Revelações?
Hades olhou para Athena como se os ataques à Cidade da Paz fossem uma interrupção desagradável entre conhecidos.
— Finalmente voltou.
Athena reconhecia o rosto e a cadência da voz. Nenhuma lembrança conseguia completar a familiaridade.
— Foi você que enviou aqueles seres para me capturar?
— Eu queria conversar antes que Ares transformasse tudo em guerra. Ele nunca compreendeu a diferença.
Athos perguntou por que Athena era importante. Hades ignorou a pergunta e se aproximou dela.
— Seu amigo tentou abrir o bloqueio e parou quando encontrou resistência. Posso mostrar o que ele não alcançou.
— Afaste-se — disse Athos.
Athena ergueu a mão para contê-lo.
— Se você consegue devolver minhas lembranças, faça.
Hades tocou a testa dela.
As imagens chegaram sem ordem. Athena viu os salões de Olimpo, Hades mais jovem, Perséfone atravessando um jardim e Elaryan diante dos governantes derrotados. Sentiu desejo, ciúme e medo com intensidade suficiente para reconhecer que haviam pertencido a ela. Também viu Hades cair depois de produzir uma descarga em seu cérebro.
Athena desabou. Athos atacou Hades antes de perguntar o que acontecera. Os golpes quebraram o nariz e deslocaram a mandíbula dele. Hades não reagiu. Continuou sorrindo enquanto o sangue escorria.
— Pare! — gritou Athena.
Athos ainda lançou outro golpe antes de ouvi-la. Recuou quando ela repetiu a ordem.
— Você acabou de prometer que ninguém decidiria pelos outros com base numa história incompleta — disse Athena.
Hades recompôs o rosto.
— Ele aprende depressa quando o futuro concorda com ele.
Athena contou apenas o que conseguia distinguir. Fora apaixonada por Hades durante a primeira ocupação de Olimpo. Perséfone também o amava. Elaryan prometera isolar Athena no planeta e permitir que Perséfone permanecesse com Hades. Em algumas imagens, Athena usava seus poderes para influenciar as emoções dele. Em outras, tentava impedir que alguém fizesse o mesmo.
— As duas coisas parecem lembranças — disse ela. — Isso não significa que aconteceram na mesma ordem.
Falarin afirmara que Athena aquecera o planeta para impedir a formação de um exército. Hades apresentou outro motivo: ela temia perdê-lo. Uma razão não anulava necessariamente a outra. Athena poderia ter agido por ciúme, cálculo político e medo ao mesmo tempo.
— Elaryan pediu que eu bloqueasse aquele período — disse Hades. — Ela precisava que Athena reconstruísse Olimpo sem tentar recuperar os primeiros habitantes.
— E por que você obedeceu? — perguntou Trovar.
— Porque algumas propostas só parecem escolhas para quem não ouviu a ameaça.
Athos não conseguia saber se Hades dizia a verdade. Suas antecipações haviam desaparecido desde a entrada nos rios.
— Mostre tudo a ela — disse.
— Não existe tudo. Existem regiões preservadas, regiões destruídas e aquilo que cada pessoa suportou guardar.
Athena tentou se levantar. Hades ofereceu a mão. Ela recusou.
— Você selecionou o que devolveu?
— Abri o bloqueio que eu criei.
— Não foi o que perguntei.
Hades não respondeu.
Athos avançou outra vez. Hades sacou a espada e atravessou seu abdômen. Silency e Sussurro tentaram alcançá-lo, mas uma rajada as lançou para trás. Trovar disparou eletricidade. Hades desviou a carga para a parede.
Drácula alterou a fluidez do sangue dele. O coração de Hades perdeu o ritmo, e Athena gritou no mesmo instante. A dor a derrubou outra vez.
Athos pediu que Drácula interrompesse o ataque. Hades recuperou o controle e lançou um projétil metálico contra o vampiro. O objeto atravessou seu ombro.
— Agora entenderam — disse Hades. — Quando abri o bloqueio, também criei uma ligação. Se meu coração parar, o cérebro de Athena para comigo.
Athena tentou sentir o vínculo dentro da própria cabeça. Encontrou uma tensão que aumentava sempre que Hades se afastava ou sofria algum dano.
— Você chama isso de proteção? — perguntou ela.
— Chamo de garantia.
Hades ergueu a mão. Um pássaro dourado saiu de uma das torres, desceu até a rua e assumiu forma humana. O homem era alto, forte e vestia vermelho. Seu sorriso não se alterou quando viu o sangue.
— Lúcifer — disse Hades. — Cuide dos nossos convidados.
Lúcifer fechou o ferimento de Athos e restaurou parte de sua energia. Depois retirou o projétil do ombro de Drácula e recompôs os tecidos. Tratava cada lesão com atenção, sem demonstrar qualquer reação ao sofrimento que Hades acabara de causar.
Athos tentou usar a nova simbiose. A forma do boto respondeu com um espasmo que atravessou sua coluna. A disputa entre os vínculos continuava e impedia uma transformação completa fora da água.
— Não tente outra vez aqui — disse Sussurro.
Hades percebeu a dificuldade e guardou a informação.
Athena permaneceu afastada de Athos.
— Você me usou como alvo porque viu que funcionaria. Agora atacou porque decidiu que eu precisava ser defendida.
— Eu achei que ele estivesse destruindo sua mente.
— Pergunte antes de transformar o que você acha numa ordem para todos.
Athos não encontrou resposta que não repetisse uma justificativa já recusada.
Hades convidou o grupo a conhecer o Submundo antes de julgá-lo. Disse que mostraria as pessoas mantidas ali, a energia extraída delas e o que aconteceria com Ux se o sistema deixasse de existir de uma vez.
Silency perguntou se o convite permitia recusa.
— Permite — respondeu Hades. — Athena morrerá se tentarem me matar, e vocês não conhecem a saída. Ainda assim, podem recusar.
Lúcifer perguntou qual seria o primeiro destino.
— Vamos começar por quem foi meu primeiro pai.
O sorriso de Lúcifer permaneceu, mas seus ombros ficaram rígidos.
Athos tentou enxergar alguns minutos à frente. Nada surgiu. Entrara no domínio de Hades sem visão, com uma simbiose instável e uma versão do passado que já começava a se contradizer.