O Branco e o Começo
O branco não possuía direção.
Athos perdeu a superfície sob os pés e a referência dos planetas. Ainda segurava o portal quando a arma terminou de atravessá-lo. O golpe atingiu Elaryan pelas costas e percorreu o campo que ela usara para reunir as partículas.
Ela tentou soltar a empunhadura. A própria energia a manteve ligada.
— O que você fez?
— Mudei o destino da passagem.
O corpo de Elaryan se desfez. A partícula essencial foi atraída para a lâmina junto à organização cerebral que ela preservara durante tantos ciclos. Athos sentiu as duas estruturas alcançarem a arma em momentos diferentes.
A partícula continuava existindo.
O encadeamento das memórias sofreu o efeito do golpe. Camadas que Elaryan mantivera unidas se espalharam entre as demais organizações contidas na lâmina. A próxima vida ainda poderia receber imagens, afetos e reconhecimentos. Já não receberia, de uma vez, a sequência que permitira a Elaryan acordar acima de todos os outros.
Athos segurou a arma antes que desaparecesse com ela.
O brilho revelou movimentos internos. Gabriel e os anjos permaneciam presos. As quinze armas conservavam traços de quem as carregara. Milhões de partículas chegavam dos planetas e se acomodavam naquela estrutura sem se tornar uma consciência única.
Entre elas, uma organização distinta continuava ligada ao lugar ocupado pelo Cálice.
Athos reconheceu o medo, a decisão e o impulso final de Carl. Ele não conseguia libertá-lo naquele ponto, porém encontrou a continuidade que Móretar procuraria durante vinte e cinco anos.
Uma forma escura avançou pelo branco.
Trovar surgiu dentro dela.
— Tive medo de errar o momento.
— Era o único instante em que ela deixaria de procurar mudanças.
— Você viu isso nos fragmentos?
— Vi uma tentativa fracassar. Desta vez, mudei o que atravessaria o portal.
Trovar examinou a arma.
— Elaryan está aí?
— A partícula dela está. As lembranças perderam a ligação que as mantinha organizadas apenas para ela.
— Então pode voltar.
— Pode. Terá de se encontrar como todos os outros.
Érebo se abriu ao redor de Trovar. Doze formas apareceram ligadas à criatura sem serem absorvidas por ela.
Athos reconheceu Adwig e Móretar. Depois viu André, Henri, Magno, Emma, Lúcifer, Athena, Afrodite e Hagar. Sussurro estava ao lado de Silency.
O corpo de Athos respondeu antes que conseguisse dizer o nome delas.
Silency apareceu sem a força que ocupara sua mente. O vínculo com o carrapato havia terminado.
— Quanto tempo passou? — perguntou Athos.
— Quase vinte e cinco anos — respondeu Trovar. — Érebo libertou as partículas que mantinha. Elas renasceram nos primeiros meses. Silency voltou para os outros.
Athos olhou para a criatura que agora sustentava aquelas formas.
— E você confiou nele outra vez?
— Confiança não foi necessária. Estabelecemos limites que ele não consegue romper sem perder a própria passagem. Ninguém aqui foi absorvido. Cada ligação pode ser encerrada por quem a aceitou.
Sussurro se aproximou até a projeção quase tocar Athos.
— Você demorou.
Ele tentou abraçá-la. Seus braços atravessaram uma matéria que ainda não formava corpo.
— Para mim, foram minutos.
— Para nós, houve tempo suficiente para sentir sua falta e ficar com raiva.
Silency riu. A voz chegou pelo campo de Érebo.
— Algumas coisas sobreviveram ao fim.
Athos quis perguntar onde tinham vivido, quem haviam amado e o que tinham perdido durante aqueles anos. O branco apertou ao redor deles. A expansão anterior havia terminado. Restava pouco tempo para qualquer resposta.
— Foram todos? — perguntou.
— Os únicos compatíveis — disse Trovar. — Testamos quem desejou tentar. A ligação recusou todos os outros.
— Por que eles?
— Não encontrei mérito nem poder em comum. Algumas partículas sustentaram a conexão. As demais se desfaziam quando Érebo ampliava o alcance.
Athos percebeu as ausências. Dafa, Mantelar, Trix, Médera, Krakor, Teleret e tantos outros seguiriam dentro da arma e do reinício comum. A compatibilidade não tornava aqueles doze mais importantes. Apenas lhes oferecia outra forma de passagem.
Móretar procurava algo na lâmina.
Athos conduziu a energia até a região do Cálice. A forma de Carl respondeu com uma pulsação curta.
— Ele continua aqui — disse Athos.
Móretar aproximou-se.
— Consegue tirá-lo?
— Agora, eu destruiria a ligação. Posso levá-lo conosco e procurar uma forma quando houver matéria outra vez.
— Você tem certeza de que é ele?
— Tenho certeza de que a organização dele permaneceu. Não sei o que conseguirá lembrar quando sair.
Móretar aceitou a resposta sem tratá-la como reencontro. Continuou junto à arma.
Adwig observava as cores concentradas na lâmina.
— Ela reuniu todos aqui para decidir o que aconteceria depois.
— Elaryan queria conservar a própria consciência acima da repetição — respondeu Athos.
— E agora a arma está com você.
Athos sentiu cada caminho oferecido pela arma. Poderia separar as quinze partes quando surgisse matéria suficiente. Poderia devolver as partículas ao fluxo e permitir que cada vida encontrasse sua forma. Também poderia manter os caminhos unidos, reconhecer onde cada pessoa surgiria e intervir antes das perdas.
Viu Carmilla cair outra vez. Tânatos desapareceu. Vésper foi puxado para a dobra. Carl correu até a lâmina. Lembrou-se das vidas que não alcançara e das mortes que aceitara porque faziam parte de uma sequência conhecida.
— Ela preservou o mesmo curso para chegar ao fim com o poder que desejava — disse Athos. — Eu posso impedir que isso se repita. No próximo começo, não dependeremos da fé em uma mudança. Vamos cuidar dos acontecimentos desde o início.
Trovar se colocou diante dele.
— Pode alterar acontecimentos. Isso não significa que conhecerá todas as consequências.
— Conheço as que já aconteceram.
— Elaryan também começou tentando preservar conhecimento.
Athos olhou para a partícula dela. Sem a cadeia completa de lembranças, Elaryan chegaria ao próximo ciclo sujeita às mesmas incertezas que impusera aos demais. Ele desejou protegê-la dessa perda. Logo depois, percebeu que a vontade já procurava decidir por ela.
— Eu não vou reconstruir as profecias — disse.
— Essa é uma decisão — respondeu Adwig. — As outras ainda existem.
André se aproximou.
— Passei vidas obedecendo a histórias preparadas antes de mim. Se guardar o que aconteceu, guarde também que nós discordamos de você.
Athos percorreu as formas sustentadas por Érebo. Nenhuma delas poderia retirar a arma de suas mãos naquele estado. Mesmo assim, haviam chegado até ali por causa de um plano que ele não conseguiria executar sozinho.
Abriu a ligação da espada.
Trovar conduziu Érebo até ela. As doze organizações se conectaram à estrutura sem perder a separação. Roc estendeu as asas através de Athos e encontrou espaço junto às demais simbioses. O campo deixou de depender apenas da força dele.
O branco começou a se contrair.
Athos sentiu o ponto onde toda a massa havia se reunido. Ali terminava a expansão do Universo, no instante em que as distâncias deixavam de existir antes de se abrirem outra vez.
Elaryan tentara passar acima daquele processo. Athos escolheu atravessá-lo com os outros ligados à arma e a Érebo.
— Quando começar, mantenham as organizações separadas — orientou Trovar. — Reconhecimento pode virar mistura se alguém tentar alcançar todos ao mesmo tempo.
Athos reduziu a força que exercia sobre a espada. Adwig e André receberam parte do campo. Móretar sustentou a região do Cálice. Silency e Sussurro ligaram as extremidades. Os demais ocuparam os intervalos que conseguiam alcançar.
Pela primeira vez, aquela passagem não pertencia a uma pessoa.
A expansão começou.
O branco adquiriu distância. Pontos de energia se afastaram e puxaram matéria. Athos reconheceu relações que já vira em suas imagens. Algumas conduziam às mesmas estrelas, aos mesmos mundos e às vidas que voltariam a se encontrar.
Também percebeu desvios.
Eram pequenos demais para definir qualquer futuro. Bastavam para que novas escolhas se tornassem possíveis.
Athos poderia deixá-los crescer. Poderia ainda corrigi-los antes que afastassem as pessoas que desejava salvar.
Segurou a arma com as partículas de todos os mundos e começou a lembrar onde cada perda aconteceria.