Inesperada Missão de Salvamento
O primeiro deslocamento lançou todos contra as paredes. Por alguns segundos, o planeta pareceu uma nave arrancada da própria rota. A sensação diminuiu quando a base e os corpos passaram a cair sob a mesma aceleração, embora os instrumentos confirmassem que o movimento continuava.
Tarson projetou as leituras na sala central. Quase toda a faixa escura havia desaparecido entre os dois fluxos gravitacionais. O planeta de pesquisa e outro corpo de massa semelhante avançavam para a mesma região.
— Eles entrarão em colisão? — perguntou Olina.
— Se nada mudar, sim. O impacto acontecerá antes do horário previsto para a convergência.
Os três assentamentos permaneciam fora da trajetória imediata. A expedição era a única população daquele mundo e todos os membros já estavam na base ou a caminho dela. Olina manteve equipes de comunicação ligadas a eles e dispensou quem preferisse deixar a sala.
Tarson permaneceu diante dos dados.
— Passei anos tentando descobrir o que existia do outro lado. Quero ver a resposta, mesmo que seja a última coisa que eu veja.
A madrugada havia mudado o grupo. Hagar e Bel permaneciam próximos. Sussurro sentou-se ao lado de Athos com a intimidade tranquila de quem dividira com ele parte das horas anteriores. Afrodite entrou por outro corredor, ajeitando a roupa e demonstrando pouco interesse pelos olhares que recebeu.
— Algumas pessoas daqui também preferiram não esperar o fim diante de uma tela — disse ela.
Olina surgiu logo depois de Krakor. Ele evitou qualquer comentário e se concentrou no chão, comportamento tão raro que Afrodite quase sorriu.
Outra alteração gravitacional atravessou a base. Afrodite apoiou a mão numa coluna. A pele ficou vermelha, e uma linha de fumaça subiu entre seus dedos.
Krakor abriu as mãos. O fogo apareceu por um instante.
— A inibição está cedendo.
O planeta sofreu uma nova arrancada. Athos criou um portal por reflexo e surgiu acima da atmosfera. As coordenadas oscilavam, porém já conseguiam se fixar por tempo suficiente. Ele avistou, muito distante, o segundo planeta preso ao mesmo campo.
Voltou à sala.
— Consigo retirar todos daqui.
Olina entregou a Tarson a lista completa da expedição. Athos localizou um planeta sem habitantes, fora da corrente principal e próximo o bastante para viagens curtas. Levou primeiro Rermi e os feridos. Em seguida, transportou pequenos grupos, sempre acompanhado por Olina ou Tarson para confirmar os nomes.
Os portais exigiam mais esforço a cada abertura. Quando restaram dez pessoas, o céu adquiriu uma luminosidade que atravessou as paredes translúcidas da base.
Olina recusou partir antes dos dois técnicos que fechavam os registros. Athos levou os três juntos e retornou uma última vez para conferir os sinais. O planeta estava vazio.
Do abrigo provisório, viram os dois corpos se encontrarem. O impacto iluminou o horizonte e lançou matéria em direções opostas. Uma onda gravitacional atingiu o novo mundo minutos depois, alterando o nível do mar e derrubando as estruturas recém-montadas. A energia continuou pelos corredores próximos, forte o bastante para afetar rotas e órbitas, distante de ameaçar todo o Universo.
Athos caiu de joelhos. Uma imagem curta atravessou sua mente com a nitidez que reconhecia dos avisos imediatos: criaturas com traços de vampiros e dragões eram arrastadas para fendas abertas no solo. Um grupo armado cercava o planeta. Ao fundo, alguém chamava André pelo nome.
A visão terminou antes que pudesse se misturar às sequências longas e fragmentadas que Athos já aprendera a temer.
— Eles recuperaram os portais quando a faixa enfraqueceu — disse. — Um ataque está acontecendo agora.
Olina perguntou quem corria perigo. Krakor explicou que eram Vampiros Dragões e que André podia estar entre eles. Ela ainda tentava compreender a origem da informação quando Athos abriu uma passagem instável.
Krakor segurou os braços de Olina.
— Fique com sua equipe. Voltarei assim que puder.
— Você costuma cumprir isso?
— Estou começando agora.
Olina o beijou e o empurrou na direção do portal.
Athos atravessou com Krakor, Sussurro, Hagar, Bel e Afrodite. Chegaram a um planeta onde o terreno se abria em fendas circulares. Seres alados tentavam escapar enquanto um homem mantinha as mãos contra o solo e ampliava as rupturas.
Sussurro percebeu que ele precisava de concentração. Reproduziu uma técnica que aprendera observando Silency e conduziu vibrações pelo ar até os ouvidos do atacante. O equilíbrio dele cedeu. Sussurro aumentou o calor por poucos segundos, e o homem caiu desacordado.
O esforço quase a derrubou. Hagar a segurou antes que batesse no chão.
Afrodite condensou a umidade ao redor dos demais invasores. A água envolveu braços e pernas, imobilizando-os com as cabeças livres.
— Guardem ao menos um capaz de responder — ordenou.
Athos abriu portais sob as criaturas que ainda afundavam. Vampiros próximos ajudaram a puxá-las, e Krakor usou o tridente para conter as bordas das fendas. Quando o último corpo voltou à superfície, o homem que parecia comandar a defesa se aproximou.
Krakor o reconheceu primeiro.
— André.
O rei examinou o grupo, surpreso com a intimidade de quem nunca vira.
— Nós nos conhecemos?
— Ainda não do jeito certo — respondeu Krakor. — Ouvi histórias suficientes para corrigir isso com uma bebida.
Athos perguntou se ele era o Prometido de quem os doze do Éden falavam. André devolveu a pergunta, desconfiado.
— E você é quem?
— Athos.
O nome produziu reações diferentes entre os vampiros. Alguns se aproximaram com curiosidade; outros recuaram e se reuniram em torno de homens vestidos com sobretudos escuros.
André os convidou para o castelo. Krakor recusou o cenário com indignação divertida e pediu um bar. O rei lembrou que Hertho, Agah e Conelli também o haviam encontrado em um na vida anterior. Isso bastou para Krakor passar o braço por seus ombros e conduzi-lo como um amigo recuperado.
Hagar observou os grupos que os seguiam. Afrodite distinguiu os mais jovens dos ortodoxos pela roupa, pela distância mantida em relação ao rei e pelo modo como avaliavam os visitantes.
— Os dois lados querem descobrir se André dará a vocês algum privilégio — disse ela. — A discordância começa depois disso.
No bar, Krakor pediu a bebida mais forte que existisse, desde que não fosse sangue. Anunciou que sobrevivera a outra catástrofe e exigiu música por conta do rei.
A comemoração começou antes que André pudesse impedi-la. Athos permaneceu perto da porta. Os avisos curtos ainda o conduziam a perigos reais. Cada acerto tornava mais fácil confiar também nas imagens que ele não compreendia.
Essa possibilidade o inquietava mais do que a festa.