Plano Espiritual Athos - Contra o Tempo · Capítulo 38 de 53
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Plano Espiritual

Felicity parou diante do portal.

— Você consegue nos levar para fora de Extern?

A pergunta trazia esperança e receio. Athos respondeu que conseguia percorrer grandes distâncias, embora preferisse compreender as condições antes de abrir uma rota para pessoas que mal conhecia.

— Depois de encontrar Adwig e Dafa, conversaremos de novo. Se ainda quiserem partir, mostrarei destinos possíveis.

Felicity aceitou. O grupo atravessou.

Do outro lado, uma cidade vivia o primeiro conflito político de sua história. Trabalhadores discutiam com comerciantes; defensores da família real tentavam proteger os edifícios públicos; grupos inspirados por Adwig e Dafa exigiam o fim de qualquer autoridade. Discussões se transformavam em empurrões e golpes quando ninguém encontrava um procedimento para encerrá-las.

Os elfos possuíam técnicas rápidas de recuperação. Também manipulavam materiais por acordos coletivos: quando várias pessoas sustentavam a mesma forma mental, ruas, paredes e objetos respondiam. A discordância recente enfraquecia essas construções e produzia alterações inesperadas pela cidade.

Athos desviou de uma coluna que se desfez entre dois grupos incapazes de concordar sobre sua posição. Um homem vestido como conselheiro tentava organizar turnos de fala.

— Uma pessoa por vez! Discordar não exige destruir a praça!

Athos apresentou-se e perguntou o que acontecera. O homem se chamava Lottor e identificou a cidade como Percento. Explicou que Adwig, reconhecida como portadora do caos anunciado, e Dafa haviam rompido a rotina política daquele povo. Depois, seguiram para o plano espiritual com um elfo iluminado.

— O caos é delas? — perguntou Athos.

— Elas abriram a possibilidade. O restante é nosso.

Lottor apontou para três guardas reais que permaneciam junto às portas do edifício central. Exigiu ajuda. Um deles respondeu que o juramento dos guardas autorizava intervenção contra invasores e ameaças aos reis. Atacar cidadãos por divergência política violaria a função que haviam aceitado.

— Então ajudem a separar quem estiver em risco — disse Lottor.

Os três concordaram. Criaram faixas luminosas no chão e abriram corredores para feridos e pessoas que desejavam sair da praça. A autoridade deles funcionava porque as linhas reconheciam a escolha de quem as atravessava; ninguém conseguia ser arrastado para dentro.

Felicity perguntou se poderia chamar a atenção do povo. Lottor pediu que evitasse ferimentos.

Ela subiu e estendeu os braços. Labaredas cobriram o céu sem irradiar calor para baixo. As cores mudaram, formando círculos roxos, verdes e azuis sobre a praça. Pequenas explosões luminosas marcaram intervalos regulares.

Os grupos interromperam a luta para observar.

— Se vocês conseguem construir uma cidade pensando juntos, também conseguem discutir sem se matar — gritou Felicity. — Escolham quem fala por cada grupo e terminem isso com palavras.

Lottor aproveitou o silêncio. Organizou representantes e pediu que os demais ocupassem os círculos desenhados pelos guardas. A praça começou a adquirir outra forma conforme os grupos chegavam a acordos mínimos.

Athos percebeu que o poder daquele povo dependia menos de força individual do que da capacidade de imaginar estruturas em conjunto. A política alterava a matéria ao redor deles.

Perguntou por Adwig e Dafa. Lottor confirmou que ambas haviam atravessado para a camada mantida por Freyr. Antes que explicasse o acesso, um pequeno ser surgiu acima do ombro de Athos.

— Você chegou atrasado, está disfarçado de forma incompetente e trouxe cinco incendiários para uma cidade que já queimava por dentro.

O recém-chegado apresentou-se como Dircle, gnomo e talvez último representante de sua espécie. Chamava Elaryan de Gaia e falava em nome dela com uma confiança que alternava devoção e irritação.

Dircle anunciou que Athos era um elfo supremo de Moonday. Revelou também que Adwig descendia dos elfos primordiais por uma gestação criada fora dos processos naturais e que representantes de linhagens surgidas em corredores diferentes agora interferiam naquele território.

Brandok tentou perguntar como ele sabia tanto. Dircle respondeu que Gaia compartilhava informações em troca de favores e que cuidar de um elfo supremo perdido já lhe parecia favor suficiente para várias eras.

Giona pediu que ele respirasse entre as frases.

— Eu respiro quando existe algo no ar que mereça ser aproveitado — respondeu Dircle.

Athos perguntou sobre o plano espiritual. Lottor explicou que elfos iluminados atravessavam depois de um longo preparo. Separavam a partícula essencial do corpo sem concluir uma morte e mantinham um vínculo capaz de conduzi-los de volta.

Dircle acrescentou que gnomos também conseguiam entrar. O processo exigia reconhecer o caminho entre matéria, mente e próxima vida. Um erro podia deixar alguém sem corpo e sem destino de renascimento.

— Você consegue me levar? — perguntou Athos.

— Consigo. Você provavelmente ficará preso entre as camadas.

Athos observou os conflitos se transformarem em assembleia. Adwig e Dafa haviam chegado até Freyr por algum motivo, e Elaryan conduzira todos àquele encontro.

— Se eu ficar preso, você se livra de mim. Gaia não poderá culpá-lo por atender a um pedido que fiz sabendo do risco.

Dircle analisou a proposta. Pequenas linhas de luz surgiram ao redor dele, conectando o gnomo ao chão, às árvores e aos corpos próximos. Athos tentou tocar uma delas. A linha se desviou antes do contato.

A afirmação de que o Universo o protegia talvez escondesse uma capacidade real de alterar causas imediatas.

— Sua lógica é desagradavelmente boa — concluiu Dircle. — Se você desaparecer, repetirei cada palavra diante de Gaia.

Ele segurou a mão de Athos. A praça perdeu cor, som e distância. O vínculo entre o corpo de Athos e sua partícula essencial se estendeu até quase romper.

Quando a luz voltou, a cidade física permanecia visível abaixo deles. Outra realidade ocupava o mesmo espaço.

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