Universo da obra
Universo da obra
Tempo lindo de Deus. A patroa também não estava em casa?
Sim; mas tinha gota, e jazia num sofá sem poder mover-se... Talvez eu quisesse deixar um recado, ou alguma coisa?
Não, de modo algum; eu apenas fazia caminhadas assim de vez em quando, só por exercício; era tão saudável depois do jantar... Pus-me no caminho de volta — a que levaria continuar tagarelando? Além disso, eu começava a sentir tontura. Não havia engano; eu estava prestes a sucumbir de verdade. Horário de atendimento, das 12 às 4. Eu batera à porta uma hora tarde demais. O tempo da graça passara. Sentei-me num dos bancos perto da igreja, no mercado. Senhor! como as coisas começavam agora a se tornar negras para mim! Eu não chorava; estava completamente cansado demais, gasto até o último grau. Fiquei ali sentado sem tentar chegar a conclusão alguma, triste, imóvel e esfomeado. Meu peito estava muito inflamado; ardia de modo estranhíssimo e doloroso — e mastigar aparas já não me ajudaria por muito tempo. Minhas mandíbulas estavam cansadas daquele trabalho estéril, e deixei-as repousar. Simplesmente desisti. Uma casca marrom de laranja, também, que eu encontrara na rua e começara imediatamente a mastigar, dera-me náuseas. Eu estava doente — as veias inchavam azuladas em meus pulsos. Que era, afinal, que eu realmente buscara? Correr o dia inteiro por um xelim que apenas manteria a vida em mim por mais algumas horas. Considerando tudo, não era indiferente que o inevitável se desse um dia antes ou um dia depois? Se eu tivesse me conduzido como uma criatura comum, já teria ido para casa havia muito tempo, me deitado para descansar e cedido. Minha mente esteve clara por um momento. Agora eu ia morrer. Era tempo de outono, e todas as coisas estavam silenciadas para o sono. Eu tentara todos os meios, esgotara todos os recursos que conhecia. Acariciei esse pensamento sentimentalmente, e cada vez que ainda esperava por um possível socorro, murmurava, repudiando-o: “Seu tolo, você já começou a morrer.”
Eu devia escrever umas duas cartas, deixar tudo pronto — preparar-me. Eu me lavaria cuidadosamente e arrumaria bem minha cama. Deitaria a cabeça sobre as folhas de papel branco, as coisas mais limpas que me restavam, e sobre o cobertor verde. Eu... O cobertor verde! Como um tiro, fiquei plenamente desperto. O sangue subiu-me à cabeça, e tive violentas palpitações no coração. Levanto-me do banco e começo a andar. A vida torna a agitar-se em todas as minhas fibras, e repito, vez após vez, desconexamente: “O cobertor verde — o cobertor verde.” Vou cada vez mais depressa, como se se tratasse de ir buscar alguma coisa, e pouco depois estou em minha oficina de funileiro. Sem parar um instante nem vacilar em minha resolução, vou até a cama e enrolo o cobertor de Hans Pauli. Seria estranho se essa minha ideia luminosa não pudesse salvar-me. Ergui-me infinitamente acima dos escrúpulos estúpidos que brotavam em mim — meios gritos interiores acerca de certa mancha em minha honra. Disse adeus a todos eles. Eu não era herói — nem idiota virtuoso. Ainda me restavam os sentidos.
Então tomei o cobertor debaixo do braço e fui ao nº 5 da Rua Stener. Bati e entrei pela primeira vez na grande sala estranha. A campainha da porta, acima de minha cabeça, deu uma porção de solavancos violentos. Um homem entra de um cômodo lateral, mastigando, a boca cheia de comida, e se põe atrás do balcão.
“Eh, empresta-me seis pence pelos meus óculos?”, disse eu. “Eu os resgato dentro de uns dois dias, sem falta — eh?”
“Não! são de aço, não são?”
“Sim.”
“Não; não posso.”
“Ah, não, suponho que não possa. Bem, na verdade era, no melhor dos casos, apenas uma brincadeira. Bem, trouxe comigo um cobertor para o qual, propriamente falando, já não tenho uso, e ocorreu-me que talvez o senhor pudesse tirá-lo das minhas mãos.”
“Tenho — mais é a pena — uma loja inteira cheia de roupa de cama”, respondeu ele; e, quando eu o abri, ele apenas lançou uma olhada sobre ele e disse: “Não, desculpe-me, mas também não tenho utilidade para isso.”
“Quis mostrar-lhe primeiro o lado pior”, disse eu; “do outro lado ele é muito melhor.”
“Sim, sim; não adianta. Não o quero; e o senhor não conseguiria nem um penny por ele em parte alguma.”
“Não, é claro que não vale coisa alguma”, disse eu; “mas pensei que talvez pudesse ir junto com outro cobertor velho num leilão.”
“Bem, não; não serve.”
“Três pence?”, disse eu.
“Não; não o quero de modo algum, homem! Não o teria dentro de casa!”
Tomei-o debaixo do braço e fui para casa.
Agi como se nada houvesse acontecido, estendi-o outra vez sobre a cama, alisei-o bem, como era meu costume, e tentei apagar todo vestígio de meu ato recente. Não podia de modo algum estar em meu perfeito juízo no momento em que cheguei à conclusão de cometer essa trapaça vil. Quanto mais pensava nisso, mais desarrazoado me parecia. Devia ter sido um acesso de fraqueza; algum relaxamento em meu íntimo que me surpreendera desprevenido. Tampouco eu caíra diretamente na armadilha. Sentira pela metade que seguia pelo mau caminho, e oferecera expressamente primeiro meus óculos, e alegrava-me muito por não ter tido a oportunidade de levar a efeito essa falta que teria maculado as últimas horas que me restavam viver.
Vagueei de novo pela cidade. Deixei-me afundar num dos bancos junto à Igreja de Nosso Salvador; cochilei com a cabeça sobre o peito, apático depois de minha última excitação, doente e esfaimado de fome. E o tempo passou.
Eu teria de atravessar também aquela hora sentado. Lá fora havia um pouco mais de luz do que dentro de casa, e parecia-me que meu peito não doía tão terrivelmente ao ar livre. Voltaria para casa também, bastante cedo — e cochilei, pensei e sofri pavorosamente.
Tradução integral em português-BR de Fome, romance de Knut Hamsun, preparada pelo Literunico a partir da tradução inglesa em domínio público de George Egerton disponível no Project Gutenberg para a Copa do Mundo Literunico.
Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.
Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.
Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!
Capítulos disponíveis para continuar a leitura.
Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!
Conhecer as 100 RelíquiasAinda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.
Durante a leitura, abra Menu para ajustar a experiência sem sair do capítulo. As preferências de aparência ficam salvas neste aparelho.
Recursos identificados como “em preparo” aparecem para antecipar a evolução do leitor, mas ainda não executam uma ação.
Posso mostrar leituras em destaque, clássicos e Relíquias disponíveis agora no Literúnico.
Escolha um caminho
Dúvidas desta página
As explicações do Aurélio são respostas cadastradas pelo Literúnico.