Parte I, Lira III Marília de Dirceu · Capítulo 3 de 96
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Parte I, Lira III

De amar, minha Marília, a formosura

Não se podem livrar humanos peitos.

Adoram os heróis; e os mesmos brutos

Aos grilhões de Cupido estão sujeitos.

Quem, Marília, despreza uma beleza,

A luz da razão precisa;

E, se tem discurso, pisa

A lei que lhe ditou a Natureza.

Cupido entrou no Céu. O grande Jove

Uma vez se mudou em chuva de ouro;

Outras vezes tomou as várias formas

De General de Tebas, velha e touro.

O próprio Deus da Guerra desumano

Não viveu de amor ileso;

Quis a Vênus, e foi preso

Na rede que lhe armou o Deus Vulcano.

Mas sendo amor igual para os viventes,

Tem mais desculpa, ou menos esta chama:

Amar formosos rostos acredita,

Amar os feios de algum modo infama.

Que lê que Jove amou, não lê nem topa,

Que ele amou vulgar donzela:

Lê que amou a Dânae bela,

Encontra que roubou a linda Europa.

Se amar uma beleza se desculpa

Em quem ao próprio Céu e Terra move:

Qual é a minha glória, pois igualo

Ou excedo no amor ao mesmo Jove?

Amou o Pai dos Deuses Soberano

Um semblante peregrino:

Eu adoro o teu divino,

O teu divino rosto, e sou humano.

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