A Preparação para o Baile
Athos examinou a roupa preparada por Hermes. A peça amarela cobria suas costas e mantinha as asas comprimidas numa abertura estreita.
Quando se unira a Roc, prometera que nunca prenderia as asas por conveniência. O pássaro aceitara dividir o corpo sem perder aquilo que o definia. Uma festa não justificava romper o acordo.
Athos abriu o tecido, refez as laterais com energia e criou espaço para as asas se moverem. Quando saiu do provador, Móretar ainda discutia com Hermes.
— Eu não sou rei de Fóster.
— Foi aclamado pela população — respondeu Hermes. — E esta pode ser a única festa pública da qual participe antes de decidir o que fará com o título.
Móretar vestia uma roupa sóbria, ajustada o suficiente para revelar a posição que tentava afastar. Athos aprovou. Hermes percebeu as alterações na peça amarela e levou a mão ao peito.
— Eu desenhei aquilo.
— Roc recusou.
Krakor entrou vestindo vermelho e perguntou se fora confundido com um palhaço da corte. Móretar fez atrás de Hermes um sinal confirmando a hipótese.
Hertho, Trovar, Drácula, Arthur e Carl chegaram em seguida. Teleret preferira descansar depois da prisão. Quase todos os presentes haviam recebido mangas, faixas ou golas que dificultavam algum movimento. Quando Athos admitiu que modificara a própria roupa, a rebelião começou. Krakor usou fogo para cortar o excesso. Trovar retirou uma camada. Drácula escureceu o tecido até se reconhecer nele.
Hermes observou a curadoria desaparecer.
— Desisto dos homens.
As mulheres entraram antes que ele concluísse a reclamação. Adwig vinha à frente, acompanhada por Médera, Dafa, Bel, Nerfate, Agah, Conelli, Sussurro, Morgana e Athena.
Móretar esqueceu a própria roupa. Adwig sustentou o olhar dele e perdeu parte da segurança com que atravessara a porta.
Hermes anunciou uma dança de abertura para quem desejasse participar. Haveria duplas, pequenos grupos e pessoas entrando ou saindo durante a música. Morgana escolheu Drácula. Agah tomou o braço de Hermes e declarou que ficaria com o responsável pela festa. Bel e Nerfate reuniram-se a Conelli, Hertho e Carl para uma formação coletiva. Dafa prometeu a primeira dança livre a Adwig e ajudou Arthur a ajustar a roupa.
Médera ofereceu a mão a Krakor.
— Tente acompanhar, galã.
Ele sorriu com uma satisfação que não conseguiu esconder.
Sussurro foi até Trovar.
— Quero dançar com você hoje.
Trovar aceitou sem perguntar se era a segunda escolha. Athena se aproximou de Athos. Nenhum dos dois precisava definir o que aquela dança significaria depois da música.
Restavam Adwig e Móretar. Krakor gritou que desenharia um mapa caso ainda não tivessem entendido. Móretar atravessou a distância, estendeu a mão e esperou.
Adwig aceitou.
Athena comentou que a cena precisava de luzes prateadas. Athos criou pequenos pontos luminosos atrás dos dois. Móretar percebeu e tentou protestar; Adwig riu antes que ele conseguisse.
Hermes abriu os portões.
Moradores de várias regiões de Fóster começaram a entrar. Muitos nunca haviam recebido uma casa pessoal e conheciam aquelas construções apenas de fora. Adwig autorizara o uso do salão, dos jardins e das galerias próximas. As alas familiares permaneceriam fechadas, e qualquer pessoa poderia alcançar uma saída comum sem depender da energia do palácio.
Felicity, Giona, Brandok, Acid e Longivita chegaram com parte dos viajantes de Extern. Felicity ofereceu pequenos círculos de fogo para iluminar os jardins. Hermes recusou até ela demonstrar que as chamas não transmitiam calor ao chão. Depois pediu o dobro.
Alguns habitantes vindos de Alfheim ajudaram a criar estruturas temporárias para descanso. O acordo mental entre eles fazia bancos e coberturas responderem à necessidade coletiva. Quando duas pessoas imaginavam formas incompatíveis, a matéria parava no meio da alteração até que conversassem. Athos percebeu que aquela técnica funcionava melhor fora da urgência política de Percento.
Dircle atravessava o salão apresentando Athos como Urano. Athos o corrigia sempre que ouvia. Na quarta vez, o gnomo passou a anunciar que o deus insistia em negar a própria natureza por razões misteriosas.
O salão se ampliava conforme os convidados chegavam. Mesas mudavam de posição, novas passagens surgiam e a pista permanecia visível mesmo quando a distância até ela aumentava.
Krakor perguntou como o espaço continuava crescendo.
Hermes explicou que uma substância presa no núcleo de Fóster gerava energia havia eras. A fonte era abundante, sujeita a perda de estabilidade quando alguém tentava extrair mais do que a estrutura suportava. Ele aprendera a atuar como catalisador, transformando a ideia de lar oferecida pelo morador e as associações ligadas a ela em instruções para o planeta.
— Eu não recebo acesso irrestrito à mente — disse. — A casa interpreta as associações autorizadas e adapta funções já definidas. Uma função nova exige outra autorização.
Athos lembrou das regiões imprecisas de Krimost e da figura atrás do raio em Tânatos.
— E quando a interpretação ultrapassa o pedido?
Hermes olhou para as paredes do palácio. Adwig já havia proibido que a construção impedisse saídas ou alterasse o desejo de alguém permanecer. O limite continuaria valendo mesmo se ela desse uma ordem contraditória sem perceber.
— Fóster precisa de guardiões e limites porque uma casa mal construída pode confundir proteção com retenção — disse Hermes. — Já aconteceu.
Krakor perguntou se aquela energia podia criar algo além de moradias.
— Pode. Essa é uma pergunta perigosa.
Hermes partiu para organizar a entrada dos músicos. Athos observou o salão recebendo desejos, lembranças e milhares de pessoas. A mesma força capaz de devolver o colar de Athena também poderia oferecer algo que ninguém soubesse recusar.
Perto de uma das portas, moradores pediam a Hermes que suas casas fossem criadas depois da festa. Ele anotava os nomes e explicava que o pedido entraria na mesma fila dos demais. Athos compreendeu que a beleza do palácio também expunha a desigualdade que Fóster ainda precisava resolver.
Athena tocou seu braço.
— Você pretende analisar as paredes durante a noite toda?
Athos sentiu o colar no bolso.
— Só até a música começar.