O Escape da Alma
Athos atravessava uma das áreas centrais de Vésper quando ouviu uma discussão perto dos alojamentos. Representantes de três comunidades tentavam decidir quem ocuparia uma região onde a gravidade permanecia estável. O espaço havia sido preparado para um povo ainda ausente, trazido por uma imagem que somente Athos recebera.
— Se eles nem chegaram, podemos usar as construções até que apareçam — disse um dos homens.
— E quando aparecerem? — perguntou Dafa. — Athos retira vocês de novo e escolhe outro lugar?
Todos olharam para ele.
Athos poderia ampliar a região, alterar a gravidade ou criar novas casas. Nenhuma dessas soluções respondia a quem tinha o direito de decidir. Antes que falasse, mulheres vindas da parte de Néon atravessaram a praça. Natane estava à frente.
— É Emma. Ela voltou diferente.
Athos acompanhou o grupo. Prometeu retornar à discussão, sem estabelecer quem aguardaria e quem ocuparia as casas. A urgência ofereceu uma saída que ele aceitou rápido demais.
Emma estava sentada no palácio recriado para as sobreviventes de Néon. Mantinha os olhos abertos e movia os dedos em intervalos curtos. Leiva fazia perguntas simples. Recebia palavras soltas, algumas sem relação com o que havia sido dito.
Athos se ajoelhou diante dela.
— Emma, consegue me ouvir?
Os olhos se voltaram para ele, porém não se fixaram em seu rosto.
Athos tocou a testa dela e procurou a energia que reconhecia nos seres vivos. O corpo respirava, o coração funcionava e os impulsos percorriam o cérebro. Faltava algo que ele não sabia medir.
— A essência dela não está aqui.
Leiva segurou o ombro de Emma.
— Como um corpo pode continuar vivo sem ela?
— Não sei.
A resposta mal terminou quando uma imagem tomou Athos. O salão desapareceu. Durante um instante, ele observou um mar vermelho sob um céu escuro. Emma flutuava sozinha. O nome do planeta surgiu com a mesma clareza das indicações que o haviam levado a Krakor.
Lagos.
Athos recuperou a visão do salão e abriu um portal. O corpo de Emma foi puxado antes que alguém se aproximasse. Ele saltou atrás dela e fechou a passagem.
Surgiu acima de um mar vermelho. Emma caiu, afundou até os ombros e voltou à superfície. Quando Athos a alcançou, ela o encarou com reconhecimento.
— Demorou.
— Você sabe onde está?
— Sei que morri. O resto ainda está voltando.
Athos a manteve acima do líquido com uma corrente de ar.
— Seu corpo atravessou comigo para Vésper. Continuou respirando, mas você estava aqui.
Emma olhou para as próprias mãos.
— O raio me atingiu quando o portal estava fechando. Depois eu fiquei em toda parte. Sentia coisas distantes como se estivessem dentro de mim. Vi o começo, o fim e alguma coisa além dos dois. Então tudo me apertou até eu caber aqui outra vez.
— Você se lembra do que viu?
— Lembro que entendi. Não lembro a resposta.
Athos tentou organizar o relato. Se Emma morrera durante o fechamento da passagem, o corpo poderia ter alcançado Vésper antes que a partícula essencial concluísse o percurso. A diferença temporal teria mantido aquela estrutura em atividade enquanto Emma renascia em Lagos.
— Talvez você tenha ficado entre a morte e a reconstrução por um intervalo que Vésper prolongou — disse. — Isso explicaria a separação. Não explica o que sentiu.
— Você acredita em mim?
— Acredito que passou por alguma coisa que ainda não compreendemos.
Emma observou o horizonte.
— Que lugar é este?
— Lagos. O mar é formado por sangue.
Ela retirou a mão do líquido.
— Essa informação poderia ter vindo antes.
Athos explicou que corpos mortos naquele planeta nem sempre desapareciam por completo. Partes de sua matéria se dispersavam, e o sangue terminava no mar. Havia uma única cidade conhecida, construída sob a superfície e protegida por uma entrada que viajantes dificilmente encontravam.
— Podemos conhecê-la outro dia — disse Emma. — Quero voltar para as outras.
Athos tentou abrir o portal. A energia se desfez antes de formar a passagem. Tentou manipular o ar e sentiu a mesma perda. Algo retirava sua força antes que o movimento se completasse.
Um navio emergiu do mar. O casco escuro rompeu a superfície sem derramar sangue sobre o convés. Homens e mulheres vestidos com cores diferentes demais para pertencer à mesma tripulação se aproximaram da borda.
O capitão usava um chapéu pontiagudo e carregava uma espada curta com lâminas nas duas extremidades.
— Pronte, capitão, comerciante e salvador de viajantes imprudentes — anunciou. — Vocês encontraram uma das minhas redes de recepção.
— Sua armadilha drena energia — disse Athos.
— Prefiro pensar que ela cobra pela entrada.
Pronte ordenou que lançassem correntes. Athos tentou afastá-las. A pouca força que reuniu desapareceu no ar.
Emma olhou para o capitão.
— Você escolheu uma pessoa ruim para vender. Ele é um dos seres mais poderosos do Universo.
Pronte sorriu.
— Agradeço pela propaganda.
Atrás dele havia prisioneiros em compartimentos estreitos. Algumas pessoas se mantinham próximas apesar das correntes. Entre elas, três animais semelhantes a cães-lobos protegiam uma mulher ferida e duas crianças. Tinham o peito largo, orelhas altas e patas firmadas no convés. Um dos tripulantes tentou puxar o menor. Os três avançaram juntos até as correntes interromperem o movimento.
— Feruns — explicou Pronte, percebendo o olhar de Athos. — Fortes, leais e péssimos para comércio individual. Vendem melhor com as pessoas às quais decidiram se prender.
O capitão ergueu um pequeno recipiente. Gás amarelo envolveu Athos e Emma.
Antes de perder a consciência, Athos viu um dos feruns deitar-se diante das crianças. Mesmo preso, continuava escolhendo quem proteger.