Ode Ao Amor Eu e Outras Poesias · Capítulo 205 de 208
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Ode Ao Amor

Enches o peito de cada homem, medras

Nalma de cada virgem, e toda a alma

Enches de beijos de infinita calma...

E o aroma dos teus beijos infinitos

Entra na terra, bate nos granitos

E quebra as rochas e arrebenta as pedras!

És soberano! Sangras e torturas!

Ora, tangendo tiorbas em volatas,

Cantas a Vida que sangrando matas,

Ora, clavas brandindo em seva e insana

Fúria, lembras, Amor, a soberana

Imagem pétrea das montanhas duras.

Beijam-te o passo multidões escravas

Dos Desgraçados! -- Estas multidões

Sonham pátrias doiradas de ilusões

Entre os tórculos negros da Desgraça

-- Flores que tombam quando a neve passa

No turblhão das avalanches bravas!

Tudo dominas! -- Dos vergéis tranqüilos

Aos Capitólios, e dos Capitólios

Aos claros pulcros e brilhantes sólios

De esplendor pulcro e de fulgências claras,

Rendilhados de fulvas gemas raras

E pontilhados de crisoberilos.

Sobes ao monte ondeo edelweiss pompeia

Nalma do que subiu àquele monte!

Mas, vezes, desces ao segredo insonte

Do mar profundo onde a sereia canta

E onde a Alcíone trêmula se espanta

Ouvindo a gusla crebra da sereia!

Rompe a manhã. Sinos além bimbalham.

Troa o conúbio dos amores velhos

-- As borboletas e os escaravelhos

Beijam-se no ar...Retroa o sino. E, quietos

Beijam-se além os silfos e os insetos

Sob a esteira dos campos que se orvalham.

E em tudo estruge a tua dúlia -- dúlia

Que na fibra mais forte e até na fibra

Mais tênue, chora e se lamenta e vibra...

E em cada peito onde um Ocaso chora

Levanta a cruz da redenção da Aurora

Como a Judite a redimir Betúlia!

Bem haja, pois, esse poder terrível,

-- Essa dominação aterradora

-- Enorme força regeneradora

Que faz dos homens um leão que dorme

E do Amor faz uma potência enorme

Que vela sobre os homens, impassível!

Esta de amor onde queixosa, Irene,

Quedo, sonhei-a, aos astros, ontem, quando

Entre estrias de estrelas, fosforeando,

Egrégia estavas no teu plaustro egrégio

Mais bela do que a Virgem de Corrégio

E os quadros divinais de Guido Reni!

Qual um crente em asiático pagode,

Entre timbales e anafis estrídulos,

Cativo, beija os áureos pés dos ídolos,

Assim, Irene, eis-me de ti cativo!

Cativaste-me, Irene, e eis o motivo,

Eis o motivo porque fiz esta ode.

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