O Exército Mais Poderoso
Olimpo estava deserto.
Trovar sobrevoou a Cidade Luz usando impulsos elétricos para suportar a gravidade do planeta. Abaixo dele, avenidas haviam se partido e construções estavam abertas ou reduzidas a destroços. Chamou por sobreviventes em vários pontos. Ninguém respondeu.
Quando retornou à base da torre, os outros continuavam desacordados. Athos e Athena mal respiravam. Silency e Sussurro haviam consumido as próprias forças durante o resgate. Trovar não possuía qualquer habilidade de cura e não sabia quanto tempo podia esperar.
O chão começou a tremer.
Rachaduras avançaram pelas ruínas, derrubando o que ainda permanecia de pé. Trovar arrastou os quatro até uma estrutura de carga que encontrara entre os escombros. Fez o metal flutuar e ergueu o próprio corpo com descargas sucessivas.
As fissuras se multiplicaram. Mudanças bruscas na pressão empurravam a plataforma para os lados e obrigavam Trovar a corrigir o movimento sem descanso. Quando a lava irrompeu do solo, percebeu que não enfrentava outro ataque. Olimpo estava se destruindo.
Um jato o atingiu na lateral. A dor interrompeu seu controle e a plataforma caiu. Trovar tentou alcançá-la, mas o braço queimado já não respondia. Os quatro corpos despencaram em direção a uma abertura tomada por lava.
Athos tocou o calor e despertou.
Não houve tempo para compreender onde estava. Viu Trovar ferido, os amigos em queda e o planeta aberto sob eles. Nenhuma imagem lhe mostrou um caminho. Athos reuniu o que ainda possuía de energia e retirou todos dali.
O destino surgiu por associação. O sangue de Athena, a queimadura e a lembrança de uma morte sofrida quando ainda estava no terceiro nível levaram o grupo a Dracs.
Caíram dentro do castelo do rei.
Athos tentou se levantar, porém terminou de joelhos. Trovar estava consciente e muito ferido. Athena, Sussurro e Silency ainda não haviam despertado. Curar o amigo consumiria uma energia que talvez fosse necessária para proteger todos em um planeta cuja situação desconhecia.
— Fique com elas — pediu a Trovar. — Preciso encontrar Drácula.
O castelo estava mergulhado em penumbra. Athos atravessou corredores vazios, passou pela sala do trono e subiu até a Torre Central. Na escuridão, reconheceu a energia do rei diante de uma abertura voltada para o horizonte.
— É uma honra revê-lo — disse Drácula sem se virar. — Embora nenhum de nós pareça estar em boa situação.
— Alguém aprisionou Athena e destruiu Olimpo. Se Dracs também está ameaçado, alguma coisa mudou em uma extensão que ainda não compreendo.
Athos deu mais um passo.
— Não se aproxime.
Ele parou.
— Sinto o sangue em você — continuou Drácula. — Seu coração se tornou ainda mais difícil de ignorar. Minha necessidade voltou e faz muito tempo que não consigo saciá-la. Não sei quanto controle ainda tenho.
Drácula enfim o encarou. Os olhos fundos pouco lembravam o amigo que Athos conhecera.
— O que aconteceu?
O rei apontou para o horizonte e saiu da frente.
Uma massa de combatentes avançava contra o castelo. Os últimos vampiros que tentavam resistir desapareciam sob ataques coordenados. Athos distinguiu arqueiros, atiradores, espadachins, magos, gigantes e manipuladores de vários elementos. Havia elfos, fadas, nardecons, vitorianos, soldados que não reconheceu e até vampiros. As roupas e formações indicavam forças de origens diferentes marchando sob um mesmo comando.
Athos nunca vira um exército daquela dimensão.
— Você está ferido, mas continua sendo uma das criaturas mais poderosas que conheci — disse Drácula. — Athena está com você. Em outras circunstâncias, eu diria que formaríamos uma defesa impossível de romper. Hoje, o impossível já foi rompido. Dracs está perto do fim.
— Posso levá-lo para outro planeta.
— Já recuei três vezes. Meu povo morreu enquanto eu tentava reunir força para voltar. Não vou abandonar os que ainda lutam nem entregar o castelo vazio. Quero destruir quantos deles conseguir antes de descobrir o que vem depois.
Sangue desceu dos olhos do rei.
Athos estendeu a mão.
— Então lutarei ao seu lado.
— Ainda aceitam companhia? — perguntou Athena da entrada. — Passei tempo demais presa para terminar assistindo de longe.
Ela se apoiava em Trovar. Silency e Sussurro vinham logo atrás, ainda exaustas. Drácula olhou para os cinco e depois para o exército.
— Seis contra tudo aquilo — disse Sussurro. — Já começamos planos com condições melhores.
— Precisamos de um agora — respondeu Athos. — O que sugere?
Sussurro examinou a largura da marcha, os pontos de aproximação e o terreno ao redor do castelo.
— Qual é o maior portal que você consegue abrir?
Athos acompanhou o raciocínio.
— Depende de quanto tempo eu tiver para sustentá-lo e de quão perto estiverem.
— Então mudamos o campo de batalha. Primeiro reunimos o exército numa área menor. Depois você abre a passagem sob todos.
— Qual planeta suportaria isso? — perguntou Drácula. — Salvar Dracs condenando outro povo não é uma vitória.
— Tânatos — disse Athos. — O planeta é deserto, a gravidade é maior e o tempo passa muito mais devagar. Se conseguirmos levá-los até lá, teremos tempo para descobrir quem os reuniu e como detê-los.
Athena olhou novamente para a marcha.
— Eles ocupam uma extensão grande demais.
— Precisamos de uma isca — respondeu Sussurro. — Algo que obrigue as linhas a convergir antes que percebam o portal.
Drácula permaneceu alguns segundos em silêncio.
— Talvez ainda existam vampiros capazes de fazer isso.
Saltou da torre e assumiu a forma de um enorme morcego. Voou para longe do exército e retornou pouco depois, carregando uma grande estrutura com dez vampiros.
— Eu os escondi quando nosso exército caiu — explicou. — Quase toda a população decidiu lutar. Pelo que vi, somente eles recusaram a batalha porque receberam minha ordem direta.
Os dez desceram. Alguns pareciam assustados. Outros observavam o rei à espera da próxima ordem.
— São os Guardiões do Sangue — continuou Drácula. — O organismo deles repõe o sangue muito mais depressa, desde que tenham água, alimento e descanso. Durante eras, alimentaram a população em intervalos controlados e impediram que os vampiros precisassem matar uns aos outros para sobreviver. Eram dez antes do ataque. Ainda são dez.
Drácula se aproximou do grupo.
— Protegê-los sempre foi uma das maiores responsabilidades de Dracs. Agora preciso pedir que se exponham para salvar o que restou do planeta.
Athos reconheceu Paole entre eles. Conhecia aquela história e compreendia o risco do pedido. O exército marchava para destruir Dracs; os últimos vampiros capazes de sustentar sua sociedade seriam usados para atraí-lo.
Se o plano falhasse, não sobraria povo para reconstruir nem sangue para recebê-lo de volta.