História De Um Vencido Eu e Outras Poesias · Capítulo 207 de 208
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História De Um Vencido

Sol alto. A terra escalda: é um forno. A flama oriunda

Da solar refração bate no mundo, acende

O pó, aclara o mar e por tudo se estende

E arde em tudo, mordendo a atra terra infecunda.

E o Velho veio para o labor cotidiano,

Triste, do alegre Sol ao grande globo quente

E pôs-se para aí, desoladoramente

A revolver da terra o atro e infecundo arcano.

Por seis horas seu braço empenhado na luta,

Fez reboar pelo solo, alta e descompassada

A dura vibração incômoda da enxada,

Rasgando, do agro solo, a superfície bruta.

Mas o braço cansou! Trabalhou... e o trabalho

-- Do Eterno Bem motor principal e alavanca --

Arrancara-lhe a Crença assim como se arranca

De um ninho a seda branca e de uma árvore o galho!

Sangrou-lhe o coração e a saudade da Aurora!

-- O Hércules que ele fora! O fraco que ele hoje era!

E surpreendido viu que um abismo se erguera

Entre o fraco que era hoje, e entre o Hércules de outrora!

Pois havia de assim, nesta maldita senda

De sofrimento ignaro em sofrimento ignaro

Ir caminhando até tombar sem um amparo

No tremendo marnel da Desgraça tremenda?!

II

Noute! O silêncio vinha entrando pelo mundo

E ele, lúgubre e só, trôpego e cambaleando

Foi-se arrastando, foi aos poucos se arrastando,

Para as bordas fatais dum precipício fundo!

Quis um momento ainda olhar para o Passado...

E em tudo que o rodeava, oito vezes, funéreo

Horrorizado viu como num cemitério

Cadáveres de um lado e cinzas de outro lado!

De súbito, avistando uma frondosa tília

Julgou, louco, avistar a ÁRvore da Esperança...

E bateram-lhe então de chofre na lembrança

A casa que deixara, os filhos, a família!

Não morreria, pois! Somente morreria

Se da Vida, sozinho, ele pisasse os trilhos...

Que mal lhe haviam feito a esposa e a irmã e os filhos?!

Preciso era viver! Portanto, viveria!

Viveria! E a fecunda e deleitosa seara

Verde dos campos, onde arde e floresce a Crença,

Compensaria toda a sua dor imensa

Tal qual o Céu a dor de Cristo compensara!

E aos tropeços, tombando, o Velho caminhava...

Caminhava, e a sonhar, bêbado de miragem,

Nem viu que era chegado o termo da viagem,

E amplo, a rugir-lhe aos pés, o precipício estava.

Num instante viu tudo, e compreendendo tudo,

Quis fazer um esforço -- o último esforço, e o braço

Pendeu exangue, o peito arqueou-se, o cansaço

Empolgara-o, e ele quis falar e estava mudo!

Mudo! E a quem contaria agora as suas mágoas?!

E trágico, no horror brutoda despedida

Abraçou-se com a Dor, abraçou-se com a Vida

E sepultou-se ali no coração das águas!

Cantavam muito ao longe uns carmes doloridos!

Eram tropeiros, era a turba trovadora

Que assim cantava, enquanto a Terra Vencedora

Celebrava ao luar a Missa dos Vencidos!

E o cadáver, a toa, a flux d’água, flutua!

Ninguém o vê, ninguém o acalenta, o acalenta...

Somente entre a negrura atra da terra poenta

Alguém beija, alguém vela o cadáver: a Lua!

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