.
Dafa queria ir atrás do irmão. Adwig também. A diferença era que uma acreditava que a outra ainda seria usada para afastá-los dele. O luto tornou qualquer frase uma acusação.
Athos preparou-se para intervir. Krakor pediu que esperasse. Ainda havia raiva nas palavras, nenhuma arma entre elas.
Dafa acusou Adwig de ter alterado a vontade de Móretar. Adwig respondeu que a própria mãe fizera isso com ele durante boa parte da vida. Emma segurou o braço de Adwig e tentou levá-la.
Dafa saltou, retirou a adaga da cintura dela e levou as duas ao chão. Athos avançou. A arma já estava entre as mãos das duas.
Adwig pressionou o cabo e revelou uma segunda lâmina, voltada para Dafa. Elas pararam de disputar. Dafa olhou para o portal por onde Móretar desaparecera. Adwig olhou para Emma. Nenhuma delas possuía garantia de que a morte as levaria ao lugar pretendido.
As duas mantiveram uma mão na arma. O abraço veio no instante seguinte, impulsivo e desesperado. As lâminas atravessaram seus corações antes que Athos alcançasse a distância entre eles.
Athos alcançou os corpos tarde demais. A arma desapareceu com elas. Emma abriu uma passagem e partiu.
— Você mandou que eu esperasse — disse Athos a Krakor.
— Quando ainda era uma discussão. Eu não sabia o que aquela arma faria.
Hagar interrompeu a acusação. Se as partículas de Adwig e Dafa permanecessem naquela parte do Universo, Elaryan chegaria primeiro. Quando Móretar fora usado como teste, aparecera perdido no espaço antes de alcançar as profundezas de Vésper. A lógica de renascimento do planeta ainda estava em formação.
Emma podia ter seguido as partículas ou apenas cumprido outra etapa de um plano. A ausência de explicação tornou as duas possibilidades igualmente perigosas.
Athos enviou Trovar, Athena, Nerfate e Drácula para o outro lado do Universo. O teletransporte de Trovar permitiria que vigiassem aquela região. Ao retornar e perceber que nenhum tempo passara para o grupo, Hagar concluiu que Elaryan ainda agia nas proximidades de Vésper.
As conversas sobre Atlantis haviam avançado enquanto estavam fora. Os habitantes da cidade aquática aceitaram a transferência por maioria, com direito de retornar a Atlas e manter um governo próprio. Quem recusou recebeu tempo e transporte para outras regiões do planeta. Os representantes de Vésper aprovaram uma área de chegada distante das comunidades já instaladas e proibiram qualquer ampliação sem nova consulta.
A decisão não foi unânime. Parte de Atlantis acreditava que mudar de planeta apenas trocaria Poseidon por Athos. Em Vésper, moradores temiam que a cidade aquática consumisse recursos e trouxesse a guerra de Ux e Atlas para perto deles. As condições registradas por ambos os lados permitiram uma autorização emergencial, sujeita a nova votação depois da chegada.
Médera e Lúcifer coordenaram a retirada em Atlas. Poseidon e Hades gritavam das celas quando Athos chegou.
— Elaryan vai destruir você — disse Poseidon.
— Ela também poderia ter libertado você — respondeu Athos. — Preferiu deixá-lo aqui.
Athos abriu o maior portal que já produzira. Krakor, Bel e Hagar prepararam o contorno do mar inacabado de Vésper. Moradores de Atlantis acompanharam medições, pressão e rotas de evacuação.
Sinais distribuídos pela cidade marcaram o início da transferência. Equipes permaneceram nas construções mais frágeis, enquanto outras atravessaram primeiro para conferir a área de chegada. Athos esperou a confirmação dos dois lados antes de ampliar o portal.
A cidade atravessou cercada pela própria atmosfera aquática. O encaixe perdeu estabilidade numa das laterais, e Athos precisou sustentar a estrutura acima do novo mar enquanto Krakor e Bel completavam a contenção. A simbiose do boto reagiu à água e tentou assumir o corpo esgotado. Athos manteve a forma humana até baixar a cidade.
Uma corrente escapou e atingiu a região vazia reservada ao redor do mar. Nenhuma comunidade foi alcançada. Krakor fechou a abertura, e os habitantes de Atlantis corrigiram a pressão interna antes que as construções inferiores se partissem.
Perdeu a consciência logo depois. Médera o encontrou afundando e o levou de volta ao palácio.
Quando despertou, soube que Hades e Poseidon continuavam presos. Um conselho temporário de Atlantis fora escolhido pelos moradores. Médera e Lúcifer serviriam como ligação com Vésper, sem receber o governo da cidade como recompensa pela batalha.
Os primeiros representantes de Vésper já registravam danos, consumo de água e alterações no terreno. A transferência fora concluída; a decisão de permanecer ainda não.
Krakor contou a Médera sobre Móretar, Adwig e Dafa. Ela ouviu sem interromper e exigiu que Athos encontrasse os três e também o filho que prometera procurar.
Athos tentou abrir um portal. A energia não respondeu. Krakor recebeu de Médera o tridente de Poseidon e conseguiu produzir uma passagem com a mesma lógica do cajado de Éden.
— Há quanto tempo podemos fazer isso? — perguntou Krakor.
— Talvez desde antes de começarmos a deixar alguém em Éden para guardar o cajado.
O hábito havia sobrevivido à necessidade que o criara.
Krakor levou Athos de volta ao grupo. Hagar perguntou como encontrariam três partículas deslocadas sem conhecer o destino de nenhuma.
— Precisam de uma localizadora — disse uma mulher atrás deles.
Afrodite aproximou-se.
— E eu sou a melhor que encontrarão.