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Capítulo 10 · Fome

Fome - Parte 10

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Um merceeiro em Groenlandsleret precisava de um homem, todas as semanas, por algumas horas de escrituração; remuneração a combinar. Anotei o endereço do meu homem e pedi a Deus, em silêncio, por aquele lugar. Eu exigiria menos que qualquer outro pelo meu trabalho; seis pence eram bastante, ou talvez cinco. Isso não importaria em absoluto.

Ao chegar em casa, havia sobre minha mesa um bilhete de minha senhoria, no qual ela me rogava que pagasse o aluguel adiantado, ou então me mudasse assim que pudesse. Eu não devia me ofender, era um pedido absolutamente necessário. Cordialmente, sra. Gundersen.

Escrevi uma solicitação a Christy, o merceeiro, nº 13 de Groenlandsleret, meti-a num envelope e levei-a à caixa postal da esquina. Depois voltei ao meu quarto e sentei-me na cadeira de balanço para pensar, enquanto a escuridão se adensava cada vez mais. Ficar acordado até tarde começava agora a tornar-se difícil.

Acordei muito cedo de manhã. Ainda estava bem escuro quando abri os olhos, e só muito depois ouvi o relógio, lá embaixo, bater cinco vezes. Virei-me para cochilar de novo, mas o sono se fora. Fui ficando cada vez mais desperto, e fiquei deitado pensando em mil coisas.

De repente me ocorreram algumas boas frases, próprias para um esboço ou conto, achados delicados de linguagem como eu jamais encontrara iguais. Fico deitado repetindo essas palavras para mim mesmo, e vejo que são excelentes. Pouco a pouco outras vêm e se ajustam às precedentes. Fico vivamente desperto. Levanto-me e apanho papel e lápis na mesa atrás da cama. Era como se uma veia tivesse rebentado dentro de mim; uma palavra segue a outra, e elas se ajustam harmoniosamente, com efeito expressivo. Cena sobre cena se acumula, atos e falas borbulham em meu cérebro, e uma maravilhosa sensação de prazer toma posse de mim. Escrevo como um possesso, e encho página após página, sem um instante de pausa.

Os pensamentos me vêm com tal rapidez e continuam a fluir com tamanha riqueza que perco uma porção de trechos expressivos, que não consigo pôr no papel com rapidez suficiente, embora trabalhe com todas as minhas forças. Eles continuam a me invadir; estou cheio do meu assunto, e cada palavra que escrevo é inspirada.

Esse estranho período dura — dura um tempo abençoadamente longo antes de chegar ao fim. Tenho quinze — vinte páginas escritas pousadas sobre os joelhos diante de mim, quando por fim cesso e ponho o lápis de lado. Tão certo quanto há algum valor nestas páginas, tão certo estou salvo. Salto da cama e me visto. Vai clareando. Consigo distinguir pela metade o anúncio do diretor do farol, lá perto da porta, e junto à janela já há luz bastante para que eu pudesse, em caso de necessidade, enxergar para escrever. Ponho-me imediatamente a passar a limpo o que escrevi.

Uma exalação intensa, peculiar, de luz e cor emana dessas minhas fantasias. Sobressalto-me de surpresa ao notar uma coisa boa depois da outra, e digo a mim mesmo que isto é o melhor que já li. Minha cabeça gira com um sentimento de satisfação; o deleite me infla; torno-me grandioso.

Peso meu escrito na mão e avalio-o, num cálculo por alto, em cinco xelins, ali mesmo.

Jamais passaria pela cabeça de alguém regatear por cinco xelins; ao contrário, consegui-lo por meio soberano poderia ser considerado baratíssimo, levando-se em conta a qualidade da coisa.

Eu não tinha a menor intenção de entregar de graça um trabalho tão especial. Tanto quanto eu sabia, não se encontravam contos daquela espécie à beira do caminho, e decidi-me por meio soberano.

O quarto clareava e clareava. Lancei um olhar para a porta e pude distinguir, sem dificuldade especial, as letras esqueléticas do anúncio de mortalhas da srta. Andersen, à direita dela. Também já fazia bom tempo que o relógio batera sete.

Levantei-me e fiquei parado no meio do assoalho. Tudo bem considerado, o aviso da sra. Gundersen vinha até bastante a propósito. Aquele não era, propriamente falando, um quarto adequado para mim: havia apenas cortinas verdes bastante ordinárias nas janelas, e tampouco sobravam cabides na parede. A pobre cadeirinha de balanço, ali no canto, era na verdade uma mera tentativa de cadeira de balanço; com o menor senso de humor, uma pessoa poderia facilmente rebentar de rir diante dela. Era baixa demais para um homem feito e, além disso, precisava-se, por assim dizer, do auxílio de um tira-botas para sair dela. Em suma, o quarto não era adaptado à prática das coisas intelectuais, e eu não pretendia conservá-lo por mais tempo. De modo algum o conservaria. Eu me calara, suportara e vivera tempo demais numa toca daquelas.

Sustentado pela esperança e pela satisfação, constantemente ocupado com meu extraordinário esboço, que a todo instante tirava do bolso e relia, determinei-me a começar seriamente minha mudança. Tirei meu embrulho, um lenço vermelho que continha alguns colarinhos limpos e uns jornais amassados, nos quais eu ocasionalmente trouxera pão para casa. Enrolei meu cobertor e meti no bolso minha reserva de papel branco de escrever. Depois vasculhei todos os cantos para me assegurar de que nada deixara para trás e, como nada consegui encontrar, fui até a janela e olhei para fora.

A manhã estava sombria e úmida; não havia ninguém por perto da ferraria incendiada, e o varal lá embaixo, no pátio, estendia-se teso de parede a parede, encolhido pela umidade. Tudo aquilo me era familiar, por isso me afastei da janela, tomei o cobertor debaixo do braço e fiz uma profunda reverência ao anúncio do diretor do farol, inclinei-me de novo diante do anúncio de mortalhas da srta. Andersen, e abri a porta. De repente me ocorreu o pensamento de minha senhoria; ela realmente devia ser informada de minha partida, para que pudesse ver que havia lidado com uma alma honesta.

Eu queria também agradecer-lhe por escrito pelos poucos dias de prazo excedente em que ocupara o quarto. A certeza de que agora eu estava salvo por algum tempo cresceu tão fortemente em mim que cheguei a prometer-lhe cinco xelins. Passaria por lá algum dia, quando estivesse de caminho.

Além disso, eu queria provar-lhe que espécie de pessoa íntegra seu teto havia abrigado.

Deixei o bilhete sobre a mesa.

Mais uma vez parei à porta e me voltei; a sensação leve e jubilosa de ter emergido outra vez à superfície me encantava e me fazia sentir gratidão para com Deus e toda a criação, e ajoelhei-me ao lado da cama e agradeci a Deus em voz alta por Sua grande bondade para comigo naquela manhã.

Eu sabia; ah! eu sabia que o arrebatamento de inspiração que acabara de sentir e registrar era uma miraculosa beberagem celeste em meu espírito, em resposta ao meu clamor por auxílio no dia anterior.

“Foi Deus! Foi Deus!”, gritei para mim mesmo, e chorei de entusiasmo diante de minhas próprias palavras; de quando em quando eu precisava parar e escutar se havia alguém na escada. Por fim me levantei e me preparei para sair. Desci furtivamente, sem ruído, cada lance da escada, e alcancei a porta sem ser visto.

As ruas cintilavam por causa da chuva que caíra de madrugada. O céu pairava úmido e pesado sobre a cidade, e não se via nenhum lampejo de sol. Perguntei-me o que o dia traria. Segui, como de costume, na direção da Prefeitura, e vi que eram oito e meia. Eu ainda tinha algumas horas para perambular; não adiantava ir à redação antes das dez, talvez das onze. Eu precisava vagar por aí até lá e pensar, nesse meio-tempo, em algum expediente para arranjar o café da manhã. Quanto a isso, eu não tinha medo de ir para a cama com fome naquele dia; esses tempos haviam acabado, graças a Deus! Aquilo era coisa do passado, um sonho mau. De agora em diante, Excelsior!

Fome

Sinopse

Tradução integral em português-BR de Fome, romance de Knut Hamsun, preparada pelo Literunico a partir da tradução inglesa em domínio público de George Egerton disponível no Project Gutenberg para a Copa do Mundo Literunico.

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