Estrofes Sentidas Eu e Outras Poesias · Capítulo 208 de 208
Obra Menu

Estrofes Sentidas

Eu sei que o Amor enche o Universo todo

E se prende dos poetas à guitarra

Como o pólipo que se agarra ao lodo

E a ostra que às rochas eternais se agarra.

O amor reduz-nos a uniformes placas,

Uniformiza todos os anelos

E une organizações fortes e fracas

Nos mesmos laços e nos mesmos elos.

Por muito tempo eu lhe sorvi o aroma,

E, desvairado, sem prever o abismo

Fiz desse amor um ídolo de Roma,

Eleito Deus no altar do fetichismo!

Tudo sacrifiquei para adorá-lo

-- Mas hoje, vendo o horror dos meus destroços,

Tenho vontade de estrangulá-lo

E reduzi-lo muitas vezes a ossos!

Todo o ser que no mundo turbilhona

Veja do Amor, à luz das minhas frases,

Uma montanha que se desmorona,

Estremecendo em suas próprias bases.

E em qualquer parte do Universo veja --

Sombrias ruínas de um solar egrégio

E o desmoronamento duma Igreja

Despedaçada pelo sacrilégio.

A Natureza veste extraordinárias

Roupagens de ouro. Além, nas oliveiras,

Aves de várias cores e de várias

Espécies, cantam óperas inteiras.

A compreensão da minha niilidade

Aumenta à proporção que aumenta o dia

E pouco a pouco o encéfalo me invade

Numa clareza de fotografia.

Na área em que estou, ao matinal assomo,

Passa um rebanho de carneiros dóceis...

E o Sol arranca as minhas crenças como

Boucher de Perthes arrancava fósseis.

Observo então a condição tristonha

Da Humanidade, ébria de fumo e de ópio,

Tal qual ela é, e não tal qual a sonha

E a vê o Sábio pelo telescópio.

O Sábio vê em proporções enormes

Aquilo que é composto de pequenas

Partes, construindo corpos quase informes

E aquilo que é uma parcela apenas.

Da observação nos elevados montes

Prefiro, à nitidez real dos aspectos,

Ver mastodontes onde há mastodontes

E insetos ver onde há somente insetos.

A inanidade da Ilusão demonstro

Mas, demonstrando-a, sinto um violento

Rancor da Vida -- este maldito monstro

Que no meu próprio estômago alimento!

Nisto a alma o ofício da Paixão entoa

E vai cair, heroicamente, na água

Da misteriosíssima lagoa

Que a língua humana denomina Mágoa!

Dos meus sonhos o exército desfila

E, à frente dele, eu vou cantando a nênia

Do Amor que eu tive e que se fez argila,

Como Tirteu na guerra de Messênia!

Transponho assim toda a sombria escarpa

Sinistro como quem medita um crime...

E quando a Dor me dói, tanjo minha harpa

E a harpa saudosa a minha Dor exprime!

Estes versos de amor que agora findo

Foram sentidos na solidão de uma horta,

À sombra dum verdoengo tamarindo

Que representa a minha infância morta!

1/1
Menu

Fazer anotação