A Casa
O interior reunia objetos de várias vidas de Athos. Alguns estavam onde deveriam; outros ocupavam paredes, mesas e prateleiras que nunca haviam dividido o mesmo espaço. A desordem parecia esconder uma lógica.
Athos reconheceu três peças ligadas à praia de Notrus, no planeta Krimost. Aproximou-as. Uma porta surgiu no lugar de uma parede.
Do outro lado estava a casa onde vivera durante a existência de segundo nível. Ele atravessou e encontrou a praia no dia seguinte à própria morte. Tirou os calçados, deixou a espada e correu até a água.
O vento, a areia e o sabor levemente adocicado do mar possuíam precisão demais para uma imagem. A casa reproduzia temperatura, matéria e distância a partir do que ele recordava, inclusive detalhes aos quais não prestava atenção havia eras.
As regiões mais distantes eram menos definidas. Uma formação rochosa mudava quando Athos desviava os olhos, e o horizonte perdia detalhes onde sua lembrança já não alcançava. A exatidão também tinha bordas.
Athos encontrou um relógio sobre a prateleira e levou-o até a sala de Fóster. O objeto continuou funcionando.
Voltou para buscar outro. O relógio reaparecera no mesmo lugar e marcava a hora registrada na lembrança. Athos trouxe a segunda versão. Os dois eram iguais até uma falha quase invisível no mostrador.
Aquilo descartava uma passagem comum para Krimost. A casa reconstruía o espaço e usava a energia de Fóster para dar matéria ao que Athos retirava dele. Não havia sinal de vida consciente, partícula essencial ou qualquer ser capaz de reagir fora da sequência recordada.
Athos tentou alterar uma parede que conhecia mal. A superfície se completou com um desenho encontrado em outra casa da mesma época. A reconstrução preenchia lacunas por associação. Aquilo tornava cada ambiente convincente e também impedia que fosse tratado como registro perfeito.
Ele reorganizou os objetos da sala para formar uma lembrança de Dracs. Embora o planeta já não existisse, a porta se abriu.
A casa onde vivera com Silency e Sussurro aguardava do outro lado. Uma janela estava aberta; duas canecas permaneciam sobre a mesa. Athos ouviu passos no corredor e a voz de Silency em outro cômodo. Quando foi atrás, a sequência recomeçou antes que alguém aparecesse.
A ausência doía mais do que uma figura criada pela casa teria doído. Fóster conseguia reconstruir o lugar. Não devolvia as pessoas que o tornaram importante.
Athos fechou a porta e mudou as peças novamente.
Tânatos surgiu sob as cores do instante em que ele abrira o primeiro portal. O céu, o chão e a tensão em seu corpo correspondiam ao que lembrava. No horizonte, um raio repetia o mesmo percurso em intervalos exatos.
Athos voou até a origem da descarga. Havia um vulto atrás da luz, observando o ponto onde o portal nasceria. Ele não recordava aquela figura. Tentou se aproximar, e a cena voltou ao início.
A familiaridade sentida diante de Elaryan retornou. A reconstrução parecia alcançar uma informação que seus sentidos registraram sem que a mente a organizasse na época.
O vulto não falava nem se movia além do intervalo repetido. Athos tentou mudar o ângulo do raio e encontrou apenas uma área sem forma. A casa lhe mostrava o que carregava, inclusive partes ainda inacessíveis para ele.
Athos procurou sinais da mulher mascarada e da criatura reptiliana. Não encontrou. A casa não respondia a perguntas; dependia das associações guardadas nele.
De volta à sala, examinou os relógios. Ambos possuíam matéria comum. Nenhum reproduzia funções que ele desconhecesse. A casa poderia copiar a forma de uma arma vista por ele, porém não havia indício de que recriaria o poder, a história ou a ligação de uma arma mística.
O teste seguinte abriu Olimpo.
Athos percorreu ruas iluminadas por tecnologias perdidas e entrou na casa onde vivera. Ao lado da cama de Athena, encontrou o colar que dera a ela. O original fora destruído numa batalha.
Pegou a peça. A corrente possuía o mesmo fecho difícil, a mesma pequena deformação e a massa que sua mão recordava. Era uma reconstrução feita de matéria de Fóster. Ainda assim, poderia devolver a Athena algo ligado a uma vida que ambos perderam.
Antes de sair, Athos procurou uma lembrança que jamais existira: Athena entrando naquele quarto depois da batalha, com o colar intacto. A porta não respondeu. Os objetos podiam combinar caminhos registrados; não aceitavam um passado inventado só porque ele o desejava.
Athos guardou o colar e encerrou a combinação. A porta comum reapareceu.
Do lado de fora, Drácula examinava o castelo que a própria casa reproduzira de Dracs. Sussurro chegou logo depois. Parecia encantada e abalada pela experiência.
— Como nunca vivemos algo assim antes? — perguntou ela.
— Talvez as casas não estivessem prontas — respondeu Drácula. — Ou nós não estivéssemos.
Athos tocou o colar dentro do bolso.
— Precisamos falar com Hermes sobre os limites disso amanhã.
Sussurro apontou para o palácio de Adwig. A iluminação do baile já alcançava os jardins.
Os três seguiram juntos. Athos levava uma cópia perfeita de um objeto perdido e a lembrança de uma figura que talvez sempre tivesse observado sua primeira travessia.