Parte III, Lira VIII Marília de Dirceu · Capítulo 79 de 96
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Parte III, Lira VIII

Em cima dos viventes fatigados

Morfeu as dormideiras espremia:

Os mentirosos sonhos me cercavam;

Na vaga fantasia

Ao vivo me pintavam

As glórias, que desperto,

Meu coração pedia.

Eu vou, eu vou subindo a nau possante,

Nos braços conduzindo a minha bela;

Volteia a grande roda, e a grossa amarra

Se enleia em torno dela;

Já ponho a proa à barra,

Já cai ao som do apito

Ora uma, ora outra vela.

Os arvoredos já se não distinguem:

A longa praia ao longe não branqueja;

E já se vão sumindo os altos montes,

Já não há que se veja

Nos claros horizontes,

Que não sejam vapores,

Que Céu, e mar não seja.

Parece vão correndo as negras águas,

E o pinho qual rochedo estar parado;

Ergue-se a onda, vem à nau direita,

E quebra no costado;

O navio se deita,

E ela finge a ladeira

Saindo do outro lado.

Vejo nadarem os brilhantes peixes,

Cair do lais a linha que os engana;

Um dourado no anzol está pendente,

Sofre morte tirana,

Entretanto que a sente,

Ao tombadilho açoita

A cauda, e a barbatana.

Sobre as ondas descubro uma carroça

De formosas conchinhas enfeitada;

Delfins a movem, e vem Tétis nela;

Na popa está parada;

Nem pode a Deusa bela

Tirar os brandos olhos

Na minha doce amada.

Nas costas dos golfinhos vêm montados

Os nus Tritões, deixando a esfera cheia

Com o rouco som dos búzios retorcidos.

Recreia, sim, recreia

Meus atentos ouvidos

O canto sonoroso

Da música sereia.

Já sobe ao grande mastro o bom gajeiro;

Descobre arrumação, e grita - terra!

À murada caminha alegre a gente;

Alguns entendem que erra;

Pelo imóvel somente

Conheço não ser nuvem,

Sim o cume d'alta serra.

De Mafra já descubro as grandes torres;

(E que nova alegria me arrebata!)

De Cascais a muleta já vem perto,

Já de abordar-nos trata;

Já o piloto esperto,

Inda debaixo manda

Soltar mezena, e gata.

Eu vou entrando na espaçosa barra,

A grossa artilharia já me atroa;

Lá ficam Paço d'Arcos, e a Junqueira;

Já corre pela proa

Uma amarra ligeira;

E a nau já fica surta

Diante da grã Lisboa.

Agora, agora sim, agora espero

Renovar da amizade antigos laços;

Eu vejo ao velho pai, que lentamente

Arrasta a mim os passos;

Ah! com vem contente!

De longe mal me avista,

Já vem abrindo os braços.

Dobro os joelhos, pelos pés o aperto;

E manda que dos pés ao peito passe;

Marília, quanto eu fiz, fazer intenta;

Antes que os pés lhe abrace

Nos braços a sustenta;

Dá-lhe de filha o nome,

Beija-lhe a branca face.

Vou descer a escada, oh Céus, acordo!

Conheço não estar no claro Tejo;

Abro os olhos, procuro a minha amada,

E nem sequer a vejo.

Venha a hora afortunada,

Em que não fique em sonho

Tão ardente desejo!

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