Ordem de Guerra
Os veios de metal atravessaram a Cidade da Paz por baixo das casas. Trovar acompanhou o movimento com uma das mãos sobre o chão. A matéria respondia a uma força distante, organizada em pulsos regulares.
— Isto não é um ataque — disse ele. — É uma estrada.
As linhas convergiram na entrada da cidade e ergueram uma passagem alta o bastante para dois gigantes. Eles surgiram juntos, cobertos por placas escuras, e pararam antes da primeira construção. O conselho provisório ainda estava reunido quando Athos, Athena, Drácula e Maeli chegaram.
Um dos gigantes anunciou que falava por Ares, sob as ordens de Hades. A cidade seria destruída em confronto aberto. A oferta aos habitantes era simples: quem abandonasse a rebelião e retornasse à vida anterior seria poupado.
— Temos um conselho — respondeu Maeli. — A cidade dará uma resposta quando os moradores decidirem.
O gigante olhou para ela e sorriu.
— Hades não negocia com moradores.
Ele moveu dois dedos. Um dos veios rompeu o solo e avançou na direção das casas. Athos transformou o ar ao redor dos emissários em fogo. As chamas cobriram os dois corpos, perderam força e desapareceram quando os gigantes retiraram o oxigênio do espaço ao redor deles.
O segundo gigante atacou Athos sem tocar nele. Seu sangue esquentou por dentro. A pressão atravessou as veias, rompeu pequenos vasos e levou vapor aos poros. Athena reduziu a temperatura do corpo dele antes que os órgãos começassem a falhar. Silency e Sussurro transferiram parte da própria energia enquanto Trovar prendia os veios subterrâneos.
Athos formou duas lâminas de metal ao redor dos braços e avançou. Cortou os gigantes nas pernas, no abdômen e perto do pescoço. Quando reduziu a velocidade entre os dois, cada adversário segurou um de seus braços.
Trovar esperava por isso. A eletricidade percorreu as lâminas, entrou pelos cortes abertos e derrubou os gigantes. A camada criada por Athos sob o metal o protegeu da descarga. Drácula alcançou os dois antes que se recuperassem e rompeu suas jugulares. Os corpos desapareceram, deixando apenas marcas queimadas no solo.
A comemoração começou entre as casas e se espalhou pela praça. Athos ainda respirava com dificuldade. Olhou para os moradores e para o conselho, que não chegara a responder à declaração de guerra.
— Ares atacará de novo — disse. — Eu vou lutar. Quem quiser partir precisa ter passagem segura.
Maeli subiu na mesma base usada durante a discussão das moradias.
— Quem ficar também terá obrigações. Vamos definir abrigos, rotas e responsáveis por cada região. Nenhuma vitória muda isso.
As palavras contiveram parte do entusiasmo. Algumas famílias pediram escolta para deixar a cidade. Outras decidiram permanecer. O ferun que acompanhara as crianças circulou entre elas, reconhecendo os cheiros e os caminhos até os abrigos. Quando Drácula tentou levá-lo para a entrada, o animal permaneceu ao lado dos moradores.
— Ele escolheu o que vai defender — disse Maeli.
Antes que o conselho terminasse de distribuir as tarefas, uma multidão apareceu na estrada aberta pelos emissários. Athos preparou as lâminas outra vez. O grupo parou longe das construções e ergueu as mãos.
Um homem explicou que haviam visto a derrota dos gigantes. Durante anos, o medo de Hades os impedira de sair. Agora queriam saber se a cidade ainda recebia pessoas.
Athos voltou o rosto para Maeli. Ela consultou os representantes mais próximos. Autorizaram a entrada provisória, com registro, abrigo e a mesma possibilidade de contestar as regras.
O homem deu o primeiro passo. Nesse instante, a praça desapareceu dos olhos de Athos.
Dois guerreiros voavam sobre a cidade. Um deles vestia negro e usava lâminas curtas para cortar qualquer pessoa que encontrasse. O outro, coberto por uma armadura marrom, atravessava corpos com as mãos. Trovar disparava contra eles sem resultado. Athena tornava o ar mais denso, conseguia reduzir a velocidade dos dois e fechava uma prisão ao redor deles.
Quando Athos se aproximava para atacá-los, os guerreiros percebiam Athena. Rompiam a prisão, queimavam os braços dela, arrancavam-nos e a levavam.
A praça retornou. Athos cambaleou, ainda ouvindo os gritos que não haviam acontecido. As imagens extensas e sem ordem que o perseguiam há tanto tempo eram diferentes daquilo. Dessa vez, vira poucos minutos e cada movimento permanecia acessível.
— Athena, preciso das prisões usadas em Olimpo contra seres das trevas. Duas, a vinte metros do chão.
— Levamos anos para construí-las.
— Eles já estão vindo.
Athena olhou para o céu e começou. Trovar recebeu a tarefa de carregar as nuvens. Athos reuniu umidade acima da cidade. O conselho acionou as rotas definidas minutos antes. Silency e Sussurro conduziram os recém-chegados ao abrigo mais próximo. Maeli chamou o ferun para a praça; ele seguiu na direção contrária, encontrou uma criança caída e voltou com ela presa delicadamente entre os dentes.
Os dois guerreiros surgiram sobre os telhados antes que a evacuação terminasse. Athos foi ao encontro deles. Conseguia antecipar cada golpe por alguns segundos, tempo suficiente para evitar as lâminas e impedir que alcançassem as ruas. Sua vantagem terminava sempre que tentava enxergar além daquele confronto.
Athena mantinha as mãos erguidas. Duas cápsulas de fogo tomavam forma acima da praça, instáveis e ainda incompletas.
Athos fez chover. Trovar descarregou eletricidade nas nuvens, e a água conduziu a energia até as armaduras dos invasores. Eles perderam velocidade.
— É Athena que vocês querem — gritou Athos.
Os dois viraram ao mesmo tempo. Athena se elevou entre as cápsulas. Os guerreiros avançaram contra ela e atravessaram os limites das prisões. A água, a descarga elétrica e a alteração de permeabilidade os mantiveram no estado físico necessário. Athena fechou as estruturas.
As cápsulas tremeram. Os prisioneiros golpearam as paredes e repetiram o nome dela. Athena pousou com dificuldade. Trovar a segurou antes que caísse.
— Se eu tivesse demorado? — perguntou ela.
— Eles teriam levado você.
Athena observou os dois seres presos.
— Por quê?
Athos ainda via fragmentos dos próximos movimentos, nenhum capaz de responder.
— Isso eu não vi.
A guerra começara como uma tentativa de destruir a cidade. Ao fim do primeiro ataque, Hades revelara que também procurava Athena.