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Capítulo 2 · Fome

Fome - Parte 02

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Dois anos depois, seguiu-se-lhe “Mistérios”, que finge ser um romance, mas que talvez possa ser descrito melhor como uma divagação deliciosamente irresponsável e desafiadoramente subjetiva por qualquer estrada ou vereda da vida ou das letras que por acaso despertasse a fantasia do autor no momento da escrita. Alguém disse desse livro que, em suas bruscas oscilações do riso às lágrimas, da irreverência ao assombro, do ridículo ao sublime, encontram-se misturados os espíritos de Dostoyevski e Mark Twain.

Os romances “Editor Lynge” e “Nova Terra”, ambos publicados em 1893, foram estudos sociais da boemia de Christiania e caracterizaram-se sobretudo por seus violentos ataques aos homens e mulheres que exerciam a profissão que Hamsun acabara de tornar sua. Veio então “Pan”, em 1894, e o verdadeiro Hamsun, o Hamsun que desde então avançou logicamente e com crescente autoridade até “O Crescimento do Solo”, ficou enfim revelado. É um romance do Norte, quase sem enredo, e cujo interesse principal reside nas reações de um homem primitivamente espontâneo diante de uma natureza tão esmagadora que faz a mera existência sem propósito parecer um fim suficiente em si mesma. Pode-se bem perguntar se Hamsun jamais ultrapassou o estado de espírito puramente lírico desse livro, no qual derramou os sonhos extáticos do menino vindo do sul quando, pela primeira vez, viu as montanhas setentrionais cobertas de florestas banharem os pés no oceano e as coroas na luz de um sol que nunca se põe. É um maravilhoso peã à natureza indomada e às forças que ela liberta dentro da alma humana.

Como a maioria dos grandes escritores de lá, Hamsun não se limitou a um único estado ou forma poética, mas experimentou todos eles. Da linha de romances que culmina em “Pan”, voltou-se de repente para o drama, e em 1895 apareceu sua primeira peça, “Às Portas do Reino”. Era o drama inicial de uma trilogia e foi seguida por “O Jogo da Vida”, em 1896, e “Clarão do Poente”, em 1898. A primeira peça se passa em Christiania, a segunda no Norte, e a terceira novamente em Christiania. O herói das três é Ivar Kareno, estudante e pensador que nos é apresentado primeiro aos 29 anos, depois aos 39 e, por fim, aos 50. Sua esposa e vários outros personagens acompanham a figura central ao longo da trilogia, cuja lição parece ser a de que todos são rebeldes aos 30 e renegados aos 50. Mas quando Kareno, o rebelde irreconciliável de “Às Portas do Reino”, o buscador da verdade que assalta o céu em “O Jogo da Vida” e o líder radical aclamado nos primeiros atos de “Clarão do Poente”, rende-se enfim aos poderes constituídos a fim de obter um porto seguro e abrigado para os anos de declínio, então outro homem de 29 anos está pronto para denunciá-lo e para erguer o grito rebelde da juventude ao qual ele se tornou traidor. O humor irônico de Hamsun e sua maneira caprichosa de expressão fazem mais do que o próprio enredo para unir as peças numa unidade orgânica, e vários dos personagens são desenhados de modo encantador, em particular as duas mulheres que desempenham o maior papel na vida de Kareno: sua esposa Eline, e Teresita, que é mais uma de suas muitas encarnações femininas da natureza apaixonada e mutável do Norte. Qualquer tentativa de atribuir uma tendência política à trilogia deve ser considerada inútil. Caracteristicamente, Kareno é uma espécie de rebelde nietzschiano contra a maioria vitoriosa, e as conclusões aparentemente cínicas de Hamsun ressaltam a capacidade de ação do homem, mais do que os propósitos aos quais essa capacidade possa ser dirigida.

Das três peças subsequentes, “Vendt, o Monge” (1903), “Rainha Tamara” (1903) e “À Mercê da Vida” (1910), a primeira mencionada é de longe a mais notável. É um drama em verso, em oito atos, centrado em torno de um dos mais típicos heróis vagabundos de Hamsun. O monge Vendt tem muito em comum com Peer Gynt sem ser, de modo algum, uma imitação ou duplicata. É um sonhador em revolta contra a suposta injustiça do mundo, um rebelde contra os próprios poderes que movem invisivelmente o universo, e um apaixonado amante da vida que, no fim, a aceita como uma alegre batalha e então sonha com a longa paz por vir. O vigor e o encanto do verso foram uma surpresa para os críticos quando a peça foi publicada, pois Hamsun, até então, não dera prova alguma de dom poético em sentido mais estrito.

De 1897 a 1912, Hamsun produziu uma série de volumes que simplesmente assinalaram um desenvolvimento adicional das tendências mostradas em seus primeiros romances: “Sesta”, contos, 1897; “Victoria”, romance com uma encantadora história de amor que encarna a nota mais terna de sua produção, 1898; “No País das Maravilhas”, esboços de viagem pelo Cáucaso, 1903; “Gravetos”, contos, 1903; “O Coro Selvagem”, coletânea de poemas, 1904; “Sonhadores”, romance, 1904; “Vida em Luta”, contos e esboços de viagem, 1905; “Sob a Estrela do Outono”, romance, 1906; “Benoni” e “Rosa”, dois romances que formam, em certa medida, continuações de “Pan”, 1908; “Um Vagabundo Toca com Surdina”, romance, 1909; e “A Última Alegria”, obra informe, meio romance e meio meras reflexões descoordenadas, 1912.

A parte final dessa produção parecia indicar uma falta de desenvolvimento, uma incapacidade de abrir novas perspectivas, que levou muitos a temer que as principais contribuições de Hamsun já estivessem para trás. Então apareceu, em 1913, um grande romance, “Filhos do Tempo”, que em muitos aspectos fez soar uma nota nova, embora preparado por “Rosa” e “Benoni”. O horizonte é agora mais amplo, o quadro mais vasto. Ainda há uma figura central, e ela ainda possui muitos dos antigos traços hamsunianos, mas atravessou afinal o meridiano e tornou-se antes observador do que lutador e agente. Nem é ele a figura central na mesma medida que o tenente Glahn em “Pan” ou Kareno na trilogia. A vida retratada é a vida de um certo pedaço de chão — a propriedade de Segelfoss e, mais tarde, a cidade de Segelfoss —, antes que a de um ou dois indivíduos isolados. Quase se poderia dizer que a visão de Hamsun tornou-se por fim social, não fosse sua contínua acentuação do conflito irreconciliável entre o indivíduo e o grupo.

“Cidade de Segelfoss”, em 1915, e “O Crescimento do Solo” — o título deveria ser “O Aumento da Terra” —, em 1918, continuam pelo caminho em que Hamsun entrou com “Filhos do Tempo”. A cena se passa em seu amado Norte, mas a antiga vida primitiva está indo embora — indo embora mesmo nos distritos afastados, onde os pioneiros já rompem o solo para novos assentamentos permanentes. O comércio de tipo moderno chegou, e muito do humor tranquilo exibido nestas últimas e mais maduras obras de Hamsun nasce do espetáculo de sua influência sobre os nativos, cujas mãos costumavam estar sempre nos bolsos, e cuja credulidade diante do improvável só era superada por sua relutância em acreditar em qualquer coisa razoável. Ainda assim, a vida que ele retrata é em grande parte primitiva, com a natureza como principal antagonista do homem, e a nós, das cidades superpovoadas, ela traz um encanto de novidade raramente encontrado nos livros de hoje. A isso se alia uma compreensão da natureza humana que não é menos profunda por tender a encontrar expressão em formas caprichosas ou flagrantemente paradoxais.

Fome

Sinopse

Tradução integral em português-BR de Fome, romance de Knut Hamsun, preparada pelo Literunico a partir da tradução inglesa em domínio público de George Egerton disponível no Project Gutenberg para a Copa do Mundo Literunico.

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