A Visão do Gelo
— Pela misericórdia, Athos! Para onde você nos trouxe desta vez? — exclamou Trovar.
O susto também atingira Athos. A visão havia indicado aquele lugar e um intervalo muito curto para agir. Estavam no alto de uma montanha coberta por gelo, com o horizonte livre de névoa. Dali podiam acompanhar a destruição de Paros.
Raios cortavam o céu. Jatos de água atingiam vários grupos, placas de gelo se rompiam em fragmentos afiados e a neve girava sobre o campo. Entre os ataques produzidos pelo domínio dos elementos, também havia armas de fogo, explosivos, catapultas, flechas e lâminas. Três frentes de batalha se espalhavam abaixo da montanha.
— Eles sequer sabem quem está atacando e quem está sendo atacado — disse Silency. — Não existe tática. Só caos.
Athos concordou. Já vira guerras extensas, mas aquela parecia fracassar para todos ao mesmo tempo. O grupo que procurava estava entre as Gigantes, visíveis do outro lado do campo.
Ele abriu as asas e partiu.
— Odeio quando ele faz isso! — gritou Sussurro. — Será que não percebeu que estamos no alto de uma montanha de gelo e nenhum de nós voa?
— Da próxima vez, vamos preparar alguma coisa para ele — respondeu Trovar. — Um dia ainda conseguiremos surpreendê-lo.
Trovar disparou contra a montanha e separou um bloco largo de gelo. Os três pularam sobre a placa antes que ela começasse a descer. Descargas elétricas corrigiam a direção e aumentavam a velocidade. Silency cravou as lâminas dos braços na superfície para se equilibrar, enquanto Sussurro usava os bastões como apoio durante as curvas.
— Joga um raio nele! — pediu Sussurro. — Não conseguiremos atravessar o campo de batalha.
A voz de Athos chegou à mente dos três.
— Esperem no lado seguro. Voltarei antes que percebam.
Athos manteve altura suficiente para evitar os ataques. A ausência de combate aéreo o incomodava. Paros era conhecido pelo domínio da água e do vento, e muitos de seus habitantes poderiam lutar acima do solo.
A resposta surgiu quando ele se aproximou das Gigantes. Uma rajada supersônica alterou a densidade do ar ao redor de seu corpo. As asas perderam sustentação, seus pensamentos se desorganizaram por um instante e ele caiu no centro da batalha.
Athos atingiu o chão com um dos joelhos. Ataques vieram de todos os lados: água, gelo, projéteis, lâminas e descargas de energia. Ele se levantou envolvido por uma barreira que repeliu o que se aproximava. Algumas guerreiras caíram, assim como magos da frente oposta, e o espaço aberto ao redor dele tornou a se fechar.
Não conseguiria levantar voo naquele ponto. Pelo solo, a quantidade de combatentes tornava qualquer avanço lento. Athos ergueu as mãos, e duas labaredas cresceram acima do campo. Primeiro, lançou o fogo para o alto. Depois, atingiu armas e estruturas de gelo. Por fim, disparou contra duas partes elevadas das montanhas, transformando a superfície congelada em vapor.
Ampliou a voz modificando a vibração do ar.
— Parem agora!
O combate cessou. Todos sabiam que um manipulador de fogo comum teria pouca vantagem naquele mundo. O que Athos acabara de fazer não pertencia a um manipulador comum.
— Não me interessam os motivos deste confronto — disse ele. — Há alguém conduzindo esta guerra enquanto vocês destroem uns aos outros. Preciso falar com as Gigantes. Esperem até terminarmos ou serei obrigado a interrompê-los outra vez.
Athos caminhou entre as tropas. Guerreiras e magos abriram passagem.
— Procuro Creteas.
Uma das Gigantes avançou. Tinha mais que o dobro da altura dele.
— O que deseja com nossa líder?
Antes que Athos respondesse, Creteas apareceu entre as outras guerreiras. Estava ferida e mancava.
— O que procura, elfo? — perguntou.
— Imagino que queira vencer sua guerra.
— Esta guerra nem é nossa. Não tivemos escolha.
— Então entende o problema. Isto é uma aniquilação organizada por alguém que trata os povos deste planeta como peças. A guerra que me trouxe até você é contra um dos responsáveis. Para enfrentá-lo, preciso da pessoa que ficou para trás em sua última vida e do grupo que veio com você para cá. Vamos resgatá-la.
Creteas avançou um passo, esquecendo por um momento os próprios ferimentos.
— Está dizendo que vai buscar Emma?
— Nós vamos buscá-la. Vocês são importantes para impedir a destruição do Universo.
Athos observou as Gigantes reunidas.
— Onde estão as guerreiras de Néon e as Milleniuns?
Creteas abaixou o rosto.
— Morreram soterradas dentro da geleira.
— Elas estavam vivas na minha visão, aqui em Paros. Devem estar presas.
Athos seguiu em direção à geleira, atravessando a área ocupada pelos magos. Creteas foi atrás dele.
— Ninguém voltará a lutar enquanto estivermos aqui — avisou, alto o suficiente para alcançar os dois lados.
Na geleira, encontrou uma grande estrutura bloqueando a passagem. Athos moveu o gelo e abriu o caminho. As guerreiras de Néon e as Milleniuns estavam lá, feridas e exaustas.
Creteas correu até elas. O reencontro começou entre choro, perguntas e tentativas de cuidar dos ferimentos. Athos deixou que se aproximassem e logo precisou interromper.
— Desculpem. Minha noção de tempo se perde entre os fusos dos planetas. Aqui ele passa mais devagar do que em Néon e mais depressa do que no lugar aonde ainda preciso ir. Também deixei uma pendência para trás. Cuidaremos dos ferimentos assim que chegarmos. Segurem-se umas nas outras.
As mulheres formaram um círculo. Athos tocou uma delas e abriu o deslocamento.
No instante seguinte, estavam em Néon diante de Emma. Ela parecia quase igual à mulher que permanecera ali depois de salvar a população do planeta. Creteas tentou dizer alguma coisa, porém a emoção impediu que a frase se completasse.
Athos observou o reencontro apenas por alguns segundos.
— Preciso recuperar meus amigos em Paros e voltar a Key. Também deixei alguém esperando lá. Depois conversaremos. Cuidem umas das outras enquanto isso.
Ele desapareceu novamente.