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Capítulo 11 · Fome

Fome - Parte 11

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Mas, nesse meio-tempo, o cobertor verde me causava embaraço. Tampouco eu podia muito bem tornar-me conspícuo carregando uma coisa daquelas bem debaixo dos olhos das pessoas. O que pensariam de mim? E, enquanto seguia, tentei imaginar um lugar onde pudesse deixá-lo guardado até mais tarde. Ocorreu-me que eu poderia entrar na loja de Semb e mandar embrulhá-lo em papel; não só ficaria com melhor aparência, como eu já não precisaria envergonhar-me de carregá-lo.

Entrei na loja e expus meu caso a um dos caixeiros.

Ele olhou primeiro para o cobertor, depois para mim. Pareceu-me que ele encolhia um pouco os ombros consigo mesmo, com certo desprezo, ao pegá-lo; isso me aborreceu.

“Meu rapaz”, exclamei, “faça o favor de ter um pouco de cuidado! Há aí dentro dois vasos de vidro caríssimos; o embrulho tem de seguir para Esmirna.”

Isso teve um efeito magnífico. O sujeito se desculpava, em cada movimento que fazia, por não ter adivinhado que havia algo de extraordinário naquele cobertor. Quando acabou de embalá-lo, agradeci-lhe com o ar de um homem que já antes enviara mercadorias preciosas a Esmirna. Ele manteve a porta aberta para mim e fez duas reverências quando saí.

Comecei a vaguear entre as pessoas na praça do mercado, mantendo-me de preferência perto da mulher que vendia plantas em vasos. As rosas pesadas, de um vermelho carmesim — cujas folhas brilhavam úmidas, como sangue, na manhã molhada — despertavam-me inveja e me tentavam pecaminosamente a arrancar uma delas, e perguntei o preço apenas como desculpa para chegar o mais perto possível.

Se me sobrasse algum dinheiro, eu compraria uma, acontecesse o que acontecesse; na verdade, eu bem poderia poupar um pouco, de vez em quando, no meu modo de viver, para equilibrar novamente as coisas.

Eram dez horas, e subi até a redação do jornal. “Tesoura” remexia uma porção de jornais velhos. O editor ainda não chegara. Ao ser perguntado sobre o que eu queria, entreguei meu manuscrito de peso, dei-lhe a entender que era algo de importância mais que incomum, e gravei seriamente em sua memória que devia pô-lo nas próprias mãos do editor assim que ele chegasse.

Eu mesmo voltaria mais tarde, naquele dia, em busca de uma resposta.

“Está bem”, respondeu “Tesoura”, e tornou a ocupar-se de seus papéis.

Pareceu-me que ele tratava o assunto com frieza um tanto excessiva; mas nada disse, apenas lhe acenei com a cabeça de modo bastante displicente e saí.

Eu agora tinha tempo de sobra! Se ao menos o céu clareasse! O tempo estava perfeitamente miserável, sem vento nem frescor. As senhoras carregavam guarda-chuvas, por precaução, e os gorros de lã dos homens pareciam moles e deprimentes.

Dei outra volta pelo mercado e olhei os legumes e as rosas. Sinto uma mão em meu ombro e me volto — “Missy” me dá bom-dia! “Bom-dia!”, respondo, um tanto interrogativamente. Nunca tivera particular simpatia por “Missy”.

Ele olha com curiosidade para o grande embrulho novinho debaixo do meu braço e pergunta:

“O que você tem aí?”

“Oh, estive na Semb e comprei um pouco de tecido para um terno”, respondo, em tom negligente. “Achei que não podia continuar me arrastando assim por mais tempo; há um limite para uma pessoa tratar-se tão miseravelmente.”

Ele me fita com um sobressalto de espanto.

“A propósito, como vão as coisas para você?” Pergunta isso devagar.

“Oh, além de toda expectativa!”

“Então você arranjou alguma ocupação agora?”

“Alguma ocupação?”, respondo, parecendo surpreso. “Pois sim! Sou guarda-livros na Christensen’s — uma casa atacadista.”

“Ah, de fato!”, observa ele, e recua um pouco.

“Bem, Deus sabe que sou o primeiro a me alegrar com seu sucesso. Apenas não deixe que lhe arranquem, pedindo, o dinheiro que você ganha. Bom-dia!”

Um segundo depois, ele gira nos calcanhares, volta e, apontando com a bengala para o meu embrulho, diz:

“Eu lhe recomendaria meu alfaiate para o terno. Você não encontrará alfaiate melhor que Isaksen — basta dizer que fui eu que o mandei, só isso!”

Aquilo era realmente um pouco mais do que eu podia engolir. Por que queria ele meter o nariz em meus negócios? Que lhe importava o alfaiate que eu empregasse? A visão daquele “almofadinha” dândi e vazio me amargurou, e lembrei-lhe, de maneira bastante brutal, os dez xelins que ele me havia tomado emprestado. Mas antes que pudesse responder, arrependi-me de tê-los cobrado. Fiquei envergonhado e evitei encontrar seus olhos; e, como uma senhora passasse justo então, dei apressadamente um passo de lado para deixá-la passar, e aproveitei a oportunidade para seguir meu caminho.

Que faria eu comigo mesmo enquanto esperava? Não podia visitar um café com os bolsos vazios, e não conhecia nenhum conhecido a quem pudesse procurar àquela hora do dia. Encaminhei-me instintivamente para a parte alta da cidade, matei bastante tempo entre a praça do mercado e a Grændsen, li o Aftenpost, recém-afixado no quadro do lado de fora da redação, dei uma volta pela Carl Johann, tornei para trás e segui direto para o Cemitério de Nosso Salvador, onde encontrei um banco tranquilo na encosta, perto da Capela Mortuária.

Sentei-me ali em completa quietude, cochilei no ar úmido, cismei, meio dormi e estremeci de frio.

E o tempo passou. Ora, seria certo que o conto era realmente uma pequena obra-prima de arte inspirada? Deus sabe se ele não teria suas falhas aqui e ali. Tudo bem pesado, não era certo que fosse aceito; não, simplesmente nem mesmo aceito. Talvez fosse bastante medíocre a seu modo, talvez completamente sem valor. Que garantia tinha eu de que, já naquele momento, ele não jazia na cesta de papéis?... Minha confiança foi abalada. Saltei de pé e saí tempestuoso do cemitério.

Lá embaixo, na Akersgaden, espiei a vitrine de uma loja e vi que passava apenas um pouco do meio-dia. Não adiantava procurar o editor antes das quatro. O destino do meu conto enchia-me de pressentimentos sombrios; quanto mais eu pensava nele, mais absurdo me parecia que eu pudesse ter escrito algo aproveitável com tamanha rapidez, meio adormecido, com o cérebro cheio de febre e sonhos. Naturalmente eu me enganara e fora feliz durante toda aquela longa manhã por nada!... Naturalmente!... Disparei a passos apressados pela Ullavold-sveien, passando pelo Morro de St. Hans, até chegar aos campos abertos; prossegui pelas ruelas estreitas e pitorescas de Sagene, passei por terrenos baldios e pequenos campos cultivados, e por fim me encontrei numa estrada rural cujo fim eu não conseguia ver.

Ali parei e decidi voltar.

Eu estava quente da caminhada, e regressei devagar e muito abatido. Encontrei duas carroças de feno. Os cocheiros estavam deitados de bruços no alto de suas cargas e cantavam. Ambos estavam de cabeça descoberta, e ambos tinham rostos redondos e despreocupados. Passei por eles pensando comigo mesmo que certamente me interpelariam, certamente me lançariam alguma zombaria, me pregariam alguma peça; e, quando cheguei perto o bastante, um deles gritou e perguntou o que eu levava debaixo do braço.

“Um cobertor!”

“Que horas são?”, perguntou então.

Fome

Sinopse

Tradução integral em português-BR de Fome, romance de Knut Hamsun, preparada pelo Literunico a partir da tradução inglesa em domínio público de George Egerton disponível no Project Gutenberg para a Copa do Mundo Literunico.

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