Universo da obra
Universo da obra
Diante do nº 2, uma grande casa de quatro andares, elas se voltaram outra vez antes de entrar. Apoiei-me num lampião perto da fonte e escutei seus passos na escada. Eles se extinguiram no segundo andar. Afastei-me do lampião e olhei para a casa. Então aconteceu algo estranho. As cortinas lá em cima se mexeram e, um segundo depois, uma janela se abriu, uma cabeça surgiu, e dois olhos de aparência singular pousaram em mim. “Ylajali!”, murmurei, a meia voz, e senti que ficava vermelho.
Por que ela não chama por socorro, ou derruba um desses vasos de flores e me acerta na cabeça, ou manda alguém descer para me expulsar? Ficamos parados, olhando nos olhos um do outro, sem nos mover; isso dura um minuto. Pensamentos disparam entre a janela e a rua, e nem uma palavra é dita. Ela se vira; sinto um arrancão dentro de mim, um delicado choque através dos sentidos; vejo um ombro que se volta, umas costas que desaparecem pelo assoalho. Aquele afastar-se relutante da janela, a acentuação naquele movimento dos ombros, foi como um aceno para mim. Meu sangue percebeu todo aquele cumprimento delicado e fino, e senti-me, de repente, extraordinariamente contente. Então girei nos calcanhares e desci a rua.
Não ousei olhar para trás, e não sabia se ela voltara à janela. Quanto mais considerava essa questão, mais nervoso e inquieto me tornava. Provavelmente, naquele exato momento, ela estava ali, observando atentamente todos os meus movimentos. Não é de modo algum confortável saber que se é observado pelas costas. Recompus-me o melhor que pude e segui meu caminho; minhas pernas começaram a dar solavancos sob mim, meu andar tornou-se inseguro justamente porque eu tentava, de propósito, fazê-lo parecer correto. Para parecer à vontade e indiferente, balancei os braços, cuspi e joguei bem a cabeça para trás — tudo em vão, pois sentia continuamente aqueles olhos perseguidores em minha nuca, e um arrepio frio descia por minhas costas. Por fim, escapei por uma rua lateral, de onde tomei o caminho da Rua Pyle para buscar meu lápis.
Não tive dificuldade em recuperá-lo; o homem trouxe-me ele próprio o colete e, ao fazê-lo, pediu-me que revistasse todos os bolsos. Encontrei também um par de bilhetes de penhor, que enfiei no bolso enquanto agradecia ao homenzinho prestativo por sua gentileza. Eu me sentia cada vez mais tomado por ele e, de súbito, fiquei extremamente ansioso por causar uma impressão favorável naquela pessoa. Dei um passo em direção à porta e voltei então ao balcão, como se tivesse esquecido alguma coisa. Ocorreu-me que eu lhe devia uma explicação, que deveria esclarecer um pouco as coisas. Comecei a cantarolar, a fim de atrair sua atenção. Depois, tomando o lápis na mão, ergui-o e disse:
“Nunca me passaria pela cabeça vir de tão longe por qualquer pedacinho de lápis, mas com este era coisa muito diferente; havia outro motivo, um motivo especial. Por insignificante que pareça, este toco de lápis fez simplesmente de mim o que sou no mundo, por assim dizer, colocou-me na vida.” Não disse mais nada. O homem viera até o balcão.
“De fato!”, disse ele, e olhou-me de modo interrogativo.
“Foi com este lápis”, continuei, com todo o sangue-frio, “que escrevi minha dissertação sobre o ‘Conhecimento Filosófico’, em três volumes.” Nunca ouvira falar dela?
Bem, ele parecia lembrar-se de ter ouvido o nome, ou antes, o título.
“Sim”, disse eu, “foi obra minha, foi sim.” Portanto, ele realmente não deveria espantar-se de que eu desejasse recuperar aquele pequeno pedaço de lápis. Eu o estimava demais para perdê-lo; ora, ele era quase tanto para mim quanto uma criaturinha humana. De resto, eu lhe era sinceramente grato por sua cortesia, e me lembraria dele por isso. Sim, verdadeiramente, eu realmente me lembraria. Promessa era promessa; esse era o tipo de homem que eu era, e ele de fato a merecia. “Adeus!” Caminhei até a porta com o porte de alguém que tinha em seu poder colocar um homem numa alta posição, digamos, na companhia de seguros contra incêndio. O honrado penhorista inclinou-se duas vezes profundamente para mim enquanto eu me retirava. Voltei-me outra vez e repeti meu adeus.
Na escada encontrei uma mulher com uma bolsa de viagem na mão, que se apertou timidamente contra a parede para me dar passagem, e eu, voluntariamente, enfiei a mão no bolso à procura de algo para lhe dar, e fiquei com ar tolo ao nada encontrar, passando adiante de cabeça baixa. Ouvi-a bater à porta do escritório; havia uma campainha sobre ela, e reconheci o tilintar que fazia quando alguém batia à porta com os nós dos dedos.
O sol estava ao sul; eram cerca de doze horas. A cidade inteira começava a pôr-se de pé, ao aproximar-se a hora elegante do passeio. Gente que se cumprimentava e ria caminhava para cima e para baixo pela Rua Carl Johann. Mantive os cotovelos bem colados ao corpo, tentei fazer-me parecer pequeno e passei despercebido por alguns conhecidos que se haviam postado na esquina da Rua da Universidade para contemplar os transeuntes. Vagueei pela Colina do Castelo e caí num devaneio.
Com que alegria e leveza essas pessoas que eu encontrava carregavam suas cabeças radiantes, e balançavam-se pela vida como por um salão de baile! Não havia tristeza num só olhar que encontrei, nenhum fardo sobre qualquer ombro, talvez nem mesmo um pensamento anuviado, nem uma pequena dor oculta em nenhuma daquelas almas felizes. E eu, caminhando bem no meio dessa gente, jovem e mal emplumado como era, já havia esquecido até mesmo a aparência da felicidade. Abracei esses pensamentos dentro de mim enquanto seguia, e achei que uma grande injustiça fora cometida contra mim. Por que os últimos meses me haviam oprimido de modo tão estranhamente duro? Eu já não reconhecia meu próprio temperamento feliz, e de todos os lados me vinham as contrariedades mais singulares. Eu não podia sentar-me sozinho num banco nem pôr o pé em lugar algum sem ser assaltado por acidentes insignificantes, detalhes miseráveis, que abriam caminho à força em minha imaginação e espalhavam minhas forças aos quatro ventos. Um cão que passasse correndo por mim, uma rosa amarela na botoeira de um homem, tinham o poder de pôr meus pensamentos a vibrar e ocupar-me por longo tempo.
Que era que me afligia? Estaria a mão do Senhor voltada contra mim? Mas por que justamente contra mim? Por que, nesse caso, não também contra um homem na América do Sul? Quando refletia sobre o assunto, tornava-se cada vez mais incompreensível para mim que eu, entre todos, tivesse sido escolhido como experimento para os caprichos de um Criador. Era, para dizer o mínimo, um modo peculiar de proceder: passar por cima de todo um mundo de outros humanos para chegar a mim. Por que não escolher igualmente o livreiro Pascha, ou Hennechen, o agente de vapores?
Enquanto seguia meu caminho, eu peneirava essa questão e não conseguia livrar-me dela. Encontrava os argumentos mais fortes contra a arbitrariedade do Criador em deixar que eu pagasse pelos pecados de todos os outros. Mesmo depois de encontrar um banco e sentar-me, a pergunta persistia em ocupar-me e me impedia de pensar em qualquer outra coisa. Desde aquele dia de maio em que minha má sorte começara, eu podia notar com tanta clareza minha debilidade gradualmente crescente; tornara-me, por assim dizer, demasiado lânguido para controlar-me ou conduzir-me para onde quisesse ir. Um enxame de pequenos animais nocivos havia aberto caminho para dentro do meu homem interior e me escavado por dentro.
Suponhamos que Deus Todo-Poderoso pretendesse simplesmente aniquilar-me? Levantei-me e caminhei para trás e para diante diante do banco.
Tradução integral em português-BR de Fome, romance de Knut Hamsun, preparada pelo Literunico a partir da tradução inglesa em domínio público de George Egerton disponível no Project Gutenberg para a Copa do Mundo Literunico.
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