Universo da obra
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Ha! não se encontrava par para aquela vendedora de bolos desonesta. Durante todo o tempo, enquanto eu andava de um lado para outro na praça do mercado e comia meus bolos, falava alto sobre aquela criatura e sua desvergonha, repetia para mim mesmo o que ambos havíamos dito um ao outro, e parecia-me que eu saíra daquele caso com todas as honras, deixando-a reduzida a nada. Comi meus bolos diante de todos e discuti aquilo comigo mesmo.
Os bolos desapareciam um a um; pareciam não render nada; por mais que eu comesse, continuava avidamente faminto. Senhor, pensar que não serviam de ajuda! Eu estava tão voraz que cheguei a ponto de devorar também o último bolinho que decidira poupar desde o começo, pô-lo de lado, de fato, para o pequeno lá da Vognmandsgade — o garotinho que brincava com as tiras de papel. Eu pensava nele continuamente — não conseguia esquecer seu rosto quando saltou e praguejou. Ele se voltara para a janela quando o homem lhe cuspira em cima, e apenas olhara para cima para ver se eu ria dele. Deus sabe se eu o encontraria agora, mesmo que descesse por aquele caminho.
Esforcei-me muito para tentar alcançar a Vognmandsgade, passei depressa pelo lugar onde rasgara meu drama em farrapos, e onde ainda jaziam alguns pedaços de papel; evitei o policial a quem assombrara com minha conduta, e cheguei aos degraus sobre os quais o pequeno estivera sentado.
Ele não estava ali. A rua estava quase deserta — o crepúsculo se adensava, e eu não o via em parte alguma. Talvez tivesse entrado. Depositei o bolo no chão, pus-lhe de pé contra a porta, bati com força e me afastei às pressas. Ele há de encontrá-lo, disse a mim mesmo; a primeira coisa que fará quando sair será encontrá-lo. E meus olhos se umedeceram de prazer ao pensar no pequeno encontrando o bolo.
Alcancei de novo a estação terminal.
Agora já não sentia fome, apenas a coisa doce que eu comera começava a me causar desconforto. Também os pensamentos mais desvairados tornaram a subir-me à cabeça.
E se eu, em todo segredo, cortasse o cabo de amarração de um daqueles navios? E se de repente eu gritasse “Fogo”? Caminho mais para baixo pelo cais, encontro uma caixa de embalagem e me sento sobre ela, cruzo as mãos e tenho consciência de que minha cabeça fica cada vez mais confusa. Não me mexo; simplesmente não faço esforço algum para me manter por mais tempo. Fico apenas sentado ali, fitando o Copégoro, a barca que ostenta a bandeira russa.
Avisto um homem junto à amurada; a lanterna vermelha suspensa a bombordo brilha sobre sua cabeça, e eu me levanto e falo com ele. Não tinha objetivo algum ao falar, pois tampouco esperava receber resposta.
Eu disse:
“O senhor zarpa esta noite, capitão?”
“Sim; dentro de pouco tempo”, respondeu o homem. Falava sueco.
“Hem, suponho que por acaso não precise de um homem?”
Naquele instante, era-me absolutamente indiferente ser recebido com uma recusa ou não; dava-me no mesmo a resposta que o homem me desse, por isso fiquei de pé esperando por ela.
“Bem, não”, respondeu; “a menos que fosse por acaso um rapaz moço.”
“Um rapaz moço!” Recompus-me, tirei furtivamente os óculos e os enfiei no bolso, subi a prancha e avancei pelo convés.
“Não tenho experiência”, disse eu; “mas posso fazer tudo que me mandarem. Para onde vão?”
“Seguimos em lastro para Leith, buscar carvão para Cádiz.”
“Está bem”, disse eu, impondo-me ao homem; “para mim dá no mesmo para onde eu vá; estou pronto para fazer meu trabalho.”
“O senhor nunca navegou antes?”, perguntou.
“Não; mas, como lhe digo, ponha-me numa tarefa, e eu a farei. Estou acostumado a um pouco de tudo.”
Ele tornou a refletir.
Eu já havia metido firmemente na cabeça que navegaria naquela viagem, e comecei a temer que me enxotassem de volta para terra.
“Que acha, capitão?”, perguntei por fim. “Posso realmente fazer qualquer coisa que apareça. Que estou dizendo? Eu seria um pobre-diabo se não pudesse fazer um pouco mais do que apenas aquilo que me mandassem. Posso tirar dois quartos seguidos, se for o caso. Isso só me faria bem, e eu aguentaria do mesmo modo.”
“Está bem, experimente. Se não der certo, então nos separamos na Inglaterra.”
“Claro”, respondo, em meu deleite, e repeti mais uma vez que poderíamos nos separar na Inglaterra, se não desse certo.
E ele me pôs a trabalhar...
Lá fora, no fiorde, arrastei-me uma vez para cima, molhado de febre e exaustão, e olhei para a terra, e despedi-me por ora da cidade — de Christiania, onde as janelas reluziam tão vivamente em todos os lares.
Tradução integral em português-BR de Fome, romance de Knut Hamsun, preparada pelo Literunico a partir da tradução inglesa em domínio público de George Egerton disponível no Project Gutenberg para a Copa do Mundo Literunico.
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