Universo da obra
Universo da obra
Quem poderia saber? Tateei todos os bolsos à procura de alguma outra coisa que pudesse entregar junto com eles, mas nada encontrei. Se ao menos eu pudesse oferecer-lhe minha gravata? Bem podia passar sem ela, se abotoasse o casaco bem fechado, o que, aliás, eu já era obrigado a fazer, pois não tinha colete. Desatei-a — era uma grande gravata em laço, de pontas sobrepostas, que escondia metade do meu peito —, escovei-a cuidadosamente e dobrei-a num pedaço de papel branco e limpo de escrever, junto com os tíquetes. Depois deixei o cemitério e tomei o caminho que levava ao Opland.
Eram sete horas pelo relógio da Prefeitura. Andei de um lado para outro junto ao café, mantive-me perto das grades de ferro e fiquei vigiando atentamente todos os que entravam e saíam pela porta. Por fim, por volta das oito horas, vi o rapaz, fresco, elegantemente vestido, subindo a colina e atravessando para a porta do café. Meu coração palpitou como um passarinho em meu peito quando o avistei, e soltei, sem sequer cumprimentá-lo:
“Seis pence, velho amigo!”, disse eu, fazendo-me de atrevido; “aqui está o valor disso”, e enfiei-lhe o pequeno pacote na mão.
“Não tenho”, exclamou ele. “Deus sabe se tenho!” E virou a bolsa do avesso bem diante dos meus olhos. “Saí ontem à noite e fiquei completamente limpo! Você tem de acreditar em mim, literalmente não tenho.”
“Não, não, meu caro; suponho que seja assim”, respondi, e acreditei em sua palavra. Não havia, de fato, razão alguma para que mentisse sobre matéria tão insignificante. Pareceu-me também que seus olhos azuis estavam úmidos enquanto vasculhava os bolsos e nada encontrava. Recuei. “Perdoe-me”, disse eu; “é que eu estava apenas um pouco apertado.” Eu já estava a um trecho da rua quando ele me chamou por causa do pequeno pacote. “Fique com ele! fique com ele”, respondi; “é seu. Há apenas umas ninharias aí — uma bagatela; quase tudo o que possuo no mundo”, e fiquei tão comovido com minhas próprias palavras, elas soavam tão patéticas no crepúsculo, que caí em prantos...
O vento aumentou, as nuvens corriam loucamente pelo céu, e ficava cada vez mais frio à medida que escurecia. Andei, e chorei enquanto andava, pela rua inteira abaixo; sentia cada vez mais compaixão de mim mesmo, e repetia, vezes sem conta, algumas palavras, uma exclamação, que chamava novas lágrimas sempre que elas estavam a ponto de cessar: “Senhor Deus, sinto-me tão miserável! Senhor Deus, sinto-me tão miserável!”
Passou uma hora; passou com uma lentidão tão estranha, tão fatigante. Gastei muito tempo na Rua do Mercado; sentei-me em degraus, esgueirei-me para portais, e, quando alguém se aproximava, ficava parado, fitando distraidamente as lojas onde as pessoas se apressavam com mercadorias ou dinheiro. Por fim encontrei um lugar abrigado, atrás de um tapume de madeira, entre a igreja e o bazar.
Não; eu não podia voltar aos bosques naquela noite. As coisas teriam de seguir seu curso. Eu não tinha força bastante para ir, e era uma distância interminável até lá. Eu mataria a noite como pudesse, e ficaria onde estava; se ficasse frio demais, bem, poderia dar voltas em torno da igreja. De todo modo, não me atormentaria mais com aquilo, e recostei-me e cochilei.
O ruído ao meu redor diminuiu; as lojas fecharam. Os passos dos pedestres soavam cada vez mais raros, e em todas as janelas ao redor as luzes se apagaram. Abri os olhos e percebi uma figura parada diante de mim. O lampejo de botões reluzentes me disse que era um policial, embora eu não pudesse ver o rosto do homem.
“Boa noite”, disse ele.
“Boa noite”, respondi, e fiquei com medo.
“Onde o senhor mora?”, perguntou.
Citei, por hábito e sem pensar, meu antigo endereço, o pequeno sótão.
Ele ficou parado algum tempo.
“Fiz alguma coisa errada?”, perguntei, ansioso.
“Não, de modo algum!”, respondeu; “mas talvez fosse melhor o senhor ir para casa agora; faz frio para ficar deitado aqui.”
“Sim, é verdade; sinto que está um pouco frio.” Dei boa-noite e, instintivamente, tomei o caminho da minha antiga morada. Se eu procedesse com cuidado, talvez conseguisse subir sem ser ouvido; eram oito degraus ao todo, e apenas os dois de cima rangiam sob meu passo. Lá embaixo, à porta, tirei os sapatos e subi. Tudo estava silencioso por toda parte. Eu podia ouvir o tique-taque lento de um relógio, e uma criança chorando um pouco. Depois disso não ouvi mais nada. Encontrei minha porta, levantei o trinco como estava acostumado a fazer, entrei no quarto e fechei a porta sem ruído atrás de mim.
Tudo estava como eu deixara. As cortinas tinham sido afastadas das janelas, e a cama estava vazia. Entrevi um bilhete sobre a mesa; talvez fosse meu bilhete à senhoria — talvez ela nunca tivesse subido ali desde que eu fora embora.
Tateei com as mãos sobre a mancha branca e senti, para meu espanto, que era uma carta. Levei-a até a janela, examinei, tanto quanto era possível no escuro, as letras mal escritas do endereço, e distingui pelo menos meu próprio nome. Ah, pensei, uma resposta de minha senhoria, proibindo-me de tornar a entrar no quarto caso eu estivesse tentando voltar de mansinho.
Devagar, muito devagar, deixei o quarto, levando os sapatos numa das mãos, a carta na outra e o cobertor debaixo do braço. Endireito-me, cerro os dentes ao pisar nos degraus que rangem, desço felizmente a escada e fico mais uma vez à porta. Calço os sapatos, levo meu tempo com os cadarços, permaneço sentado algum tempo em silêncio depois de pronto, e fito vagamente diante de mim, segurando a carta na mão. Depois me levanto e vou.
O raio vacilante de um lampião a gás brilha rua acima. Sigo direto para a luz, encosto meu embrulho no poste e abro a carta. Tudo isso com a máxima deliberação. Uma corrente de luz, por assim dizer, atravessa meu peito, e ouço que solto um pequeno grito — um som sem sentido de alegria. A carta era do editor. Meu conto fora aceito — fora composto imediatamente, sem demora! Algumas pequenas alterações... Alguns erros de escrita corrigidos... Trabalhado com talento... seria impresso amanhã... meio soberano.
Ri e chorei, pus-me a saltar e correr pela rua, parei, bati nas coxas, praguejei alto e solenemente para o espaço, contra nada em particular. E o tempo passou.
Durante toda a noite, até a aurora clara, “iodelei” pelas ruas e repeti — “Trabalhado com talento — portanto uma pequena obra-prima — um golpe de gênio — e meio soberano.”
Parte II
Algumas semanas depois, eu estava fora certa noite. Mais uma vez eu me sentara num cemitério e trabalhara num artigo para um dos jornais. Mas, enquanto lutava com ele, bateram oito horas, a escuridão se fechou, e chegou o momento de fecharem os portões.
Eu estava com fome — muita fome. Os dez xelins, por desgraça, tinham durado pouco demais. Fazia agora dois, sim, quase três dias que eu não comia coisa alguma, e me sentia um tanto fraco; até segurar o lápis me havia custado algum esforço. Eu tinha meio canivete e um molho de chaves no bolso, mas nem um vintém.
Quando o portão do cemitério se fechou, eu pretendia ter ido direto para casa, mas, por um temor instintivo do meu quarto — uma oficina vazia de funileiro, onde tudo era escuro e despojado, e que, na verdade, eu obtivera permissão para ocupar por ora —, segui tropeçando, passei, sem me importar para onde ia, pela Prefeitura, direto até o mar, e dali para um banco perto da ponte ferroviária.
Tradução integral em português-BR de Fome, romance de Knut Hamsun, preparada pelo Literunico a partir da tradução inglesa em domínio público de George Egerton disponível no Project Gutenberg para a Copa do Mundo Literunico.
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