Lugar Tranquilo Athos - Contra o Tempo · Capítulo 46 de 53
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Lugar Tranquilo

A casa de Trovar possuía um jardim amplo à beira de um lago. O céu reproduzia Tomunos, planeta onde ele vivera por cerca de duzentos anos. As estrelas estavam organizadas como eram nas noites de que mais gostava.

Athos tentou calcular quanto daquele tempo correspondia às medidas dos outros mundos. Trovar desistira de fazer a conta havia muito. Depois de atravessar regiões com ritmos temporais diferentes, a quantidade de anos deixara de representar a experiência vivida.

Athena observou as constelações.

— Mesmo depois da primeira morte e do acesso maior ao cérebro, continuamos esquecendo. Talvez memória nunca tenha sido apenas capacidade de armazenamento.

— Ou talvez lembrar de tudo seja insuportável — disse Trovar.

Athos pensou nas imagens sem ordem que chamava de visões. Elaryan reconhecia recorrências onde ele encontrava apenas fragmentos. Se memória também dependia de proteção, intenção e acesso, talvez parte do que lhe faltava estivesse nele desde antes daquela vida.

Sussurro tirou os calçados e caminhou pela grama.

— Viemos até o lugar tranquilo para discutir a natureza da memória?

— Era uma possibilidade — respondeu Athos.

— Uma possibilidade péssima.

Trovar deitou-se perto do lago. Sussurro ocupou o espaço ao lado dele. Athena se acomodou do outro lado, e Athos fechou a linha. Ficaram encostados, olhando o céu de uma lembrança que a casa aprendera a sustentar.

Athos ligou a energia entre os quatro. A técnica distribuía calor e contato, fazendo um toque alcançar mais de um corpo. Usara algo semelhante com Silency e Sussurro em outra vida.

Sussurro percebeu a associação.

— Lembra Silency.

— Eu sei.

— Gosto disso. Também dói.

Athena segurou a mão dela. Trovar começou a apontar figuras no céu: um animal comprido, um portal, uma pessoa carregando algo que ninguém além dele conseguia enxergar. As interpretações pioraram até que todos rissem.

Sussurro continuou com a mão de Athena. O carinho começou distraído e ganhou outra intenção quando Athena se aproximou. O primeiro beijo aconteceu sem anúncio.

A conexão de Athos levou a sensação aos quatro.

Trovar levantou a cabeça, surpreso.

— Isso chegou até mim.

— Diminuo? — perguntou Athos.

Trovar olhou para Sussurro e Athena.

— Ainda não.

O segundo beijo foi menos cauteloso. Sussurro puxou Trovar para perto. Athena encontrou Athos. A energia misturou sensações que normalmente pertenceriam a pares separados, e a estranheza tornou-se parte do desejo.

Em determinado momento, Trovar segurou o braço de Athos.

— Agora separa um pouco.

Athos ajustou os fluxos. O contato continuou compartilhado entre Sussurro e Athena, enquanto ele e Trovar passaram a receber apenas o que cada um dirigia conscientemente à ligação.

Não houve nova conversa sobre o assunto. A curiosidade já se transformara em impulso, e os quatro aprenderam o restante enquanto acontecia. Trocaram beijos, lugares e iniciativas sobre a grama. Quando o frio do lago alcançou a pele, a casa abriu perto deles uma passagem para o quarto.

Chegaram à cama ainda rindo da solenidade com que haviam iniciado a noite. O desejo continuou sem pressa suficiente para virar cerimônia e sem planejamento capaz de impedir decisões ruins ou boas. Ninguém tentou descobrir de imediato em qual categoria aquela experiência entraria.

Depois, Athena permaneceu deitada ao lado de Athos, usando o colar reconstruído. Passou um dedo pelo fecho.

— Eu achei que esta noite fosse terminar numa conversa longa sobre nossas vidas.

— Ainda pode terminar.

— Então é melhor dormir antes.

Sussurro e Trovar continuaram no jardim por mais algum tempo. Quando voltaram, deitaram-se junto dos outros. Sussurro encontrou o braço de Athos no escuro e o trouxe para perto. Trovar dormiu com uma das mãos sobre ela.

Athos desejou que Silency estivesse ali. O desejo não diminuiu o que vivera com os três nem transformou aquela noite numa substituição. Era apenas mais uma ausência que ele carregaria até encontrá-la.

O sono veio sem imagem, profecia ou guerra.

Durou pouco.

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