Universo da obra
Universo da obra
“Você devia ver a mulher dele!”, disse eu, fora de mim. “Uma criatura mais gorda... Hein? Como? Talvez você nem acredite que ela seja realmente gorda?”
Bem, na verdade ele não via como negar que tal homem pudesse talvez ter uma esposa bastante corpulenta. O velhote respondia com brandura e mansidão a cada uma de minhas afirmações, e procurava as palavras como se temesse ofender-me e talvez me pôr furioso.
“Raios e fogo, homem! Você imagina que estou sentado aqui entupindo-o de mentiras até a goela?”, berrei furiosamente. “Talvez você nem acredite que exista um homem chamado Happolati! Nunca vi, em velho nenhum, igual teimosia e malícia. Que diabo há com você? Talvez, ainda por cima, tenha ficado todo este tempo pensando consigo mesmo que sou um pobre-diabo, sentado aqui com minha roupa de domingo, sem sequer uma cigarreira cheia no bolso. Pois fique sabendo que um tratamento como o seu é coisa a que não estou acostumado, e não hei de suportá-lo, que o Senhor me fulmine se hei de suportar — nem de você nem de ninguém mais, ouviu?”
O homem se pusera de pé, de boca aberta; ficou sem fala, escutando minha explosão até o fim. Depois arrebatou o embrulho do banco e se foi; sim, quase correu pela alameda abaixo, com os passos curtos e vacilantes de um velho.
Recostei-me e olhei para a figura que se afastava, parecendo encolher a cada passo que dava. Não sei de onde me veio a impressão, mas pareceu-me que nunca em minha vida eu vira costas mais vis do que aquelas, e não me arrependi de ter maltratado a criatura antes que me deixasse.
O dia começava a declinar, o sol baixava, principiava um leve sussurro nas árvores ao redor, e as babás sentadas em grupos perto das barras paralelas preparavam-se para levar os carrinhos de bebê para casa. Eu estava calmo e de bom humor. A excitação sob a qual eu acabara de me debater aquietava-se pouco a pouco, e fui ficando mais fraco, mais lânguido, e comecei a sentir sono. Tampouco a quantidade de pão que eu comera me causava agora qualquer incômodo particular. Recostei-me no espaldar do banco, com o melhor dos ânimos, fechei os olhos e fui ficando cada vez mais sonolento. Cochilei, e estava justamente a ponto de adormecer, quando um guarda do parque pôs a mão em meu ombro e disse:
“O senhor não pode ficar sentado aqui dormindo!”
“Não?”, disse eu, e saltei imediatamente de pé, minha infeliz situação erguendo-se de súbito, viva, diante de meus olhos. Eu precisava fazer alguma coisa; encontrar de um modo ou de outro uma saída. Procurar emprego de nada me servira. Até mesmo as recomendações que eu apresentava já se tinham tornado um pouco velhas, e haviam sido escritas por pessoas demasiado pouco conhecidas para terem grande utilidade; além disso, as recusas constantes durante todo o verão tinham-me desanimado um tanto. De qualquer modo, meu aluguel estava vencendo, e eu precisava arranjar dinheiro para pagá-lo; o resto teria de esperar um pouco.
Quase sem perceber, eu tornara a pegar papel e lápis, e fiquei sentado, escrevendo mecanicamente a data, 1848, em cada canto. Se ao menos agora um único pensamento efervescente me agarrasse com força e me pusesse palavras na boca! Ora, eu conhecera horas em que podia escrever um longo artigo sem o menor esforço, e ainda por cima despachá-lo admiravelmente.
Estou sentado no banco e escrevo, dezenas de vezes, 1848. Escrevo essa data de través, cruzada, de todos os modos possíveis, e espero até que me ocorra uma ideia aproveitável. Um enxame de pensamentos soltos esvoaça em minha cabeça. A sensação do dia que declina me torna abatido, sentimental; o outono chegou, e já começou a embalar tudo no sono e na torpeza. As moscas e os insetos receberam seu primeiro aviso. Lá no alto das árvores e embaixo, nos campos, ouvem-se os ruídos da vida em luta, farfalhando, murmurando, inquieta; esforçando-se para não perecer. A existência pisoteada de todo o mundo dos insetos ainda se agita por mais algum tempo. Eles erguem da relva suas cabeças amarelas, levantam as pernas, tateiam o caminho com longas antenas, e então desabam de repente, reviram-se e ficam de barriga para o ar.
Tudo o que cresce recebeu sua impressão peculiar: o sopro delicadamente exalado do primeiro frio. Os restolhos se alongam, pálidos, em direção ao sol, e as folhas que caem roçam a terra com um som como de bichos-da-seda errantes.
É o reinado do Outono, o auge do Carnaval da Decomposição; as rosas apanharam inflamação em seus rubores, uma cor febril, sinistra, através de seu damasco macio.
Senti-me como uma criatura rastejante à beira da destruição, presa pela ruína no meio de um mundo inteiro pronto para o sono letárgico. Levantei-me, oprimido por terrores estranhos, e dei alguns passos furiosos pela alameda. “Não!”, gritei, apertando ambas as mãos; “isto tem de acabar”, e tornei a sentar-me, agarrei o lápis e pus-me seriamente a trabalhar num artigo.
Não havia proveito algum em ceder, com o aluguel por pagar fitando-me diretamente no rosto.
Devagar, muito devagar, meus pensamentos se reuniram. Prestei atenção neles, e escrevi calma e bem; escrevi algumas páginas como introdução. Serviriam de começo para qualquer coisa. Uma descrição de viagem, um editorial político, conforme eu achasse melhor — era um começo perfeitamente esplêndido para alguma coisa, para qualquer coisa. Então pus-me a procurar um assunto específico a tratar, uma pessoa ou uma coisa com que pudesse me medir, e não encontrei nada. Junto com esse esforço infrutífero, a desordem começou de novo a dominar meus pensamentos. Senti meu cérebro literalmente estalar e minha cabeça esvaziar-se, até ficar por fim leve, flutuante e oca sobre meus ombros. Eu tinha consciência do vácuo escancarado em meu crânio com cada fibra do meu ser. Parecia-me estar esvaziado dos pés à cabeça.
Em minha dor, clamei: “Senhor, meu Deus e Pai!”, e repeti esse grito muitas vezes seguidas, sem acrescentar uma só palavra.
O vento gemia entre as árvores; preparava-se uma tempestade. Fiquei sentado ainda algum tempo, fitando meu papel, perdido em pensamentos; depois dobrei-o e meti-o lentamente no bolso. Começava a esfriar; e eu já não possuía colete. Abotoei o casaco até o pescoço e enfiei as mãos nos bolsos; em seguida me levantei e segui adiante.
Se ao menos eu tivesse conseguido desta vez, só desta vez. Duas vezes minha senhoria me pedira o pagamento com os olhos, e eu fora obrigado a baixar a cabeça e passar por ela às escondidas, com ar envergonhado. Não podia fazer isso de novo: na próxima vez em que encontrasse aqueles olhos, eu daria aviso e me explicaria honestamente. Bem, de todo modo, as coisas não podiam durar muito nesse passo.
Ao chegar à saída do parque, vi o velho sujeito que eu pusera em fuga. O misterioso embrulho novo de papel jazia aberto no banco ao lado dele, cheio de diversas espécies de víveres, dos quais ele comia sentado. Imediatamente quis ir até lá e pedir perdão por minha conduta, mas a visão da comida me repeliu. Os dedos decrépitos pareciam dez garras ao apertar, repulsivos, o pão com manteiga engordurado; senti náusea e passei sem lhe dirigir a palavra. Ele não me reconheceu; seus olhos fitaram-me, secos como chifre, e seu rosto não moveu um músculo.
E assim segui meu caminho.
Como de costume, parei diante de cada cartaz de jornal que encontrei, para ler os anúncios de vagas de emprego, e tive a sorte de encontrar uma a que talvez pudesse me candidatar.
Tradução integral em português-BR de Fome, romance de Knut Hamsun, preparada pelo Literunico a partir da tradução inglesa em domínio público de George Egerton disponível no Project Gutenberg para a Copa do Mundo Literunico.
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