Vibrações do Futuro
— Onde está Athos? O que aconteceu?
Athena havia despertado longe da área destruída pelo portal. Encontrou Silency e Sussurro no fundo do buraco, próximas ao ponto onde Athos desaparecera.
Silency avançou.
— Onde você estava? Que tipo de deusa permite que ele morra duas vezes?
Empurrou Athena, que caiu sobre as pedras.
— Você permitiu a morte de Athos duas vezes!
Silency ergueu as mãos, mas não atacou. Deu um passo para trás e começou a chorar. Sussurro se aproximou dela sem saber o que dizer. Athena permaneceu sentada no chão. As lágrimas vieram mais baixas, acompanhadas de uma irritação que não conseguia separar da culpa.
— Eu estava inconsciente quando isso aconteceu — respondeu Athena. — Não escolhi deixá-lo morrer desta vez.
Silency não levantou o rosto.
— Na primeira, ele morreu para me proteger — continuou Athena. — Passei muito tempo dizendo a mim mesma que aquela morte o levou a Tânatos e fez dele quem se tornou. Nunca pedi perdão por ter aceitado essa explicação como justificativa para o que vocês perderam.
Athena se levantou.
— Ele procurava uma forma de voltar para vocês quando chegou ao Olimpo. Eu lhe dei outras guerras, outros problemas e motivos para ficar. Também me apaixonei por ele. Talvez tenha passado todos esses anos tentando provar que o que houve entre nós era tão importante quanto a vida que ele teve com vocês.
— Athos sabia que nós o acompanharíamos — disse Sussurro. — Você ainda precisava de todo um planeta repetindo que era deusa.
Athena recebeu a provocação sem responder.
Depois da morte de Athos em Dracs, Silency e Sussurro tentaram continuar juntas. Drácula as aconselhou, ofereceu trabalho, viagens e espaço no castelo. Nada bastou.
As duas acreditavam que tirar a própria vida prejudicaria a passagem para o mundo seguinte. Pensaram em matar uma à outra, porém temeram que a escolha tivesse a mesma consequência. Procuraram então situações perigosas. Mergulharam em profundidades nunca alcançadas, participaram de escavações próximas ao núcleo de Dracs e voaram para além das faixas seguras da atmosfera.
Usavam equipamentos de proteção e seguiam procedimentos suficientes para sobreviver. Diziam que era prudência; na verdade, deixavam uma pequena margem para que alguma coisa falhasse. Nada falhou. Quebraram recordes, fizeram descobertas e ganharam reconhecimento por aventuras que esperavam não terminar.
Depois vieram as festas, as brigas, o excesso de bebidas e substâncias capazes de alterar a percepção. Procuravam pessoas perigosas, mas todos em Dracs passaram a conhecer a história. Ninguém queria ajudá-las a morrer.
Drácula enxergava nelas um problema que se repetia em outras comunidades. Muitos vampiros haviam perdido o interesse pela vida. O sistema de sangue exigia organização, assim como a produção de alimentos, a manutenção das cidades e o acolhimento dos recém-chegados. O trabalho era voluntário, escolhido de acordo com a habilidade e o prazer de cada pessoa. Uma população cada vez mais afastada dessas atividades ameaçava a distribuição que mantinha Dracs igualitário.
Ele criou uma competição anual. Tarefas com demanda social alta davam pontos aos participantes. Quem atingisse a marca estabelecida poderia, no final do ciclo, apresentar-se diante do castelo e pedir que Drácula encerrasse aquela vida.
A proposta provocou revolta. Também recebeu adesão suficiente para revelar o tamanho do sofrimento que o rei vinha tentando administrar como questão de produtividade. Drácula permitiu que todos desistissem até o último momento. Ainda assim, mais de cinquenta pessoas se apresentaram no primeiro ano.
Silency e Sussurro estavam entre elas.
Drácula cumpriu o que prometera e matou uma por uma. Acreditava que uma morte executada por ele, após um ano de escolhas voltadas a outras pessoas, teria consequências diferentes de um suicídio. Não possuía prova. O ritual continuou nos anos seguintes, com menos participantes, e se tornou uma das decisões que ele mais lamentava. Ajudara alguns vampiros a reencontrar um motivo para viver durante o percurso, mas convertera o desespero dos demais numa instituição pública de morte.
Silency e Sussurro seguiram para mundos diferentes de quarto nível. Nenhuma encontrou Athos. Somente depois de morrerem outra vez e chegarem ao Olimpo se reencontraram.
Lá conheceram Trovar e Athena. Descobriram que Athos vivera naquele planeta e morrera muitos anos antes, durante uma tentativa de invasão. Poseidon usara o tridente para matá-lo quando Athos protegeu Athena. A arma não pertencia ao Olimpo nem ao mundo de origem dos invasores, e talvez o próprio Poseidon desconhecesse tudo o que ela podia fazer.
A morte de Athos permitiu que o plano de Athena expulsasse os invasores. Isso bastou para alimentar uma rivalidade que o tempo tornou suportável, nunca inexistente. No Olimpo, morrer era ainda mais difícil do que em Dracs. Os derrotados eram exilados no espaço ou mantidos sob supervisão. Silency e Sussurro permaneceram ali, próximas de uma deusa que representava ao mesmo tempo o último sacrifício de Athos e uma possibilidade de reencontrá-lo.
Agora, nas ruínas de Dracs, as três voltavam à mesma disputa.
— Vocês pretendem continuar brigando por minha causa ou isso é uma forma de passar o tempo enquanto decidem como sair daqui?
A voz interrompeu a discussão.
Athos surgiu de um portal. O corpo, as roupas e as asas mostravam mudanças que não poderiam ter acontecido nos poucos minutos transcorridos para elas. Trovar apareceu ao lado dele, também transformado.
Athena, Silency e Sussurro correram até Athos. As três o abraçaram, falando ao mesmo tempo. Ele tentou responder e desistiu até que o aperto diminuísse.
— Precisamos sair. O tempo deste planeta se tornou valioso demais. Tive novas visões e há muitas coisas esperando por nós.
Trovar abriu os braços.
— Eu também morri e voltei, caso alguém tenha interesse.
Sussurro soltou Athos para abraçá-lo. Silency veio logo depois. Athena permaneceu junto de Athos por mais alguns segundos antes de se afastar.
A discussão não estava resolvida. Pela primeira vez, as três tinham Athos vivo diante delas para participar quando voltasse.