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Capítulo 42 · Fome

Fome - Parte 42

42 de 50 ≈ 7 min de leitura

E a mãe, essa mulher grávida, que domina a rua inteira com seu tamanho, responde à criança de dez anos, enquanto o segura pelo braço e tenta arrastá-lo para dentro:

“Sh—sh. Cala essa boca! Eu bem gosto de ouvir o jeito como você xinga também, como se tivesse passado anos num bordel. Agora, para dentro com você.”

“Não, não vou.”

“Vai, sim.”

“Não, não vou.”

Fico de pé à janela e vejo que o temperamento da mãe vai se inflamando; essa cena desagradável me excita terrivelmente. Não consigo suportá-la por mais tempo. Chamo o menino lá de cima para que venha até mim por um minuto; chamo duas vezes, apenas para distraí-los — para mudar a cena. Da última vez chamo muito alto, e a mãe se volta, atarantada, e olha para cima, para mim. Recobra imediatamente o domínio de si, olha-me com insolência, não, com verdadeira malícia, e entra em casa com uma observação repreensiva dirigida ao filho. Fala alto, para que eu possa ouvi-la, e lhe diz: “Fie, você devia ter vergonha de deixar que as pessoas vejam como é malcriado.”

De tudo isso que eu ali ficara observando, nada, nem mesmo o menor detalhe acessório, se perdeu para mim; minha atenção estava agudamente viva; eu absorvia cuidadosamente cada pequena coisa enquanto estava ali parado, pensando meu próprio pensamento sobre cada coisa à medida que ocorria. Portanto, era impossível que houvesse algo errado com meu cérebro. Como poderia, nesse caso, haver algo errado com ele?

Escute; sabe de uma coisa?, disse eu de repente a mim mesmo, você já se atormentou tempo bastante com seu cérebro, dando a si mesmo uma preocupação sem fim nessa questão. Agora, é preciso acabar com essa tolice. É sinal de insanidade notar e apreender tudo com a exatidão com que você o faz? Você quase me faz rir de você, respondo. A meu ver, isso não deixa de ter seu lado humorístico, se sou juiz de um caso assim. Ora, acontece a qualquer homem empacar de vez em quando, e justamente numa questão simplíssima. Isso não tem importância, muitas vezes é puro acidente. Como já observei antes, estou a ponto de dar uma boa gargalhada à sua custa. Quanto àquela conta de vendilhão, aqueles miseráveis cinco dezesseis avos de queijo de mendigo, posso chamá-lo tranquilamente assim. Ha, ha! — um queijo com cravo e pimenta; palavra de honra, um queijo no qual, para dizer claramente, se poderiam criar larvas. Quanto a esse queijo ridículo, poderia acontecer ao sujeito mais inteligente do mundo ficar perplexo diante dele! Ora, o cheiro do queijo bastava para liquidar um homem;... e fiz a maior troça disso e de todos os outros queijos holandeses... Não; ponham-me para calcular alguma coisa realmente comestível, disse eu — ponham-me, se quiserem, diante de cinco dezesseis avos de boa manteiga de leite. Isso é outra coisa.

Ri febrilmente do meu próprio capricho e achei-o singularmente divertido. Não havia positivamente mais nada de errado comigo. Eu estava em boa forma — estava, por assim dizer, ainda na melhor das formas; tinha a cabeça no lugar, nada faltava ali, graças e louvores a Deus! Minha hilaridade aumentava à medida que eu andava pelo quarto e conversava comigo mesmo. Ri em voz alta e me senti espantosamente contente. Além disso, parecia mesmo que eu precisava apenas dessa pequena hora feliz, desse momento de arrebatamento aéreo, sem cuidado algum de nenhum lado, para pôr minha cabeça novamente em ordem de trabalho.

Sentei-me à mesa e pus-me a trabalhar em minha alegoria; ela progredia às mil maravilhas, melhor do que havia progredido fazia muito tempo; não muito depressa, é verdade, mas parecia-me que o que eu fazia era absolutamente de primeira ordem. Trabalhei também pelo espaço de uma hora sem me cansar.

Estou sentado, trabalhando no ponto mais crucial dessa Alegoria de uma Conflagração numa Livraria. Parece-me um ponto tão importante que todo o resto que escrevi nada contava em comparação. Eu estava, a saber, justamente prestes a entretecer, de modo francamente profundo, esse pensamento. Não eram livros que ardiam, eram cérebros, cérebros humanos; e eu pretendia fazer uma perfeita noite de São Bartolomeu daqueles cérebros em chamas.

De súbito minha porta foi aberta com um puxão e com muita pressa; minha senhoria entrou navegando. Veio diretamente até o meio do quarto, nem sequer se deteve no limiar.

Soltei um pequeno grito rouco; foi exatamente como se tivesse recebido um golpe.

“O quê?”, disse ela, “pensei que o senhor tivesse dito alguma coisa. Temos um viajante, e precisamos deste quarto para ele. O senhor terá de dormir lá embaixo conosco esta noite. Sim; lá também pode ter uma cama só para o senhor.” E antes que obtivesse minha resposta, começou, sem mais cerimônia, a juntar meus papéis sobre a mesa e a pôr tudo num estado de terrível confusão.

Meu bom humor foi varrido aos ventos; levantei-me imediatamente, em cólera e desespero. Deixei que ela arrumasse a mesa e nada disse, não pronunciei uma sílaba. Ela enfiou todos os papéis em minha mão.

Não havia mais nada que eu pudesse fazer. Fui obrigado a deixar o quarto. E assim também se estragava esse momento precioso. Encontrei o novo viajante já na escada; um rapaz com grandes âncoras azuis tatuadas no dorso das mãos. Um carregador do cais o seguia, trazendo uma arca de marinheiro aos ombros. Evidentemente era um marinheiro, um viajante casual por uma noite; portanto não ocuparia meu quarto por um período longo. Talvez, também, eu tivesse sorte amanhã, quando o homem partisse, e tornasse a ter um daqueles meus momentos; eu precisava apenas de uma inspiração de cinco minutos, e meu ensaio sobre a conflagração estaria terminado. Bem, eu teria de me submeter ao destino.

Eu ainda não estivera dentro dos aposentos da família, esse quarto comum em que todos viviam, tanto de dia como de noite — o marido, a mulher, o pai da mulher e quatro crianças. A criada vivia na cozinha, onde também dormia à noite. Aproximei-me da porta com muita repugnância e bati. Ninguém respondeu, embora eu ouvisse vozes lá dentro.

O marido não falou quando entrei, nem sequer correspondeu ao meu aceno, apenas me lançou um olhar descuidado, como se eu nada tivesse a ver com ele. Além disso, estava sentado jogando cartas com uma pessoa que eu vira lá nos cais, com o apelido de “Vidraça”. Um bebê jazia balbuciando consigo mesmo na cama, e um velho, o pai da senhoria, estava sentado dobrado sobre um banco-cama, com a cabeça inclinada sobre as mãos, como se lhe doesse o peito ou o estômago. Seus cabelos eram quase brancos, e, naquela posição encolhida, parecia um réptil de pescoço projetado que se sentasse de orelhas em pé, à escuta de alguma coisa.

“Venho, por desgraça, pedir um lugar aqui embaixo esta noite”, disse eu ao homem.

“Minha mulher disse isso?”, perguntou ele.

“Sim; veio um novo hóspede para o meu quarto.”

A isso o homem não respondeu, mas continuou a manusear as cartas. Ali estava aquele homem, dia após dia, jogando cartas com qualquer um que por acaso entrasse — jogava sem aposta, apenas para matar o tempo e ter algo entre as mãos. Nunca fazia outra coisa, movia-se apenas o quanto seus membros preguiçosos tinham vontade, enquanto a mulher se atarefava escada acima e escada abaixo, ocupava-se por todos os lados e cuidava de atrair fregueses para a casa. Ela se havia posto em contato com carregadores do cais e homens das docas, aos quais pagava certa quantia por cada novo hóspede que lhe trouxessem, e muitas vezes lhes dava, além disso, abrigo por uma noite. Desta vez fora “Vidraça” quem acabara de trazer o novo hóspede.

Fome

Sinopse

Tradução integral em português-BR de Fome, romance de Knut Hamsun, preparada pelo Literunico a partir da tradução inglesa em domínio público de George Egerton disponível no Project Gutenberg para a Copa do Mundo Literunico.

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